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Agências de segurança pública em diversas regiões dos Estados Unidos têm adotado uma solução tecnológica para desativar um recurso de proteção de iPhones. Este sistema da Apple, que força a reinicialização dos dispositivos após 72 horas sem uso, é agora neutralizado pelo equipamento Graykey Preserve. O objetivo é manter celulares apreendidos acessíveis para investigações criminais, com o Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE) e departamentos de pelo menos seis estados já empregando a ferramenta.
Essa inovação, desenvolvida pela companhia Magnet Forensics, atua diretamente na interrupção do cronômetro de segurança ativado pela Apple, presente desde o sistema operacional iOS 18.1. O dispositivo impede que o smartphone se reinicie e, consequentemente, que entre no modo “Before First Unlock” (BFU). Este estágio de segurança máxima é crucial, pois nele as chaves criptográficas são removidas da memória volátil, tornando a recuperação de dados por métodos tradicionais de quebra de senha praticamente impossível.
Em contraste com as soluções de extração de dados diretas, o Graykey Preserve opera como um ambiente de contenção, tanto físico quanto digital, para os aparelhos coletados durante operações policiais. A ferramenta assegura o isolamento completo do dispositivo, bloqueando quaisquer conexões externas via rede móvel, Wi-Fi ou Bluetooth. Dessa forma, impede que ordens de apagamento remoto, eventualmente enviadas pelo proprietário, alcancem o sistema operacional do telefone.
Ao manter a conexão, o sistema mantém o aparelho no estado técnico chamado “After First Unlock” (AFU). Isso possibilita que os investigadores preservem informações temporariamente guardadas na memória, como diálogos de aplicativos de mensagens, fotos recém-excluídas e registros de localização em cache. A capacidade de “congelar” o estado do dispositivo estende significativamente o tempo disponível para os peritos criminais, aguardando a obtenção de mandados judiciais para análises forenses mais aprofundadas em laboratório.
Documentos de compras governamentais e registros de processos judiciais indicam a ampla distribuição dessa ferramenta em departamentos de perícia criminal em diversas localidades dos Estados Unidos.
A utilidade prática do sistema de contenção foi confirmada em 15 de dezembro de 2025, em Westbrook, no Maine. Na ocasião, um indivíduo foi detido com quatro iPhones em um veículo alugado, acusado de violar sua liberdade condicional. O sargento-detetive Maurice Drouin, do Gabinete do Xerife do Condado de Androscoggin e integrante de uma força-tarefa do FBI, detalhou o procedimento. Ele enfatizou que “ao preservar o dispositivo, não estamos extraindo nenhuma informação adicional do aparelho. Nenhuma informação é obtida pela ferramenta Preserve. O único propósito é garantir que o status do dispositivo não seja alterado enquanto aguardamos a extração de dados”. Este caso ilustra como a tecnologia garante a integridade da prova digital.
O Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE) formalizou a aquisição da tecnologia GrayKey, conforme contrato datado de 11 de agosto de 2026, no valor de US$ 67.501,66. A crescente adoção dessa ferramenta, que permite o acesso prolongado a dados sensíveis, gerou preocupações e críticas por parte de organizações da sociedade civil. Maria Villegas Bravo, advogada do Centro de Informações sobre Privacidade Eletrônica, expressou que “é alarmante que este tipo de monitoramento amplo, a fluidez das missões e a expansão geral de suas capacidades, juntamente com a habilidade de preservar esses dados, lhes concedam mais tempo para investigar indivíduos”. Isso levanta questões importantes sobre o equilíbrio entre segurança e direitos individuais.
O segmento de extração forense digital representa um mercado bilionário no cenário corporativo global. A Magnet Forensics, fundada pelo ex-policial Jad Saliba, expandiu-se ao incorporar a Grayshift e, posteriormente, foi comprada em 2023 pelo fundo de private equity Thoma Bravo por uma quantia de US$ 1,3 bilhão. Outro player relevante neste mercado é a empresa israelense Cellebrite, com uma avaliação de US$ 3 bilhões, que também oferece uma funcionalidade análoga através de seu sistema Inseyets, capaz de “pausar” o temporizador de segurança da Apple. Este cenário demonstra a alta demanda por soluções que acessam dados de dispositivos móveis.
O Centro de Ciências Forenses do Condado de Onondaga, localizado em Syracuse, registrou o maior número de utilizações individuais, com 71 acionamentos documentados. Contudo, a entidade não divulgou quantos desses usos resultaram na apresentação de provas aceitas em processos judiciais. Tanto a Apple quanto a Magnet Forensics não se manifestaram quando questionadas a respeito do funcionamento e do impacto da ferramenta.