
Múmia exposta em Kelvingrove, Escócia — Foto: Reprodução/Wikimedia Commons Crédito: Extra.globo.com
Em uma iniciativa que redefine as práticas de exposição de artefatos históricos, o renomado Kelvingrove Art Gallery and Museum, localizado em Glasgow, na Escócia, anunciou a remoção de múmias e outros restos humanos de seu acervo público. A decisão, considerada inovadora, fundamenta-se na premissa de que os indivíduos falecidos não puderam conceder permissão para sua própria exibição.
Visitantes do museu observarão, a partir deste mês, a introdução de novas sinalizações em certas áreas de exposição, que comunicarão a decisão da curadoria de “remover restos humanos desta mostra como um sinal de respeito”. Entre os artefatos que foram retirados do público estão uma cabeça mumificada de um homem, um pé mumificado, uma mão direita mumificada — esta última recuperada do histórico Vale dos Reis, em Luxor, no Egito — e os vestígios mortais de um sacerdote conhecido como Nekt.
A Glasgow Life, uma organização sem fins lucrativos que gerencia as instituições culturais da cidade escocesa com financiamento público, classificou a medida como um reflexo das “práticas museológicas contemporâneas”. A entidade justificou a ação citando o Código de Ética revisado do Conselho Internacional de Museus (ICOM), que entrará em vigor em junho de 2026, e que estipula que museus devem “defender a dignidade inerente dos restos humanos e promover o respeito pelo seu significado”.
Um porta-voz da organização explicou que a política interna da Glasgow Life Museums prevê que restos humanos só devem ser exibidos com o consentimento documentado e esclarecido do próprio indivíduo falecido ou, em situações cabíveis, de seus descendentes. Na ausência de tal permissão, a remoção de restos mortais do Antigo Egito da exposição é vista como uma forma mais respeitosa de tratamento aos indivíduos falecidos.
A iniciativa do museu escocês não se restringe a um caso isolado, mas se insere em um movimento global mais amplo de reavaliação das coleções e práticas de exposição em instituições culturais. Museus ao redor do mundo têm sido instados a confrontar seu passado colonial, debater a restituição de artefatos e, crucialmente, repensar a maneira como restos humanos são apresentados ao público. A busca por um “consentimento póstumo”, mesmo que simbólico ou mediado por descendentes, representa um passo significativo na humanização das abordagens museológicas, priorizando a dignidade e a memória dos indivíduos sobre o valor puramente expositivo.
Este debate é fundamental para o futuro das instituições de memória, que buscam se alinhar a valores éticos cada vez mais exigentes, reconhecendo o impacto de suas exposições nas comunidades de origem e na percepção pública sobre a história e o patrimônio. A decisão de Glasgow destaca uma tendência onde a curadoria é informada não apenas pela pesquisa histórica, mas também por uma sensibilidade cultural e ética aprofundada.
A decisão da direção do museu, no entanto, provocou críticas consideráveis tanto de visitantes quanto de usuários de redes sociais. Johnny McFarlane, por exemplo, compartilhou sua frustração no X, publicando uma imagem da nova placa informativa. Ele lamentou que sua filha, entusiasmada com o Antigo Egito, não pôde ver a múmia que esperava, encontrando apenas um aviso no lugar de itens que estavam em exposição há anos.
Outros internautas reagiram com ironia e ceticismo. Um deles comentou sarcasticamente sobre o “respeito” de guardar as múmias em um depósito, enquanto outro sugeriu que uma múmia milenar poderia até sentir “orgulho” de estar em um museu, preferindo isso a permanecer “debaixo da terra, no escuro”. Houve também quem questionasse a sinceridade da medida, afirmando que “as pessoas que removem essas coisas raramente têm qualquer respeito pelos mortos; não passa de uma encenação”.
No cenário político, Murdo Fraser, porta-voz de Cultura do Partido Conservador escocês, condenou a ação, classificando-a como um “sintoma da cultura do politicamente correto que saiu do controle”, acentuando o debate sobre os limites da revisão ética em instituições culturais.
A Glasgow Life indicou que esta medida inicial é parte de um plano mais abrangente. A organização pretende estender a remoção de outros restos mortais humanos considerados problemáticos não apenas do Kelvingrove Art Gallery and Museum, mas também do Museu St. Mungo de Arte e Vida Religiosa, demonstrando um compromisso contínuo com a revisão de suas práticas de exibição em toda a rede de instituições culturais de Glasgow.