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Masako Nozawa, a voz de Goku, lidera condenação ao uso de IA e impulsiona diretrizes para dubladores no Japão

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A icônica dubladora japonesa Masako Nozawa, mundialmente reconhecida por emprestar sua voz ao personagem Son Goku da aclamada série Dragon Ball, assim como aos filhos Gohan e Goten, expressou veementemente sua reprovação à clonagem não autorizada de sua voz por inteligência artificial. A manifestação da atriz, que também ocupa a vice-presidência do Sindicato de Atores do Japão (JAU), ocorreu em Tóquio, na última quinta-feira (15), durante o lançamento das primeiras diretrizes da entidade para regulamentar a IA generativa e assegurar o pagamento de royalties a cerca de 2.600 profissionais.

Durante uma reportagem da emissora pública NHK, exibida no mesmo dia, a veterana de 89 anos testemunhou a reprodução digital de seu timbre sem permissão. “Aquilo não é a minha voz. Não consigo perdoar quem a utiliza sem autorização; é como um furto, e isso me deixa profundamente irritada. Minha voz e minha performance são minhas. Se houver qualquer intenção de uso, mesmo que mínimo, a permissão deve ser solicitada”, declarou Nozawa, traduzindo o sentimento de muitos artistas diante da nova tecnologia.

Crédito: Mixvale.com.br

Crítica à Inteligência Artificial e a Defesa da Expressão Humana

O documento recém-apresentado pela liderança do Sindicato de Atores do Japão visa estabelecer parâmetros técnicos e financeiros para empresas de tecnologia e usuários em geral. As orientações determinam que qualquer imitação vocal gerada por algoritmos deve ser tratada comercialmente como uma nova forma de atuação profissional. Isso implica que plataformas e produtoras são obrigadas a firmar acordos formais, garantir remuneração justa ou direitos conexos aos artistas originais e permitir auditorias nos registros operacionais para fiscalizar o uso dos arquivos.

As normas estabelecidas pelo JAU abrangem um vasto espectro de aplicações, desde gravações públicas e privadas submetidas a sistemas de síntese vocal até o uso de aprendizado de máquina (machine learning), aprendizado profundo (deep learning) e modelagem via comandos de texto (prompts), metadados ou configurações de sistema. Para o setor, essa iniciativa é crucial, pois define um caminho para a coexistência entre a inovação tecnológica e a proteção dos direitos dos criadores.

As Novas Diretrizes do Sindicato Japonês para a Clonagem de Voz por IA

O texto das diretrizes exige consentimento explícito e por escrito em todas as etapas do processo, desde a fase de treinamento dos modelos de IA (input) até a geração e publicação do áudio final (output). Além disso, proíbe, em princípio, a utilização da voz de artistas já falecidos, admitindo exceções apenas para a conclusão de obras inacabadas, mediante autorização familiar por escrito e o devido pagamento de taxas. Tais medidas buscam salvaguardar a imagem e o legado dos profissionais da voz.

A intérprete de Goku argumenta que a replicação algorítmica falha em capturar a essência do trabalho humano, mesmo que a semelhança seja notável. “A voz gerada por IA pode soar como a minha, talvez até idêntica. Contudo, ela não possui alma, não é verdade? Sem alma, não serve, independentemente do papel. Mesmo um simples choro, acredito que é distinto quando vem de uma emoção genuína”, explicou à NHK. Embora não tenha comparecido pessoalmente à coletiva do JAU devido a compromissos, a atriz enviou uma mensagem em vídeo, na qual elogiou o avanço tecnológico e apelou para o cumprimento das regras: “Espero que todos sigam as normas para que possamos construir um futuro onde humanos e IA possam coexistir harmoniosamente”.

O Valor da Emoção Humana versus a Reprodução Algorítmica

A preocupação com a clonagem vocal não se restringe a Masako Nozawa. Outros profissionais da dublagem no Japão também relataram experiências semelhantes com a reprodução não autorizada de suas vozes. Esse cenário evidencia a urgência da regulamentação para proteger a propriedade intelectual e o trabalho artístico em um ambiente digital em constante evolução, onde a distinção entre original e cópia se torna cada vez mais tênue.

Presente na conferência em Tóquio, ao lado da diretora executiva Yuko Sasaki, o dublador Bin Shimada, conhecido por dar voz a Broly em Dragon Ball e por sua atuação como diretor executivo do JAU, compartilhou ter descoberto na internet uma versão não autorizada de seu personagem cantando a canção “Usseewa”, da artista Ado. “Senti um choque inicial ao ouvir. Soltei um suspiro profundo. Passado um tempo, a irritação tomou conta. Para uso pessoal, talvez se tolere. Mas, em nenhuma circunstância, posso aceitar que a voz de um dublador seja divulgada online sem seu conhecimento, dizendo ou cantando algo que ele não fez, visando ganhar seguidores e lucro”, desabafou Shimada, ressaltando o impacto negativo da prática.

A Luta por Direitos de Voz em um Cenário Legal Inexistente

A iniciativa de formular diretrizes voluntárias surge da lacuna na legislação japonesa atual, que não contempla explicitamente os chamados “direitos de voz”. Michihiro Ikemizu, dublador e vice-presidente do JAU, afirmou que a entidade busca com essas ações pavimentar o caminho para mudanças no Congresso. “Ao criar diretrizes que nos permitam uma coexistência sustentável com a IA no Japão, almejamos estabelecer um histórico e contribuir para impulsionar a criação de leis pertinentes”, destacou. Este movimento já inclui ações como o lançamento do software de síntese vocal licenciado Soyogi Fractal, pelo ator Yūki Kaji, em junho de 2024, e a fundação do grupo “No More Mudan Seisei AI” (Chega de IA Generativa Não Autorizada) por profissionais da área no final de outubro de 2024.

Precedente Jurídico e o Futuro da Proteção da Voz no Japão

O esforço para proteger a voz humana ganhou um importante respaldo jurídico em 30 de setembro de 2026, quando o Tribunal Distrital de Tóquio proferiu uma decisão em um processo movido em novembro de 2025 pelo dublador Kenjiro Tsuda, de 55 anos, voz de personagens de animes populares como Jujutsu Kaisen, Chainsaw Man, Attack on Titan e Yu-Gi-Oh!. A ação foi direcionada contra a operadora do TikTok devido a 188 vídeos que clonaram sua voz entre julho e setembro de 2024 em um perfil anônimo com mais de 200 mil seguidores. Embora o pedido de remoção tenha sido arquivado por conta da exclusão prévia das postagens, a juíza presidente Aya Takahashi fez um reconhecimento inédito na Justiça japonesa: a voz humana está protegida pelos direitos de publicidade, que garantem o controle sobre o uso comercial da própria identidade. Este marco legal reforça a importância de Masako Nozawa, que em 2025 foi a primeira dubladora a receber o título de Pessoa de Mérito Cultural do Japão e que, neste domingo, 25 de outubro de 2026, celebra seus 90 anos, continuando a dar voz a Goku desde a estreia do anime em 1986.