Santa Catarina é um mosaico cultural e linguístico, onde a melodia do ucraniano ressoa no Planalto Norte, o idioma alemão ainda é ensinado no Vale do Itajaí, e o dialeto italiano mantém vivas as tradições no Sul. Essa rica tapeçaria de identidades, forjada por diversas ondas migratórias, manifesta-se em costumes e palavras por todo o território catarinense.
Contudo, essa diversidade intrínseca ao estado nem sempre foi vista como um valor. Um período desafiador na história brasileira, marcado pelo Estado Novo (1937-1945) e pela Segunda Guerra Mundial, impôs severas restrições às manifestações culturais que não se alinhassem à língua oficial.
Comunidades inteiras foram submetidas a uma intensa política de nacionalização, que buscou unificar o país sob uma única identidade cultural, gerando um clima de medo e resultando em perdas inestimáveis para o patrimônio imaterial catarinense.
A política de nacionalização, intensificada durante o governo de Getúlio Vargas, representou uma virada drástica para as comunidades de imigrantes em Santa Catarina. Essa diretriz foi implementada de forma súbita, por meio de dispositivos legais que, da noite para o dia, alteraram a vida de milhares de catarinenses. Escolas de línguas estrangeiras foram fechadas abruptamente, publicações em outros idiomas tiveram sua circulação proibida, e até o uso de dialetos dentro do ambiente doméstico passou a ser visto com desconfiança. Esse conjunto de medidas criou um ambiente de vigilância e temor generalizado, visando a assimilação forçada e desconsiderando a rica herança cultural já enraizada no estado.
A repressão do Estado Novo afetou profundamente as estruturas sociais e educacionais das comunidades de imigrantes. No Grande Vale do Itajaí, por exemplo, mais de 120 escolas que ofereciam ensino em alemão foram fechadas, resultando na demissão de professores e na desarticulação de importantes centros de preservação cultural e educacional. Esses locais, que antes eram pilares da identidade local e da transmissão do conhecimento, passaram a ser alvos de policiamento constante, estendendo-se a igrejas e eventos culturais, o que gerou um sentimento de insegurança e de perda de autonomia entre os moradores.
A imposição dessas medidas alterou drasticamente o cotidiano das famílias, impactando a transmissão geracional de costumes e a liberdade de expressão cultural. Relatos de pessoas como o aposentado Deonísio Sztoltz, que ouviu de sua mãe sobre a proibição do catecismo em polonês e a interrupção de sermões na língua, demonstram como a repressão se infiltrou até mesmo nos espaços mais íntimos e sagrados, deixando marcas profundas na memória coletiva e na forma como as tradições eram praticadas.
O cenário de repressão e controle se agravou consideravelmente com a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Após o Brasil romper relações com as potências do Eixo em 1942 e declarar guerra, a pressão sobre as comunidades de origem alemã e italiana em Santa Catarina atingiu níveis sem precedentes, transformando a desconfiança em perseguição direta.
A proibição de publicações em outros idiomas se tornou ainda mais rigorosa, levando ao desaparecimento de veículos de imprensa importantes. Em Blumenau, que chegou a contar com três jornais em alemão até a década de 1920, essa presença editorial foi completamente extinta, silenciando vozes, limitando o acesso à informação em línguas maternas e isolando ainda mais essas comunidades.
O medo instaurado durante esse período produziu perdas culturais irreversíveis, muitas das quais não foram devidamente registradas em documentos oficiais. Na Vila Itoupava, em Blumenau, famílias inteiras se desfizeram de fotografias e documentos antigos, queimando-os para evitar qualquer vínculo que pudesse gerar problemas com as autoridades, um ato desesperado para se proteger da perseguição.
A preocupação com a perseguição era tão intensa que espaços de esconderijo eram criados, e o vice-presidente do Centro Turístico e Cultural da Vila Itoupava, Manfred Gruetzmacher, lamenta a vasta quantidade de história e cultura que se perdeu por conta dessas ações. Ele ressalta que apenas uma pequena parcela dos alemães da região tinha qualquer simpatia pelo regime nazista, mas a repressão atingiu a todos indiscriminadamente, sem distinção.
Até mesmo símbolos tradicionais precisaram ser alterados para se adequar às novas normas. Em Joinville, os Bombeiros Voluntários foram forçados a abandonar as iniciais “FF” (de Freiwillige Feuerwehr, “Bombeiros Voluntários” em alemão) em 1938, pois a disposição das letras poderia ser erroneamente associada à suástica nazista, conforme explica a historiadora Dolores Tomaseli, evidenciando o nível de paranoia da época.
A repressão se estendeu à comunicação pessoal, afetando a vida familiar e social dos indivíduos. Pessoas consideradas suspeitas ou denunciadas por falar idiomas proibidos podiam ser detidas e confinadas em Florianópolis, submetendo suas famílias a um período de grande incerteza, angústia e isolamento, sem saber o destino de seus entes.
As correspondências enviadas a esses detidos eram submetidas a uma rigorosa censura governamental. Assuntos triviais, como resultados de jogos de futebol ou notícias sobre o bem-estar familiar, eram frequentemente cortados dos textos, privando os prisioneiros de informações cotidianas e de um elo vital com seus entes queridos, intensificando o sofrimento.
Paradoxalmente, enquanto muitos descendentes de imigrantes eram vigiados e reprimidos em seu próprio país, seus filhos eram convocados para vestir a farda brasileira e lutar nos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial. Essa contradição expôs a complexidade da identidade nacional e o sacrifício imposto a essas comunidades, que demonstravam lealdade ao Brasil em meio à desconfiança.
Monumentos em cidades como Orleans e Rio do Sul homenageiam expedicionários como Venceslau Spancerski, de origem polonesa, que integraram a Força Expedicionária Brasileira (FEB), simbolizando a lealdade e o patriotismo desses cidadãos ao Brasil, mesmo em face da perseguição interna e do preconceito vivido em seu próprio território.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945 e o subsequente término do Estado Novo, um novo capítulo se abriu para Santa Catarina, marcando o início da formação de novas comunidades e a reconstrução de laços sociais e culturais. Dezoito anos após os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki, em 1963, a primeira colônia japonesa do estado foi oficialmente criada em Frei Rogério, recebendo as primeiras famílias no ano seguinte e inaugurando uma nova era de diversidade.
Entre os pioneiros de Frei Rogério estava Wataru Ogawa, hoje com 97 anos, um “hibakusha” – termo japonês para designar os sobreviventes dos ataques atômicos. Ele testemunhou a devastação de Hiroshima enquanto estava em treinamento militar, longe do epicentro, retornando a uma cidade em ruínas e pessoas lutando desesperadamente pela vida em meio ao caos.
Ogawa relata a chocante imagem de um amigo de infância, que parecia um fantasma e viria a falecer uma semana depois, um trauma que ele carrega por oito décadas. Sua sobrevivência e a memória de sua experiência, compartilhada em Santa Catarina, sublinham a resiliência humana e a capacidade de reconstrução, mesmo após as maiores tragédias da história.