
Crédito: Mixvale.com.br
A Meta apresentou, na quinta-feira (15), no Vale do Silício, Califórnia, um novo modelo de inteligência artificial de pesos abertos, o Muse Spark Open. Desenvolvido em colaboração com a Apple, esta tecnologia foi meticulosamente ajustada para operar diretamente em computadores Mac Studio equipados com o potente chip M5 Ultra, eliminando a necessidade de servidores em nuvem para seu processamento.
Este lançamento marca um armistício técnico notável, seguindo anos de atritos públicos entre as empresas, principalmente em torno de políticas de privacidade e das taxas cobradas em lojas de aplicativos. Alexandr Wang, diretor de Inteligência Artificial da Meta, enfatizou a importância do diálogo restaurado entre as equipes, expressando o desejo de colaborações futuras onde fizer sentido. Ele brincou, em uma tradução livre, que “mamãe e papai estão se dando bem novamente”, enquanto Daniel Gross, ex-executivo da Apple na área de IA, teve um papel crucial na aproximação das duas corporações.
O Muse Spark Open foi concebido para atender demandas de programação, engenharia de software de alta complexidade e a execução de tarefas de agentes autônomos, que desdobram múltiplos passos para solucionar problemas. Sua natureza multimodal permite que a ferramenta processe comandos variados — texto, imagem, vídeo e áudio — e gere respostas textuais. Para otimizar o desempenho, o sistema emprega a arquitetura de Mistura de Especialistas (MoE), ativando apenas os módulos necessários do modelo para cada requisição, em vez de acionar toda a rede.
A inovadora arquitetura de memória unificada da Apple, combinada com o MLX — um conjunto de ferramentas de software da empresa projetado para executar modelos de inteligência artificial em seus próprios chips —, possibilita que o sistema seja distribuído e operado em dois ou até quatro computadores Mac Studio interconectados. Embora o modelo em sua precisão nativa (BF16) demandasse entre 1,5 TB e 1,6 TB de memória, uma versão otimizada e comprimida em 4 bits consegue rodar em apenas duas máquinas ligadas, um avanço significativo que democratiza o acesso a IAs complexas fora da nuvem.
Em um comunicado oficial, a Meta forneceu detalhes sobre a engenharia por trás dessa operação. A arquitetura de memória unificada da Apple permite que a GPU integrada do chip M5 Ultra acesse até 512 GB de memória por Mac Studio. Assim, um par de máquinas pode hospedar o modelo completo. Além disso, a impressionante largura de banda de memória de 1,2 TB/s do chip garante a velocidade necessária para processar os pequenos segmentos de dados que cada “token” exige. O resultado prático é que dois Mac Studios, quando conectados, funcionam como um supercomputador com um terabyte de memória unificada.
Nas plataformas de mídia social, Mark Zuckerberg, CEO da Meta, e John Ternus, CEO da Apple, utilizaram suas contas para celebrar publicamente o trabalho conjunto de suas equipes de engenharia. Ternus parabenizou a equipe, elogiando a eficiência de rodar um modelo da escala e calibre do Muse Spark Open diretamente de uma mesa de trabalho, e destacou como o Mac Studio continua a expandir os limites da inteligência artificial embarcada nos dispositivos.
A Meta descreve o Muse Spark Open como o mais avançado modelo de pesos abertos — um formato onde os arquivos com parâmetros de treinamento são disponibilizados para download público — já desenvolvido nos Estados Unidos. Para operar fora do ambiente de nuvem, este sistema exige equipamentos de alto desempenho, refletindo sua complexidade e capacidade.
Para ilustrar a utilidade do processamento local, a Meta realizou demonstrações de fluxos de trabalho utilizando a ferramenta Muse Code, que é alimentada pelo novo modelo. Os experimentos documentados incluíram modificações reais de código para o sistema iOS dentro do aplicativo de código aberto Ice Cubes, um cliente da rede Mastodon, e também a edição completa de vídeo no software DaVinci Resolve.
É importante ressaltar que a cooperação técnica entre as duas companhias está restrita à execução do modelo nos computadores Mac. Não há, no entanto, previsão para a integração do Muse Spark Open à assistente virtual Siri ou ao ecossistema Apple Intelligence.
Embora os arquivos do modelo estejam disponíveis para download sem custo, a utilização do software é regida pela licença Muse Model License. Esta regra estipula que os desenvolvedores devem incluir a atribuição “Built with Muse Spark Open” em seus projetos.
Adicionalmente, empresas que oferecem acesso a modelos de IA como serviço (Model as a Service) e que ultrapassem a marca de US$ 20 milhões em receita bruta acumulada em um período de 12 meses são obrigadas a formalizar um acordo comercial distinto com a Meta.
A parceria anunciada em outubro de 2026 representa um contraste marcante com o histórico recente de desavenças entre as duas gigantes da tecnologia, que se intensificaram a partir de 2021. Naquele ano, a Apple implementou o recurso App Tracking Transparency (ATT), exigindo que os aplicativos obtivessem consentimento explícito dos usuários antes de rastrear suas atividades em serviços de terceiros. Esta medida impactou diretamente o modelo de negócios de publicidade direcionada da Meta, que à época criticou as restrições e as taxas da App Store como entraves significativos à sua operação financeira.
No campo da inteligência artificial, a disponibilização dos pesos do modelo cumpre uma promessa feita pela empresa de Mark Zuckerberg no primeiro semestre. Em abril de 2026, a companhia havia lançado o Muse Spark em sua versão original como um sistema fechado, rompendo com a tradição de código aberto da antiga linha Llama, mas sinalizando que futuras edições abertas seriam liberadas.
Na mesma semana de outubro de 2026 em que a versão aberta foi lançada, a Meta também introduziu o Muse Wonder, um modelo proprietário voltado para o assistente pessoal da marca. Essa estratégia acontece em meio a uma acirrada competição entre empresas ocidentais — como Nvidia, Mistral e Reflection AI — que buscam oferecer alternativas de pesos abertos diante do crescente avanço de sistemas chineses como DeepSeek, Qwen (da Alibaba) e Kimi (da Moonshot AI).
Embora os arquivos do Muse Spark Open já estejam acessíveis para desenvolvedores, a configuração específica do computador Mac Studio, equipada com o chip M5 Ultra e 512 GB de memória unificada, ainda não se encontra disponível para compra no mercado.
A Apple, por sua vez, não divulgou uma data exata para a chegada do equipamento ao varejo, mantendo a previsão de lançamento comercial para o final de outubro de 2026.