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Um fim de semana de caos e destruição assolou o Boulevard Voltaire, em Paris, onde dezenas de estabelecimentos dedicados à cultura pop japonesa foram alvo de uma série de saques coordenados. Na noite do último sábado, 17 de outubro de 2026, grupos encapuchados invadiram e esvaziaram lojas de anime, mangá e colecionáveis, provocando perdas que superam 1 milhão de euros apenas em um dos locais, a tradicional Manga Story.
A devastação material foi imensa. Na Manga Story, um funcionário estimou que o estoque inteiro foi roubado, resultando em um prejuízo superior a 1 milhão de euros. Laurent, de 48 anos, cofundador e sócio da loja, expressou sua desolação, anunciando a intenção de encerrar as atividades após quase três décadas no setor. “Eles levaram tudo. Minha loja era um shopping center gratuito. Eu tinha 17 anos quando cheguei aqui, tenho 48 hoje, mas a história para por aqui”, lamentou o empresário.
Os invasores não pouparam nada, levando mangás, jogos de videogame, figuras de ação e todo tipo de produto derivado. O roubo atingiu também o acervo que Laurent vinha montando há mais de dois anos para a inauguração da MVP Store, um novo empreendimento que abriria na semana seguinte. Entre os itens subtraídos estavam produtos raros da expansão 151 da franquia Pokémon, pacotes de cartas Topps avaliados em até 5.000 euros e uma valiosa coleção de Cavaleiros do Zodíaco, estimada em 14.000 euros.
Em outro estabelecimento vizinho, a Sat.Elite Video Games, especializada em jogos retrô e colecionáveis, o gerente e fundador Ouri Zagoury calculou as perdas em mercadorias e danos estruturais entre 120.000 e 250.000 euros, revisando estimativas iniciais que apontavam para valores ainda maiores.
Registros de câmeras de segurança capturaram o momento exato da invasão de uma das lojas especializadas da capital francesa, por volta das 18h no horário local de Paris. As filmagens mostram um grupo com os rostos cobertos, arrancando mercadorias das vitrines e jogando caixas no chão em questão de minutos. O proprietário, que estava no local durante o ataque, relatou que não conseguiu intervir ou proteger seu patrimônio devido ao grande número de saqueadores.
A onda de ataques no Boulevard Voltaire, uma avenida no 11º arrondissement reconhecida como epicentro da cultura geek e otaku na capital francesa, se estendeu das 18h às 22h daquela noite. Além da Manga Story, os atos de vandalismo e roubo atingiram em sequência outros negócios importantes para a comunidade:
Os incidentes de pilhagem ocorreram em um contexto de manifestações nacionais contra o aumento do custo de vida e a precariedade das escolas públicas na França, precedidas por semanas de protestos estudantis. Essa coincidência de eventos levanta questões sobre a natureza e a organização dos saques.
A apuração dos fatos indica que os grupos invasores visaram produtos específicos, como cartas colecionáveis de Pokémon e Topps, consoles, figuras de ação e mangás. A escolha desses itens não foi aleatória: eles concentram alto valor financeiro em pequeno volume, não possuem número de série rastreável (no caso das cartas) e permitem uma revenda rápida em plataformas digitais de artigos de segunda mão, facilitando a monetização ilícita.
Os ataques a estabelecimentos do setor de jogos e cultura pop não se limitaram à capital, espalhando-se por diversas cidades francesas no mesmo sábado. Em Paris, a sede V.Hive, pertencente à equipe de esportes eletrônicos Team Vitality e situada no Boulevard de Sébastopol, também foi alvo de invasores.
Longe da capital, a situação se repetiu: em Lille, lojas de cartas da rede Le Coin des Barons foram atingidas. Unidades da rede de jogos Micromania-Zing sofreram invasões em Lyon, Rouen e Nice. Nesta última, um gerente e funcionário identificado como Pierre teve sua imagem amplamente compartilhada ao tentar, sem sucesso, proteger a porta de entrada de sua loja contra os saqueadores.
O Ministério do Interior da França, órgão responsável pela segurança pública, divulgou um balanço que dimensionou a série de distúrbios ocorridos no fim de semana. A resposta da comunidade, no entanto, foi imediata e comovente.
No domingo, dia seguinte à destruição no 11º arrondissement, clientes antigos, moradores e fãs da cultura geek compareceram voluntariamente ao Boulevard Voltaire para oferecer ajuda aos proprietários da Manga Story, Sat.Elite Video Games, Hobby One, All Geeks e One Repar. Os voluntários varreram estilhaços de vidro das calçadas e organizaram o que restou no interior dos imóveis, antes que novos tumultos fossem registrados à noite na capital.
Para apoiar os empresários atingidos, a Prefeitura de Paris instalou uma célula de emergência dedicada a auxiliar comerciantes independentes na contabilidade dos danos junto às seguradoras. Em âmbito nacional, o primeiro-ministro da França, Sébastien Lecornu, e o ministro do Comércio, Serge Papin, anunciaram a criação de um núcleo de acompanhamento em Bercy, sede da pasta econômica, e garantiram cobertura estatal de 100% de desemprego parcial para os funcionários de lojas forçadas a fechar as portas. Diante de duas noites consecutivas de saques, as autoridades francesas determinaram na segunda-feira (19) a aplicação de toques de recolher parciais em setores de Paris, Lille e Nice, buscando restaurar a ordem e a segurança.