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A partir de 1º de agosto, a gasolina comercializada em todo o território nacional passará a incorporar uma proporção maior de etanol em sua composição, saltando de 30% para 32%. A medida, anunciada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) em meados de julho de 2026, com vigência inicial de 180 dias, já gerou debates intensos e levantou preocupações sobre seus efeitos em veículos mais antigos e naqueles que não são flex.
A decisão do CNPE de aumentar a mistura de etanol anidro na gasolina surge como uma resposta direta à volatilidade do mercado global de petróleo. O encarecimento dos combustíveis fósseis, exacerbado por tensões geopolíticas internacionais, motivou a busca por alternativas energéticas que reduzam a dependência externa e estabilizem os custos internos. A alteração visa, portanto, fortalecer a segurança energética do país e aproveitar a produção nacional de biocombustíveis.
Apesar dos objetivos declarados, a elevação do percentual de etanol não é unânime. O Ministério Público Federal (MPF) protocolou uma ação civil pública, solicitando a suspensão do aumento. O órgão argumenta que os testes necessários para avaliar o impacto ambiental e o desempenho veicular não foram concluídos de forma satisfatória, gerando incertezas quanto à segurança da nova formulação para a frota brasileira.
Especialistas da área automotiva também expressam ressalvas. Rogério Gonçalves, engenheiro e diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), destaca que um dos principais problemas observados é a corrosão ou desgaste no sistema de injeção, o que pode levar a falhas operacionais e aumento no consumo. Por outro lado, o CNPE defende a medida, afirmando que testes em laboratório e em condições reais não apontaram impactos negativos significativos, mesmo em motores não flex. A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) apoia a decisão, ressaltando os benefícios ambientais e a capacidade de produção do setor.
Contrariando essa visão otimista, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) reforça a necessidade de estudos mais aprofundados. Igor Calvet, presidente da Anfavea, enfatizou que, embora a indústria apoie os biocombustíveis, é fundamental um cronograma rigoroso de testes para assegurar a compatibilidade dos motores e a calibração adequada dos sensores, evitando problemas futuros para os consumidores.
Veículos que não possuem tecnologia flex, especialmente os modelos mais antigos ou importados sem calibração específica para altas concentrações de etanol, são os mais vulneráveis. O etanol anidro, mesmo desidratado, tem uma característica higroscópica, ou seja, absorve água do ambiente. Essa umidade, uma vez no sistema de combustível, aumenta a condutividade elétrica e acelera a corrosão eletroquímica, prejudicando componentes metálicos essenciais.
Os principais componentes do sistema de combustível que podem ser afetados pela maior concentração de etanol incluem:
Fábio Rhoden, sócio-proprietário de uma oficina especializada, salienta que borrachas e mangueiras são particularmente suscetíveis a ressecamento e vazamentos. Ele adiciona que a bomba de combustível e os bicos injetores correm sério risco de oxidação ou travamento. Em carros equipados com carburador ou sistemas de injeção eletrônica mais simples, a Unidade de Controle Eletrônico (ECU) pode não conseguir ajustar a mistura de forma autônoma, elevando ainda mais o risco de danos.
Motoristas de carros não flex devem estar vigilantes a certos sinais que podem indicar problemas relacionados ao maior teor de etanol. A maioria dos sintomas se manifesta no sistema de combustível, na ignição ou na calibração do veículo. Observar esses indícios pode prevenir avarias maiores:
Para mitigar os riscos, Marcos Passos, gerente de engenharia da PHINIA, recomenda algumas práticas. O uso de aditivos estabilizadores de combustível é sugerido para veículos que permanecem parados por longos períodos, enquanto inibidores de corrosão podem criar uma camada protetora nas superfícies metálicas. Aditivos limpadores também ajudam a remover depósitos acumulados, mas é crucial entender que aditivos não adaptam um veículo incompatível. A verificação da compatibilidade do filtro de combustível e a consideração de velas de ignição mais resistentes, como as de platina ou irídio (se homologadas), também são medidas importantes. Além disso, hábitos de condução suaves, como evitar acelerações bruscas logo após a partida, contribuem para a preservação dos componentes.