
Crédito: Extra.globo.com
A batalha pela sobrevivência do tartaranhão-caçador (Circus pygargus) no Reino Unido ganhou um capítulo notável, impulsionado por um macho de dez anos de idade, apelidado de AU. Este exemplar se destacou como um reprodutor excepcionalmente prolífico, gerando dezesseis filhotes ao longo de sua vida, com uma dezena deles nascidos apenas nos últimos dois anos. Sua contribuição é vista como fundamental para reverter o risco de desaparecimento da espécie em solo britânico.
A notável capacidade de AU em procriar oferece um sopro de esperança para a população britânica, que estava à beira da extinção. Biólogos da Real Sociedade para a Proteção das Aves (RSPB) acompanham de perto o desempenho do pássaro, reconhecendo-o como o principal motor da recuperação atual. “Ele está, sozinho, sustentando essa espécie no Reino Unido. Não há como negar”, afirmou Mark Thomas, biólogo responsável pela área de espécies da RSPB.
O macho AU, cujo nome é uma referência ao símbolo químico do ouro, tem se mostrado um verdadeiro “garanhão”, com um histórico impressionante de reprodução. Após gerar quatro filhotes em 2025, o “garoto de ouro” retornou este ano para uma nova temporada de acasalamento, utilizando acrobacias aéreas elaboradas para atrair fêmeas.
O ritual de cortejo envolve voos a centenas de metros de altura, seguidos por piruetas e exibições de asas que cativam as parceiras em potencial. A disputa por sua atenção foi intensa, com três fêmeas inicialmente competindo. Duas delas, após um confronto, acabaram formando ninhos com ele, resultando em seis novos filhotes — quatro fêmeas e dois machos.
O tartaranhão-caçador é uma ave de rapina migratória que passa os meses de inverno na África e na Ásia, retornando à Europa na primavera para se reproduzir. Embora sua situação global seja classificada como “pouco preocupante” pela União Internacional para a Conservação da Natureza, a população no Reino Unido sofreu um declínio drástico.
O país registrava cerca de 30 casais reprodutores na década de 1950, mas a população zerou nos anos 1970. Houve uma breve recuperação para 13 casais em meados dos anos 2000, seguida por uma nova queda brusca, chegando a zero novamente entre 2000 e 2003. A fragilidade da espécie torna a contribuição de AU ainda mais vital para a continuidade do ciclo reprodutivo.
Os seis filhotes recém-nascidos estão distribuídos em dois ninhos, separados por cerca de um quilômetro, em uma fazenda britânica cuja localização é mantida em sigilo absoluto. Apenas pesquisadores e os proprietários da terra conhecem o local, que conta com cercas de proteção contra predadores, garantindo a segurança dos jovens pássaros.
Para otimizar o monitoramento futuro da espécie, a RSPB implementou, pela primeira vez, rastreadores via satélite em dois filhotes, um de cada ninho. Essa tecnologia permitirá acompanhar as rotas migratórias das aves e localizar rapidamente novos ninhos, caso os indivíduos sobrevivam e retornem para procriar no futuro. Dois machos nascidos em 2025 já foram avistados no país, indicando um potencial retorno.
Assim como o gavião, o tartaranhão-caçador possui características típicas de predadores diurnos: um bico curvo e afiado, além de garras extremamente fortes, ideais para a captura de presas. As aves do gênero Circus são conhecidas por sua silhueta esguia, asas longas e estreitas, e um comportamento peculiar de voar baixo sobre campos abertos, construindo seus ninhos diretamente no solo.
A conservação de aves de rapina como o tartaranhão-caçador é fundamental para a manutenção do equilíbrio ecológico, atuando como controladores naturais de outras populações. O esforço dedicado a estes dois únicos ninhos no Reino Unido reflete uma grande responsabilidade e um sonho realizado para os biólogos envolvidos na preservação da fauna local.