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Cientistas da Universidade de Delaware, nos Estados Unidos, estão implementando uma abordagem inovadora para aprimorar a capacidade de prever a intensidade de furacões. A estratégia envolve a utilização de tubarões equipados com dispositivos eletrônicos, que coletam informações oceânicas vitais. Este projeto, que já gerou dados significativos e continuará a fazê-lo até agosto de 2026, visa transformar esses predadores marinhos em uma rede de observadores móveis, fornecendo dados quase em tempo real e inaugurando uma nova era para a climatologia.
O foco principal desta pesquisa reside na costa leste dos EUA, uma área historicamente vulnerável a eventos climáticos extremos. As informações coletadas por esses tubarões podem resultar em um planejamento de emergência mais eficaz e em maior segurança para milhões de habitantes em regiões de risco. Ao oferecer detalhes mais exatos sobre como esses sistemas meteorológicos se fortalecerão ao se aproximarem do litoral, o estudo tem o potencial de salvar vidas e minimizar danos materiais.
Pequenos equipamentos eletrônicos são cuidadosamente afixados aos tubarões, com a função de monitorar as condições essenciais do oceano. Esses dispositivos registram a condutividade elétrica da água, um indicador direto da salinidade, além da temperatura e da profundidade, enquanto os animais nadam e realizam seus mergulhos habituais. Os dados são então transmitidos para modelos complexos de oceanografia, atmosfera e clima, enriquecendo as análises científicas.
A importância dessas medições é incontestável, pois o volume de calor presente na camada superficial do oceano atua como o principal combustível para a formação e o subsequente aumento da intensidade dos furacões. Compreender as variações nessas métricas permite aos pesquisadores modelar com uma precisão muito maior a quantidade de energia disponível para alimentar esses poderosos sistemas meteorológicos, tornando as previsões mais robustas.
Embora a utilização de sensores em outros animais, como elefantes-marinhos em regiões polares, já seja uma prática estabelecida para suprir a escassez de dados, os tubarões oferecem distinções consideráveis. Segundo Aaron Carlisle, renomado pesquisador e professor da Escola de Ciências e Políticas Marinhas da Universidade de Delaware, esses peixes cartilaginosos são encontrados em grande número, possuem vasta distribuição geográfica e são mais acessíveis para o monitoramento do que muitas espécies de mamíferos marinhos protegidas.
Os cientistas dedicam atenção especial à seleção de espécies que frequentam a superfície oceânica regularmente. Essa característica é fundamental para que os dispositivos possam enviar as informações coletadas diretamente para os satélites. Análises minuciosas indicaram que os seguintes animais são os mais promissores para o estudo na vasta área do Atlântico Norte:
“Nosso interesse primordial está no conteúdo de calor da camada superior do oceano”, enfatizou Aaron Carlisle. Ele prosseguiu explicando que essa porção da coluna de água é um fator determinante para a força dos furacões. Quanto mais elevada a temperatura dessa camada, maior a capacidade do furacão de absorver energia, o que se traduz em um fenômeno mais robusto e, consequentemente, com maior potencial destrutivo ao atingir áreas povoadas.
A captação de dados em tempo quase real, diretamente das áreas onde os furacões nascem e se deslocam, proporciona uma visão dinâmica e constantemente atualizada das condições oceânicas. Este método contrasta acentuadamente com abordagens de monitoramento mais estáticas e possui a vantagem crucial de preencher lacunas significativas de informação em locais de difícil acesso para as plataformas de observação tradicionais, elevando a qualidade das análises.
O procedimento de marcação dos tubarões começa anualmente em maio, período em que espécies com padrões migratórios extensos se aproximam das águas costeiras americanas, após deixarem seus refúgios de inverno em porções mais distantes do Atlântico. Os pesquisadores navegam em embarcações especializadas por distâncias que variam de 50 a 65 quilômetros mar adentro, lançam linhas equipadas com iscas e aguardam, em média, de duas a três horas pela captura de um tubarão.
No momento em que um tubarão morde a isca, uma equipe altamente treinada, cuja agilidade é comparada à de equipes de pit stop de corridas, age com rapidez para fixar os dispositivos na nadadeira dorsal do animal. Este processo é concluído, em geral, em menos de cinco minutos. A escolha da nadadeira dorsal para a colocação do equipamento é estratégica, pois permite que o sensor se comunique e transmita dados à rede de satélites em órbita sempre que o tubarão emerge à superfície.
O impacto sobre os tubarões é minimizado com o uso de materiais que, com o tempo, se corroem e se desprendem naturalmente, sem causar danos duradouros. Antes de serem liberados, cada animal passa por uma avaliação de saúde rigorosa. Este cuidado garante que o estresse ou eventuais ferimentos não alterem seu comportamento natural, um fator essencial para assegurar a integridade e a qualidade dos dados coletados para a pesquisa.
Com a concretização dos objetivos, este projeto promete gerar informações capazes de refinar substancialmente as projeções sobre a intensidade dos furacões à medida que se aproximam da costa leste dos Estados Unidos. Caroline Wiernicki, doutoranda em ciências marinhas na Universidade de Delaware, ressalta que esses novos dados podem oferecer informações mais fidedignas e essenciais para as populações que habitam estados como Carolina do Norte e Massachusetts, permitindo uma resposta mais assertiva diante de ameaças.
A iniciativa também desempenha um papel importante na desconstrução da imagem frequentemente negativa dos tubarões na cultura popular, perpetuada por obras cinematográficas icônicas como “Tubarão” ou a franquia “Sharknado”. Longe de serem meras figuras de terror, esses animais marinhos estão se revelando aliados indispensáveis na proteção humana contra alguns dos mais severos e imprevisíveis fenômenos naturais, demonstrando uma colaboração inesperada entre a vida selvagem e a ciência.