A rede social Orkut, um ícone da internet brasileira no início dos anos 2000, está no centro de uma ambiciosa campanha de relançamento global. O movimento começou em outubro de 2026, impulsionado pelo engenheiro de software Orkut Büyükkökten, de 51 anos, que recentemente readquiriu os direitos da marca junto ao Google. Em declarações divulgadas nesta sexta-feira (23), o fundador da plataforma não poupou críticas ao papel da Meta nas eleições americanas e ao modelo de negócios focado em algoritmos de engajamento.
Para viabilizar a reintrodução do serviço, que promete priorizar comunidades e conexões humanas autênticas, o ex-colaborador do Google lançou uma petição online que já angaria centenas de milhares de assinaturas. O Brasil, onde a plataforma teve um sucesso estrondoso, lidera a adesão dos interessados. Büyükkökten explicou: “Deixei o Google, mas não tinha como trazer o Orkut de volta porque não possuía a propriedade intelectual nem a marca. Após anos de diálogo com a empresa, no final do ano passado, consegui reaver ambos os direitos, e agora posso oficializar seu retorno.”
Críticas Veementes à Meta e a Influência dos Algoritmos
Ao analisar a influência das gigantes da tecnologia sobre a democracia, Büyükkökten afirmou que o Facebook teve um papel direto nas eleições presidenciais dos Estados Unidos. Ele atribuiu esse impacto à proliferação de desinformação, frequentemente impulsionada por atores estrangeiros, redes de contas automatizadas (bots) e inteligência artificial. Questionado sobre as acusações da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que algoritmos da Meta teriam favorecido Flávio Bolsonaro no cenário brasileiro, o engenheiro evitou confirmar um viés específico no Brasil, mas reiterou a interferência documentada nos EUA.
“Isso é extremamente preocupante, pois a Meta favoreceu Donald Trump nas eleições americanas. Não estou sugerindo que a Meta beneficie qualquer candidato no Brasil, mas é profundamente prejudicial quando uma plataforma adota uma posição partidária”, declarou o criador do Orkut. Ele também argumentou que a interrupção dos programas de checagem de fatos pelas plataformas comprometeu o debate público e até a saúde, citando casos de óbitos decorrentes da recusa à vacinação contra a Covid-19, alimentada por notícias falsas.
Orkut defende Responsabilidade das Empresas, Não Regulação Estatal
No que tange ao debate sobre o Supremo Tribunal Federal (STF) e a regulamentação das empresas de tecnologia, Büyükkökten manifestou-se contra a intervenção governamental. Ele argumentou que as diretrizes estatais se modificam conforme o governante em exercício — exemplificando com as diferenças entre Donald Trump, Kamala Harris e Joe Biden nos Estados Unidos — e que nenhum presidente deveria concentrar tal poder de controle.
“Não acredito que o governo deva regular as plataformas, mas as empresas precisam ser responsáveis por dispor das ferramentas necessárias”, pontuou. Na perspectiva do engenheiro, a liberdade de expressão não pode transgredir os limites da desinformação, do tráfico, da violência armada, da pornografia infantojuvenil e do discurso de ódio político. Para ele, cabe às próprias companhias manter equipes ativas dedicadas à verificação de fatos e à moderação de conteúdo.
Proposta de Nova Plataforma Prioriza Comunidades e Experiências Reais
A mobilização para o retorno da plataforma está sendo realizada no endereço oficial da rede social, com o objetivo de aferir o interesse do público e atrair investimentos que acelerem o desenvolvimento do projeto. Os dados coletados até o momento na campanha demonstram uma notável concentração do interesse por parte dos usuários brasileiros, historicamente apaixonados pela plataforma. Este fenômeno sublinha a profunda conexão cultural que o Orkut estabeleceu no país, sendo por muitos anos a principal ferramenta de interação social online antes da ascensão de concorrentes globais.
A proposta detalhada na carta aberta “Uma internet mais gentil é possível” planeja substituir o tradicional feed — o fluxo contínuo de publicações presente em redes como Instagram, TikTok e X — por um modelo baseado em comunidades temáticas. “Em um feed, você é espectador; em uma comunidade, você é participante”, escreveu Büyükkökten no documento de apresentação. O engenheiro critica a incessante busca por atenção via anúncios e a proliferação de conteúdos sintéticos gerados por inteligência artificial e deepfakes (vídeos ou áudios manipulados digitalmente para simular pessoas reais). “Uma geração de crianças entregue a algoritmos que as viciaram, as fragmentaram e as comercializaram para anunciantes. Não é surpresa que tenham crescido sozinhas e ansiosas”, afirmou na carta. Apesar de suas críticas ao uso de robôs para simular companhia para jovens das gerações Z e Alpha, o projeto do novo site prevê empregar inteligência artificial como um recurso para auxiliar os usuários a formarem amizades genuínas.
Para o público brasileiro, que terá tratamento prioritário no relançamento, Büyükkökten manifestou o desejo de apoiar a volta de jogos sociais que fizeram grande sucesso nos anos 2000, como Colheita Feliz, Buddy Poke, Farmville e Mafia Wars. Já o modelo financeiro do novo Orkut busca integrar pequenos negócios locais e grandes marcas em comunidades exclusivas, permitindo conversas diretas com os consumidores, sem atrelar o alcance das publicações ao valor investido em publicidade.
O Orkut original foi inaugurado em janeiro de 2004, período em que Büyükkökten cursava a Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, e trabalhava no Google. Ao longo de uma década de funcionamento, a plataforma ultrapassou a marca de 10 milhões de membros no Brasil e 300 milhões globalmente, até ser descontinuada pelo Google em setembro de 2014, quando a empresa decidiu focar na rede Google+. Em abril de 2022, o domínio oficial chegou a ser reativado com um anúncio sobre um novo projeto, mas o criador esclareceu que essa iniciativa gerou apenas especulações, pois ele ainda não detinha os direitos legais sobre o nome.
Apesar da abertura para o cadastro de apoiadores em 2026, ainda não foi definida uma data oficial para o relançamento do Orkut, nem uma meta mínima de assinaturas divulgada para tornar o serviço viável. Conforme os termos de uso do site oficial, atualizados em 6 de outubro de 2026, a petição tem caráter de campanha de pré-lançamento, e a adesão não garante a abertura antecipada de conta, a reserva de nome de usuário ou uma posição em fila de espera.
