
Imagem meramente ilustrativa — Foto: Magnific Crédito: Extra.globo.com
Nos Estados Unidos, uma nova dinâmica social está redefinindo as relações amorosas, especialmente para quem atua no setor de tecnologia. Funcionários de grandes empresas tecnológicas, outrora vistos como símbolos de inovação, percebem uma crescente repulsa por parte de potenciais parceiros, que associam a indústria a questões éticas e desigualdade. Essa mudança de percepção impacta diretamente a vida pessoal, transformando a busca por um romance em um desafio inesperado.
A aura de otimismo e vanguarda que cercava o universo da tecnologia está cedendo lugar a um ceticismo profundo. O setor, antes idolatrado por sua capacidade de transformar o mundo, é agora frequentemente associado a poder descontrolado e práticas questionáveis, refletindo as preocupações da sociedade sobre o impacto das gigantes digitais.
Essa alteração na visão pública não é apenas teórica; ela se manifesta em interações cotidianas. O estereótipo do profissional de tecnologia, que antes evocava inteligência e sucesso, hoje carrega conotações negativas, dificultando conexões pessoais genuínas para muitos.
Um engenheiro de 23 anos, Gary, vivenciou essa realidade ao tentar um flerte em um bar de Nova York. Ao mencionar seu emprego na Palantir, uma empresa de análise de dados com contratos governamentais controversos nos EUA e Israel, sua interlocutora o rechaçou veementemente. A mulher desconsiderou o alto salário anual de US$ 250 mil e a justificativa de Gary de que o valor ajudaria a cobrir custos médicos dos pais, afirmando que “dívidas médicas não são desculpa para trabalhar em um lugar como aquele”.
A experiência de Gary não é isolada. Desde 2025, ele tem enfrentado reações negativas ao revelar seu local de trabalho, sendo chamado de “diabo” ou questionado sobre sua consciência. Para contornar a situação e conseguir encontros, Gary passou a ocultar seu emprego em aplicativos de namoro e até mesmo inventou uma história sobre ajudar os pais com dívidas médicas, que na verdade não existem. A necessidade de fabricar uma narrativa de vulnerabilidade para ser aceito sublinha a profundidade do estigma, onde a percepção corporativa se torna uma extensão da identidade pessoal.
A desconfiança em relação à tecnologia não surge do nada. Empresas como a Meta são criticadas por permitir a manipulação eleitoral e desenvolver recursos que fomentam o vício em plataformas digitais. A Amazon, por sua vez, enfrenta acusações de condutas trabalhistas injustas e de impulsionar a falência de pequenos negócios, enquanto seu fundador se tornou um ícone da disparidade de riqueza.
Mais recentemente, a indústria de Inteligência Artificial tem sido alvo de críticas intensas. Preocupações com a perda de empregos em larga escala, o impacto ambiental da infraestrutura de IA e a erosão do pensamento crítico são pontos centrais nas discussões sobre o futuro da tecnologia, agravando a imagem negativa do setor.
Elon Musk, outrora visto como um inovador e defensor da sustentabilidade, personifica a guinada negativa na percepção pública. Sua imagem, antes de visionário excêntrico, agora é mais associada a controvérsias, como sua expressiva doação à campanha de Donald Trump em 2024, o desmantelamento do Twitter, e outros comportamentos polêmicos que vão desde o uso de substâncias até declarações racistas e obsessão por procriação.
Um funcionário da Tesla, James, de 29 anos, residente de São Francisco, sentiu o peso dessa imagem. Durante um terceiro encontro, foi questionado diretamente sobre seu voto em Donald Trump na eleição de 2024, simplesmente por trabalhar na empresa de Musk. Para mitigar o preconceito, James agora se antecipa, declarando seu desapreço por Musk para evitar ser associado a ideologias conservadoras, algo que geralmente não é bem-visto na liberal São Francisco.
Amy Laurent, fundadora de uma agência de encontros de alto padrão, observa que a “falha moral” atribuída às grandes empresas de tecnologia tem um impacto direto nos profissionais do setor. Ela destaca que os salários generosos, antes um forte atrativo, já não compensam a imagem negativa, indicando uma mudança nos valores sociais que as pessoas buscam em um parceiro.
Laurent ressalta que, há uma década, atuar em tecnologia evocava inovação, ambição e inteligência. Hoje, as gigantes do setor são responsabilizadas por uma série de problemas sociais, desde a influência política e vigilância até questões de privacidade, desigualdade de renda e a substituição de mão de obra pela IA. A percepção pública sobre a tecnologia evoluiu de admiração para uma crítica abrangente de seu papel na sociedade, impactando diretamente a vida pessoal de seus trabalhadores.