
Kenny Richey em prisão de Ohio — Foto: Reprodução Crédito: Extra.globo.com
A trajetória de Kenny Richey, um cidadão britânico, é marcada por uma série de reviravoltas no sistema judicial dos Estados Unidos, onde ele escapou da execução por 13 vezes ao longo de 21 anos no corredor da morte. Apesar de ter sido finalmente libertado em 2007, sua vida continuou entrelaçada com a justiça americana, resultando em múltiplas condenações por outros crimes e um retorno persistente à prisão, um padrão que destaca os desafios da reintegração após experiências tão extremas.
Nascido na Holanda e criado em Edimburgo, na Escócia, Kenny Richey migrou para os Estados Unidos em 1982, após o divórcio de seus pais. Ele serviu no Corpo de Fuzileiros Navais e, posteriormente, residiu em um apartamento subsidiado pelo governo, em Ohio.
Sua vida tomou um rumo drástico em 30 de junho de 1986, quando um incêndio em seu complexo de apartamentos tirou a vida de Cynthia Collins, uma menina de dois anos, filha de Hope Collins. Richey havia se oferecido para cuidar da criança enquanto a mãe saía. A promotoria o acusou de homicídio, alegando que ele teria iniciado o fogo com a intenção de matar uma ex-namorada, Candy Barchet, que morava no mesmo prédio. Testemunhas relataram ter ouvido Richey ameaçar incendiar o local após flagrar a ex-namorada com outro homem.
Durante o processo, Kenny Richey recusou duas propostas de acordo judicial que poderiam ter evitado a pena capital. Ele foi condenado à morte e passou 21 anos no corredor da morte do estado de Ohio, onde enfrentou a angústia de 13 datas de execução agendadas. Em uma ocasião, a poucos minutos de ser levado à cadeira elétrica, um adiamento de última hora suspendeu a sentença, rendendo-lhe o apelido de “Escocês do Corredor da Morte”.
Com o tempo, a validade das provas usadas em sua condenação, especialmente as evidências forenses, começou a ser questionada. Duas testemunhas-chave que haviam afirmado ter ouvido Richey ameaçar incendiar o apartamento de sua ex-namorada retiraram seus depoimentos. Isso impulsionou uma campanha por sua inocência, que contou com o apoio da Anistia Internacional e levou sua equipe jurídica a apresentar um novo recurso contra a condenação.
Em 2007, Kenny Richey fechou um acordo judicial que resultou em sua libertação. O pacto previa que ele não contestaria acusações de homicídio culposo, exposição de menor a perigo e invasão de domicílio. As acusações mais graves de homicídio e incêndio criminoso foram retiradas, e sua pena foi convertida em tempo de prisão já cumprido. Após a soltura, ele retornou à Escócia para cuidar de sua mãe.
Apesar da liberdade, Richey encontrou dificuldades para se adaptar à nova vida na Escócia, sentindo-se assediado pela notoriedade de sua história. Em 2010, ele decidiu voltar para Ohio, nos EUA, buscando escapar da atenção. No mesmo ano, contudo, foi condenado a três anos de prisão por deixar mensagens telefônicas ameaçadoras para Randall Basinger, o ex-promotor de seu julgamento original, que, àquela altura, já atuava como juiz. Richey alegou que as ameaças eram apenas uma “brincadeira de bêbado”, mas foi considerado culpado.
Após cumprir dois anos de sua pena, ele foi libertado e chegou a trabalhar para a organização beneficente americana Sanctuary Quarters, que constrói moradias para veteranos desabrigados. Contudo, seus problemas com a justiça americana não cessaram. Em 2016, Kenny foi detido no Mississippi por embriaguez pública. Em entrevistas, revelou que seu casamento havia terminado e que estava sem-teto e sem recursos financeiros devido a problemas de saúde. Na época, manifestou o desejo de retornar à Escócia para encontrar “um lugar tranquilo” e passar o resto de seus dias.
Seu desejo de retornar ao Reino Unido não se concretizou. Em 2020, Kenny Richey foi novamente condenado, desta vez a 12 anos de prisão, por fazer novas ameaças de morte contra Randall Basinger, seus filhos e netos por meio das redes sociais. Ele contestou as acusações, alegando que as postagens não foram feitas por ele, mas por sua ex-esposa e um primo que tinham acesso às suas contas.
Atualmente, Kenny Richey cumpre sua pena na Richland Correctional Institution, em Mansfield, Ohio. A previsão é que ele seja libertado por volta de 2032, dependendo de possíveis reduções de pena por bom comportamento, conforme a legislação estadual. Sua história serve como um lembrete contundente das complexas e duradouras consequências de um passado marcado por condenações e o desafio contínuo de encontrar estabilidade após anos de batalha judicial.