
UE suspende importações de carnes do Brasil nesta quinta-feira; entenda os motivos – Mix Vale Crédito: Mixvale.com.br
A União Europeia implementou, a partir de 3 de setembro de 2026, uma significativa restrição à entrada de produtos de origem animal provenientes do Brasil. A medida impede a exportação de diversos itens, incluindo carne bovina, suína, de frango, mel, pescados e ovos, para os 27 países que compõem o bloco europeu. A decisão, que afeta um dos maiores produtores de alimentos do mundo, levanta preocupações sobre o impacto econômico e as relações comerciais.
A determinação da União Europeia foi anunciada em maio de 2026, após a exclusão do Brasil da lista de nações que cumprem suas rigorosas normativas sobre o uso de antimicrobianos na pecuária. O bloco europeu proíbe a utilização dessas substâncias como promotores de crescimento em animais, além de vetar o uso de antimicrobianos exclusivos para tratamento humano em rebanhos.
É fundamental esclarecer que a proibição não se deu por irregularidades encontradas diretamente nos produtos cárneos brasileiros. Pelo contrário, a motivação reside na percepção da União Europeia de que o sistema de controle do Brasil sobre a aplicação dessas substâncias é inadequado, gerando uma desconfiança regulatória. As exportações de carne bovina e de frango são as mais impactadas, embora representem uma fração menor do volume total de produtos exportados pelo Brasil.
A reversão da medida depende de intensas negociações entre o governo brasileiro e o bloco europeu. Uma auditoria foi realizada no Brasil entre 31 de agosto e 4 de setembro de 2026, com foco nas cadeias produtivas de frango e mel. No entanto, a análise dos resultados dessa inspeção pela Comissão Europeia pode se estender por aproximadamente dois meses, mantendo o cenário de incerteza para os exportadores.
Uma porta-voz da Comissão Europeia reiterou, em 31 de agosto de 2026, que o Brasil é considerado um “parceiro importante” e que há um esforço conjunto com as autoridades brasileiras para garantir o cumprimento das exigências. A expectativa é que, uma vez comprovada a conformidade, as exportações possam ser retomadas.
Setores do agronegócio brasileiro interpretaram a restrição como uma ação com viés protecionista. Essa percepção ganhou força pelo fato de a medida ter sido divulgada poucos dias após a implementação do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul. O tratado gerou considerável oposição por parte de agricultores europeus, que manifestaram preocupação com a concorrência de produtos sul-americanos mais acessíveis, especialmente os provenientes do Brasil, que se destaca como o maior exportador agrícola do Mercosul para o bloco.
A Confederação Italiana de Agricultores (Cia-Agricoltori Italiani), uma das principais entidades do setor na Itália, manifestou apoio ao bloqueio em 2 de setembro de 2026, sugerindo que a decisão poderia sinalizar uma mudança na política comercial da União Europeia. A Itália, inclusive, figura como o maior comprador de carne bovina brasileira dentro da UE em volume, conforme dados de 2025 do Agrostat. Cristiano Fini, presidente nacional da organização, defendeu a necessidade de “regras e condições iguais para todos” nos acordos comerciais.
É notável que, enquanto o Brasil enfrenta essa suspensão, os outros membros do Mercosul — Argentina, Paraguai e Uruguai — continuam com autorização para exportar seus produtos de origem animal aos países europeus, evidenciando uma situação isolada para o país.
O governo brasileiro tem mantido negociações ativas com a União Europeia desde o anúncio da medida. Em abril de 2026, o Ministério da Agricultura emitiu uma portaria proibindo o uso de determinados antimicrobianos, como avoparcina, virginiamicina e bacitracina. Em maio, uma proposta brasileira para um período de transição foi rejeitada pelo bloco.
Em junho de 2026, foi divulgado um novo protocolo governamental para o controle do uso de antimicrobianos na pecuária. As normas estabelecem o rastreamento individual de cada animal, desde o nascimento até o abate, visando certificar que essas substâncias não foram empregadas de forma irregular. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) informou que todas as empresas associadas e autorizadas a exportar para a União Europeia já aderiram a este novo protocolo, que foi elaborado em colaboração com a Associação Brasileira das Certificadoras por Auditoria e Rastreabilidade (ABCAR) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Apesar da adesão aos novos protocolos, a União Europeia ainda não reverteu sua decisão. Mesmo com uma possível reconsideração, o Brasil enfrentaria um período considerável para restabelecer as exportações de carne bovina ao bloco. Isso porque um animal que inicie hoje os novos protocolos de controle de antimicrobianos levará de 24 a 36 meses para estar apto ao abate conforme as novas exigências. Para o frango, o ciclo de produção é significativamente mais breve, totalizando aproximadamente 45 dias entre o nascimento e o momento do abate.
Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), garantiu em julho de 2026 que o setor de frango sempre segregou a produção destinada à União Europeia daquela vendida para outros mercados. Para Santin, a principal alteração consistirá na intensificação das fiscalizações em fábricas de ração, granjas e frigoríficos, algo já previsto no Plano Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes (PNCRC). Produtores de carne bovina já habilitados para exportar à União Europeia também não devem enfrentar grandes adaptações em suas práticas, dado que muitos já seguiam padrões elevados.