
O gêmeo digital de Ötzi, o Homem de Gelo — Foto: Divulgação Crédito: Extra.globo.com
Um avanço significativo na arqueologia e preservação histórica foi alcançado com a criação de um “gêmeo digital” ultrarrealista da icônica múmia Ötzi, conhecida como o Homem do Gelo. Este modelo tridimensional de alta precisão, que inclui seus artefatos, representa um marco para a pesquisa e conservação de um dos achados arqueológicos mais importantes do mundo.
A iniciativa, que ganhou destaque em uma publicação científica recente, contou com a participação crucial do designer brasileiro Cícero Moraes, uma referência global em modelagem 3D. A colaboração internacional demonstra como a tecnologia de ponta pode abrir novas janelas para o passado, permitindo o estudo detalhado de relíquias milenares sem a necessidade de manuseio direto, protegendo sua integridade para as futuras gerações.
Para concretizar esta representação digital, os cientistas empregaram uma técnica avançada de fotogrametria, combinada com algoritmos sofisticados. Essa abordagem foi fundamental para superar os obstáculos ópticos impostos pela presença de gelo e pela umidade na pele da múmia, que sobreviveu por mais de cinco milênios. O projeto se destaca por integrar as texturas superficiais detalhadas da múmia com dados internos obtidos por tomografia computadorizada, oferecendo uma visão completa e multimodal do corpo.
O processo de mapeamento e pesquisa foi complexo, envolvendo uma janela de tempo extremamente restrita para a captura das imagens fotográficas de Ötzi. Os arqueólogos Luca Bezzi e Alessandro Bezzi, especialistas em ambientes extremos, aproveitaram este breve período para realizar o registro. Eles tiveram que neutralizar o intenso reflexo da luz na superfície da múmia, utilizando técnicas de luz polarizada, um desafio superado com sucesso. Contudo, um leve deslocamento dos membros mais longos da múmia exigiu a fusão das digitalizações frontal e dorsal com dados estruturais de tomografias anteriores, garantindo a precisão final do modelo.
A contribuição do Brasil para este projeto de ponta é notável, especialmente através do software OrtogOnBlender, desenvolvido por Cícero Moraes. Esta ferramenta desempenhou um papel essencial na construção do modelo 3D, sendo um dos pilares para o resultado final.
Moraes expressa orgulho pela relevância de sua criação, que é resultado de quase uma década de dedicação. Originalmente concebido para planejar cirurgias em humanos, o OrtogOnBlender é uma tecnologia crítica na área da saúde. Sua robustez e confiabilidade foram aprimoradas graças ao apoio de cirurgiões de 37 países que o utilizam. O software é de código aberto e gratuito, exemplificando o conceito de “ciência aberta” ao disponibilizar ferramentas avançadas para a comunidade global.
A inteligência artificial (IA) teve uma função crucial na criação de detalhes mais refinados e realistas, como o gorro de Ötzi. A tecnologia empregada para o corpo da múmia geralmente reconstrói uma “casca” tridimensional, ideal para superfícies lisas e sem pelos. No entanto, para texturas felpudas, como a do gorro, os modelos convencionais resultavam em representações distorcidas ou excessivamente lisas.
Para contornar essa limitação, os pesquisadores utilizaram uma tecnologia baseada em IA capaz de gerar uma espécie de “foto 3D”. Essa abordagem permite que o observador se desloque virtualmente, em tempo real, e visualize a estrutura com uma riqueza de detalhes quase “milagrosa”. Embora essa técnica não produza uma malha 3D rígida, mas sim um holograma, ela oferece uma visualização sem precedentes para elementos complexos e texturizados, aprofundando a compreensão dos acessórios usados pelo Homem do Gelo.
A criação deste gêmeo digital de Ötzi transcende a mera representação tecnológica; ela redefine a forma como a arqueologia pode interagir com achados históricos sensíveis. Ao disponibilizar uma cópia estrutural completa da múmia, tanto externa quanto internamente, pesquisadores de todo o mundo podem conduzir estudos aprofundados sem expor o artefato original a riscos de deterioração. Isso é particularmente vital para Ötzi, uma das múmias mais bem preservadas e estudadas do mundo, cujo corpo e vestimentas oferecem um panorama único da vida na Idade do Cobre.
Este avanço tecnológico não só garante a preservação a longo prazo de Ötzi, mas também democratiza o acesso ao seu estudo, permitindo que novas gerações de cientistas, estudantes e entusiastas explorem os segredos do Homem do Gelo. A fusão de conhecimentos em arqueologia, engenharia e inteligência artificial abre caminho para futuras descobertas e para a aplicação dessas técnicas em outros contextos de preservação do patrimônio cultural global.