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Falha inédita em execução de mulher no Tennessee suspende pena de morte no estado

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Um procedimento de execução por injeção letal de uma mulher no Tennessee resultou em um fracasso sem precedentes na última quarta-feira (30/9), desencadeando a suspensão temporária da pena capital no estado. Christa Gail Pike, sentenciada por um homicídio brutal ocorrido em 1995, seria a primeira mulher a enfrentar a pena de morte em solo tennesseano em mais de dois séculos, mas o processo falhou em duas tentativas, culminando em sua remoção de ambulância da Penitenciária de Segurança Máxima de Riverbend, em Nashville, para uma unidade hospitalar.

Procedimento de injeção letal falha em duas tentativas

Os registros prisionais indicam que as injeções administradas a Christa Pike continham pentaorbital, um barbitúrico usado em execuções. A falha no procedimento é considerada algo único e sem paralelo na história da aplicação da pena capital nos Estados Unidos. Testemunhas e advogados relataram que Christa não perdeu a consciência por completo, mantendo os batimentos cardíacos e sendo ouvida roncando intensamente atrás da cortina da câmara de execução.

Christa Pike — Foto: Reprodução Crédito: Extra.globo.com

Robin M. Maher, diretora-executiva do Death Penalty Information Center, enfatizou a singularidade do ocorrido, descrevendo-o como “algo único e sem paralelo” na história das execuções nos EUA. A situação gerou questionamentos sobre a segurança e a humanidade do método.

Decisões judiciais e o posicionamento do governador

A execução havia sido confirmada após a negativa de clemência pelo governador Bill Lee e a recusa da Suprema Corte em interromper o processo. Contudo, uma hora antes do horário programado, um tribunal federal de apelações determinou a suspensão, argumentando que a defesa inicial não considerou o histórico de abuso sexual e negligência na infância da condenada. Em uma audiência posterior sobre o método de execução, o próprio Estado admitiu não contestar que Christa tenha sofrido abuso sexual e estupro. Horas depois, a Justiça concedeu aval para a injeção letal.

O governador republicano Bill Lee, um ferrenho defensor da pena de morte, havia sancionado discretamente uma lei em maio de 2024 que autoriza a pena capital para adultos condenados por estupro agravado de vulnerável, buscando desafiar precedentes da Suprema Corte que vetam a pena para crimes não envolvendo homicídio. Após o fracasso da execução de Christa, Lee ordenou uma investigação e suspendeu todas as aplicações da pena de morte no Tennessee até o final do ano, com apenas mais uma prevista.

O crime que levou à condenação de Christa Pike

O crime pelo qual Christa Gail Pike foi sentenciada remonta a 12 de janeiro de 1995. Aos 18 anos, ela, seu então namorado Tadaryl Shipp e uma amiga, Shadolla Peterson, espancaram e torturaram até a morte Colleen Slemmer, de 19 anos. Colleen, uma migrante da Flórida que buscava uma nova vida no Tennessee, foi morta por Christa, que temia que a vítima estivesse tentando “roubar o seu namorado”. O casal chegou a levar um pedaço do crânio de Colleen como “lembrança” do ato brutal.

A promotoria descreveu Christa como a orquestradora do crime contra a “rival amorosa”, enquanto Tadaryl teria concordado em participar para demonstrar sua fidelidade. A gravidade do delito chocou a comunidade na época.

Contexto histórico e a pena capital nos EUA

A execução de Christa seria a primeira de uma mulher no Tennessee desde 1819. Os registros históricos e judiciais da época são marcados por lacunas, citando a executada anterior apenas como “uma mulher negra anônima” condenada por homicídio. Antes de 1819, há menção à execução por enforcamento de outra mulher negra escravizada em 1808 (também sem nome nos arquivos) e de Mary Holcomb (ou Molly Holcomb), igualmente negra, em 1807. Essa falta de identificação ressalta as desigualdades raciais e sociais da época, onde pessoas negras escravizadas eram legalmente tratadas como propriedade, e seus detalhes biográficos frequentemente omitidos dos registros oficiais.

Nos Estados Unidos, 21 dos 50 estados ainda mantêm a pena de morte. Desde a década de 1970, apenas 18 mulheres foram executadas no país, em contraste com 1.663 homens, evidenciando a raridade de condenações capitais femininas. Organizações como a Death Penalty Action se posicionaram contra a execução de Christa. Trish Cooper, vice-diretora da entidade, afirmou que, embora o crime fosse “monstruoso”, Christa não é um “monstro”, tendo demonstrado remorso e não representando mais uma ameaça após tratamento psiquiátrico.

Destino dos cúmplices e pedidos de Christa

Tadaryl Shipp, o namorado de Christa à época do crime, recebeu a sentença de prisão perpétua com possibilidade de liberdade condicional. No entanto, sua pena foi estendida em 25 anos em 2004, após ele ser condenado por tentar estrangular outro detento durante uma briga na prisão. Na cadeia, ele se converteu ao islamismo. Shadolla Peterson, a outra cúmplice, obteve liberdade condicional após se tornar informante no caso do Estado contra Christa e Tadaryl.

Por conta dos abusos sofridos desde a infância, Christa havia solicitado que todos os envolvidos em sua execução fossem mulheres, pedido que não foi atendido. Posteriormente, declarando-se “aterrorizada” com a injeção letal, ela solicitou ser executada por enforcamento, um método não utilizado no Tennessee desde o início do século passado. Seus advogados apelaram à Suprema Corte para suspender a execução, citando transtorno de estresse pós-traumático e o possível “sofrimento mental severo e terror psicológico adicional” de ser amarrada à maca, mas o recurso não foi aceito.