
Benjamin Halona foi uma das vítimas de ataques de urso recentes — Foto: Divulgação Crédito: Extra.globo.com
Uma onda de interações violentas entre ursos e seres humanos tem gerado preocupação crescente em diversas regiões dos Estados Unidos, culminando na morte de um homem atacado dentro de sua própria casa no Novo México. A sequência incomum de incidentes, registrada entre a segunda quinzena de agosto e o início de setembro, envolveu trilheiros, moradores de áreas rurais e até comunidades urbanas, com relatos de ferimentos graves e fatalidades em estados como Washington, Colorado, Novo México e Alasca.
O período atual, que marca a transição para o fim do verão no Hemisfério Norte, é crucial para o comportamento dos ursos. Nesta fase, conhecida como hiperfagia, os animais entram em um estado de busca incessante por alimentos, chegando a consumir até 20 mil calorias diárias para acumular reservas de gordura essenciais antes da hibernação.
Especialistas em vida selvagem, incluindo o Departamento de Peixes e Vida Selvagem da Nação Navajo, apontam que a escassez sazonal de fontes naturais de alimento nas florestas, como frutos silvestres e sementes, é um dos principais fatores que levam os ursos a se aventurarem em busca de comida.
Adicionalmente, a crescente expansão imobiliária sobre habitats naturais e o descarte inadequado de lixo orgânico por parte da população contribuem para atrair tanto ursos-negros quanto ursos-pardos diretamente para áreas habitadas, como quintais e trilhas movimentadas. Autoridades da reserva Navajo, em comunicado divulgado pelo Western Journal, alertaram que “ursos são animais selvagens que devem ser considerados imprevisíveis e potencialmente perigosos; embora ataques sejam incomuns, qualquer indivíduo pode agir de forma agressiva ou defensiva se for surpreendido ou atraído por comida”.
O incidente mais grave do último mês chocou a comunidade de Crystal, na área da Reserva Navajo, no Novo México. Benjamin Halona, de 67 anos, foi atacado fatalmente por um urso-negro dentro de sua própria residência, após o animal invadir a propriedade por uma porta aberta. Familiares que retornavam do correio encontraram o predador na casa. Embora autoridades locais tenham abatido o urso, os ferimentos da vítima já eram incompatíveis com a vida.
No nordeste do estado de Washington, em Pend Oreille County, uma mulher foi surpreendida e atacada por um urso-negro no quintal de sua casa, próximo à cidade de Ione. O confronto ocorreu a poucos metros da entrada da moradia, deixando a vítima com ferimentos que exigiram atendimento médico imediato. O Departamento de Peixes e Vida Selvagem de Washington (WDFW) mobilizou oficiais de conservação e cães farejadores para localizar o animal.
Em Montana, uma trilheira identificada como Aubrey sofreu lesões que “mudaram sua vida para sempre” após ser atacada por uma ursa-parda em 31 de agosto. O incidente ocorreu enquanto ela caminhava com seu cão em uma trilha de Columbia Falls, sendo surpreendida por uma ursa acompanhada de ao menos um filhote. O Departamento de Vida Selvagem, Pesca e Parques de Montana (FWP) classificou o episódio como um “encontro defensivo inesperado”, sem divulgar detalhes médicos por questões de confidencialidade.
Outro episódio marcante ocorreu em Whistler, Colúmbia Britânica, no Canadá, onde uma mulher sofreu lesões corporais descritas como irreversíveis após um encontro inesperado com um urso em uma trilha selvagem, próximo ao Lago Conflict. As equipes ambientais indicaram que o confronto teve características puramente defensivas por parte do animal. Um urso-negro macho adulto foi sacrificado por segurança pública, mas as investigações não confirmaram se era o agressor ou mesmo a espécie exata (urso-negro ou grizzly).
Ainda em Montana, em fevereiro deste ano, o caçador Chase Dellwo vivenciou um ataque frontal ao se deparar com um urso-pardo de 180 kg que estava hibernando. A fera saltou sobre ele, causando feridas profundas nas pernas e hematomas nos olhos. Dellwo, no entanto, não culpou o animal, afirmando que a reação do urso foi um reflexo de defesa ao ser assustado e que ele demonstrou tanto medo quanto o humano durante o confronto, conforme relatado pelo “Daily Mirror”.
A crescente frequência e a localização dos ataques, especialmente em áreas residenciais, sublinham a importância de uma maior conscientização pública sobre a convivência com a vida selvagem. Entender os fatores que levam os ursos a se aproximarem de habitações humanas é fundamental para mitigar os riscos.
Medidas simples, como o descarte correto de lixo em recipientes à prova de ursos, a limpeza de áreas externas que possam atrair os animais e a cautela ao caminhar em trilhas, especialmente ao anoitecer ou amanhecer, são essenciais para evitar encontros indesejados e proteger tanto a população quanto os próprios animais. A imprevisibilidade da vida selvagem exige respeito e precaução constantes.