Categories: Notícias

Netinho, Ícone do Axé e Voz de Milla, Morre Aos 60 Anos em Salvador

Share

O cenário musical brasileiro se despede de Ernesto de Souza Andrade Júnior, mais conhecido como Netinho, que faleceu na manhã desta terça-feira (13), aos 60 anos, no Hospital Aliança Star, em Salvador. O cantor, um dos pilares do axé music, enfrentava uma reincidência de linfoma não Hodgkin de células B, um câncer que afeta o sistema linfático, e teve seu quadro de saúde severamente comprometido por complicações recentes.

A Batalha Incessante Contra a Doença

A equipe do artista confirmou o falecimento por meio de um comunicado, expressando profunda tristeza. A nota oficial revelou que o linfoma não Hodgkin tipo B progrediu para uma falência renal e disfunção múltipla de órgãos, culminando no agravamento irreversível de seu estado de saúde.

Crédito: Mixvale.com.br

Sob os cuidados da hematologista Glória Bonfim, Netinho havia sido internado novamente na capital baiana para dar continuidade a ciclos de quimioterapia. Ele estava em preparação para um autotransplante de medula óssea, um procedimento que buscava combater a doença. Em 2025, durante as fases iniciais do tratamento, o cantor compartilhou publicamente ter recebido 128 injeções subcutâneas abdominais, um testemunho da intensidade de sua luta.

Em setembro de 2026, diante da piora de sua condição, os assessores de Netinho anunciaram um afastamento temporário do artista das redes sociais. A mensagem transmitida à época pedia compreensão e informava que ele dedicaria todas as suas energias à recuperação e ao tratamento, evidenciando a gravidade do momento.

O Legado Musical e o Fenômeno “Milla”

Nascido em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo baiano, e mudando-se para Salvador aos 10 anos, Netinho iniciou sua jornada musical cedo. Aos 14, ganhou seu primeiro violão, e aos 16, enquanto cursava Engenharia Civil na Universidade Católica do Salvador, já se apresentava em bares e escolas, interpretando MPB e bossa nova.

A grande virada na carreira de Netinho ocorreu em 1988, quando assumiu os vocais da Banda Beijo durante o Carnaval de Salvador. O grupo rapidamente conquistou o país com o hit “Beijo na Boca” e emplacou outros sucessos como “Estrela Primeira” e “A Vida é Festa”, solidificando seu nome no cenário musical.

Em 1993, Netinho embarcou em sua carreira solo, e três anos depois, em 1996, lançou a canção “Milla”, que se tornou um hino do axé music. Composta por Manno Góes, a música transcendeu fronteiras, ganhando versões em diversos idiomas e levando o artista a realizar turnês internacionais em países como Itália e Chile, consolidando-o como um embaixador do gênero.

Além de sua performance nos palcos, Netinho demonstrou um espírito empreendedor na indústria musical. Ele fundou um estúdio de gravação e mixagem de alto padrão no Rio de Janeiro, que atraiu nomes de peso da música nacional e internacional, como Maria Bethânia, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Laura Pausini e Lenny Kravitz. O cantor também atuou na curadoria de novos talentos, administrando um selo independente focado em artistas da música baiana.

Uma Vida Marcada por Desafios de Saúde

A batalha contra o câncer não foi o primeiro grande desafio de saúde na vida de Netinho. Em 2013, o músico enfrentou uma grave crise clínica decorrente do uso de anabolizantes. Naquele período, ele sofreu três acidentes vasculares cerebrais (AVCs), que afetaram seu aparelho fonador e o deixaram sem voz por um longo período. As sequelas exigiram uma recuperação motora e vocal intensa, mantendo-o afastado dos desfiles do Carnaval de Salvador por quatro anos, um testemunho de sua resiliência.

Em sua vida pessoal, Netinho foi casado com a jornalista Mariana Trindade entre 1997 e 2003, união da qual nasceu sua filha, Bruna Trindade. No âmbito político, o artista teve uma incursão em 2022, concorrendo a deputado federal na Bahia pelo PL. Ele obteve 31 mil votos, garantindo a posição de suplente em sua coligação, mostrando um engajamento cívico para além da arte.

Nos meses que antecederam sua última internação, Netinho dedicava-se a um projeto autoral ambicioso, intitulado “1966”, em referência ao ano de seu nascimento. A iniciativa previa uma série de shows de retorno aos palcos, integrando recursos de inteligência artificial, um sinal de seu desejo de inovar e continuar conectado com seu público.

Últimas Palavras e Cerimônia Íntima

Em reflexões compartilhadas com sua equipe e registradas por sua assessoria nos momentos finais de tratamento, o cantor expressou profunda gratidão aos seus fãs. “Partirei feliz, realizado, pois a vida me deu muito mais do que eu sonhei. Levarei comigo o sorriso de cada fã que foi feliz com a minha arte”, afirmou Netinho, deixando uma mensagem de despedida e apreço.

Por um desejo expresso do próprio artista, as cerimônias de velório e cremação serão restritas apenas aos seus familiares e amigos mais próximos. A família optou por não divulgar publicamente o horário e o local exato dos ritos fúnebres, respeitando a vontade de Netinho por uma despedida mais reservada.