
Incêndio em Palisades (Califórnia) em 2025 — Foto: AFP Crédito: Extra.globo.com
A crescente prática de apostas em plataformas de mercados de previsão sobre a progressão e o impacto destrutivo de incêndios florestais no sul da Califórnia tem gerado forte reação de legisladores americanos. A modalidade, que permite palpites sobre a extensão de danos e áreas afetadas, levantou sérias preocupações sobre a possibilidade de incentivar atividades criminosas e manipular os resultados, em um momento de aumento significativo de focos de incêndio na região.
A modalidade de apostas em mercados preditivos, que ganhou tração recente, tornou-se um ponto de discórdia para o governo dos Estados Unidos. Especificamente, a possibilidade de lucrar com a tragédia de incêndios florestais que assolam o sul da Califórnia gerou um alerta, em meio a um cenário de aumento alarmante de ocorrências nas últimas semanas.
A prática é particularmente sensível em áreas como Wrightwood, que em 2024 sofreu um incêndio devastador, consumindo mais de 22 mil hectares e destruindo 81 estruturas. Comunidades locais ainda se esforçam para se reerguer, enquanto o debate sobre a ética dessas apostas ganha força.
Um grupo bipartidário de nove legisladores, que inclui nomes proeminentes como os senadores Alex Padilla e Adam Schiff, formalizou uma cobrança à Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC). O objetivo é que a agência tome medidas concretas para impedir que empresas lucrem com a devastação de propriedades e vidas na Califórnia através de apostas.
Os congressistas expressaram a expectativa de que os órgãos reguladores apresentem um posicionamento claro e formal nos próximos dias. A preocupação central é a exploração financeira de eventos catastróficos, o que levanta questionamentos profundos sobre a moralidade e a segurança pública.
Os senadores destacaram dados que apontam para a movimentação de mais de US$ 1,2 milhão em apostas na plataforma Polymarket, uma das líderes do setor, relacionadas a eventos trágicos. Entre eles, o incêndio de Eaton, em Los Angeles, em 2025, que resultou em 19 mortes e a destruição de mais de 9 mil imóveis, e o incêndio de Palisades, com 12 vítimas fatais e 6.837 estruturas danificadas.
Havia mercados específicos, como o que questionava se o fogo de Palisades ultrapassaria quatro mil hectares até uma data predeterminada. Embora essas apostas tenham sido identificadas na versão internacional do site da Polymarket, a principal preocupação dos parlamentares é a potencial expansão dessa prática para o mercado doméstico americano.
Em resposta, um representante da Polymarket afirmou à emissora KTLA que a empresa não oferece contratos de apostas sobre incêndios em sua plataforma nacional desde janeiro de 2025. A companhia se descreve como uma bolsa de derivativos ponto a ponto, onde não define as linhas de negociação, não assume posições contrárias nem lucra com os resultados.
O porta-voz acrescentou que, em momentos de tragédia, as pessoas buscam informações, e a plataforma seria uma fonte nesse sentido. Ele argumentou que a remoção desses mercados não impediria os eventos, mas dificultaria o acesso a informações precisas para quem delas necessita, embora reconheça os riscos envolvidos.
A principal apreensão dos legisladores reside na possibilidade de que a existência de mercados de apostas sobre incêndios possa, indiretamente, incentivar atos criminosos. A perspectiva de lucro a partir da destruição levanta um sério risco de manipulação de resultados, tornando a prática um perigo para a segurança pública e para o esforço de controle de desastres naturais.
Este cenário acende um alerta sobre a necessidade de um escrutínio regulatório mais rigoroso para plataformas que operam com eventos da vida real. A discussão transcende a mera especulação financeira, tocando em questões fundamentais de ética, responsabilidade social e o papel das tecnologias emergentes em contextos de vulnerabilidade e catástrofe.