Categories: Notícias

Cientistas desenvolvem impressão 3D com gelo para aplicações em biologia e espaço

Share

Uma nova fronteira na fabricação aditiva está sendo explorada por pesquisadores europeus, que conseguiram criar objetos tridimensionais complexos utilizando apenas água congelada. A inovação, que foge dos materiais convencionais como plásticos e metais, promete avanços significativos em áreas como a medicina e a exploração espacial, onde a pureza e a transitoriedade dos materiais são cruciais.

Tradicionalmente, a impressão tridimensional tem revolucionado a indústria, permitindo a construção de peças detalhadas a partir de uma vasta gama de insumos, incluindo polímeros, cerâmicas, vidros, ligas metálicas e até madeira. Esses sistemas se consolidaram em diversas cadeias produtivas globais, transformando a maneira como produtos são concebidos e fabricados.

Crédito: Mixvale.com.br

Contudo, o gelo, em sua forma natural, apresenta um desafio intrínseco: sua instabilidade estrutural. Ao ser exposto a temperaturas acima de zero grau Celsius, a substância retorna rapidamente ao estado líquido, dificultando sua manipulação como material de construção.

Menno Demmenie, à frente de um grupo de pesquisadores da Universidade de Amsterdã, nos Países Baixos, superou essa barreira. Sua equipe logrou êxito na produção de estruturas complexas usando água congelada, demonstrando a viabilidade da técnica ao construir uma pequena árvore de Natal feita inteiramente de gelo em seus experimentos iniciais.

A versatilidade dessa tecnologia é notável, com aplicações diretas em campos como a biologia e a microfluídica. Na biologia, o gelo pode servir como molde temporário para o crescimento de tecidos celulares, dissolvendo-se sem deixar resíduos. Na microfluídica, permite a criação de canais internos em biochips, por onde reagentes químicos podem fluir sem a necessidade de substâncias agressivas para remoção, já que o gelo simplesmente derrete e escorre, garantindo um ambiente limpo e seguro.

Além disso, o método apresenta um grande potencial para missões espaciais. Em locais como a Lua e Marte, onde as temperaturas são extremamente baixas e a pressão atmosférica é rarefeita, as condições são ideais para manter essas construções de gelo estáveis. Os desenvolvedores vislumbram a expansão dessa técnica para auxiliar na construção de infraestruturas ou ferramentas em futuros empreendimentos interplanetários, utilizando recursos in-situ.

Processo de resfriamento por evaporação viabiliza a solidificação da água

A base científica por trás da metodologia reside no princípio do resfriamento evaporativo. Esse fenômeno físico é o mesmo que a natureza utiliza em mamíferos para regular a temperatura corporal, como a transpiração, onde a evaporação do suor da pele remove calor do organismo.

O equipamento funciona introduzindo água em uma câmara selada, onde a pressão atmosférica é significativamente reduzida. A rápida evaporação das moléculas de água dentro do vácuo provoca uma perda contínua de energia térmica do líquido. Esse processo resfria a água progressivamente, fazendo com que sua temperatura caia abaixo de zero grau Celsius. A água atinge um estado de super-resfriamento antes de se transformar em cristais sólidos.

Um bico de precisão é o responsável por ejetar finos filetes de água, medindo apenas 16 micrômetros de espessura. Esses filetes se solidificam quase instantaneamente ao entrar em contato com a superfície de construção, camada por camada, formando a estrutura desejada.

Um diferencial notável da impressora 3D é sua capacidade de ajustar a velocidade de movimento mecânico. Essa funcionalidade permite a construção de pilares inclinados e outras geometrias complexas sem a necessidade de estruturas de suporte temporárias, otimizando o processo e reduzindo o desperdício de material.

Caso seja necessário descartar a peça criada, o operador simplesmente desativa a bomba de vácuo. Sem as condições de baixa pressão, a estrutura de gelo rapidamente se liquefaz, transformando-se de volta em água pura, sem deixar qualquer tipo de resíduo.