
Former F1 DriverJean Alesi Crédito: Formula1.com
O ex-piloto da Ferrari, Jean Alesi, compartilhou detalhes sobre a profunda admiração que nutre pelo icônico Gilles Villeneuve, uma das maiores lendas da Fórmula 1. Sua perspectiva revela a influência duradoura do canadense no esporte, marcando a memória de Alesi desde sua infância até os dias atuais.
Conhecido por seu estilo impetuoso e dedicação nas pistas, Jean Alesi marcou presença na Fórmula 1 entre 1989 e 2001, defendendo equipes como Tyrrell, Ferrari, Benetton, Sauber, Prost e Jordan. Apesar de sua trajetória vitoriosa, suas lembranças da categoria na infância são escassas, reflexo da menor cobertura televisiva da época em comparação com a atual.
Contudo, uma recordação particular permanece vívida na mente do piloto francês: a memorável vitória de Gilles Villeneuve no Grande Prêmio de Mônaco em 1981. Em um recente especial sobre “Ícones da F1”, Alesi detalha as razões de sua profunda reverência pelo temperamental canadense, que compartilhava uma paixão similar pela velocidade e um talento inquestionável nas pistas.
Na minha juventude, a Fórmula 1 não desfrutava da mesma popularidade de hoje, limitando as chances de acompanhar as corridas pela televisão. Próximo à minha casa em Avignon, onde cresci, tínhamos o Rallye Monte-Carlo, e a França também sediava as 24 Horas de Le Mans. Assim, minhas recordações infantis são mais ligadas ao automobilismo em geral do que especificamente à F1, o que era comum para muitos jovens daquela época.
Apesar disso, Avignon e o circuito de Paul Ricard ficavam geograficamente próximos. Quando criança, tive a oportunidade de presenciar os testes de inverno da Fórmula 1 em Paul Ricard. Estar ao lado dos pilotos, observar os carros de perto e acompanhar as manobras nas curvas era uma experiência verdadeiramente fantástica e inesquecível, que despertou minha paixão pela categoria.
A primeira lembrança genuína que guardo da Fórmula 1 é a vitória de Gilles Villeneuve em Mônaco, no ano de 1981. Aquela corrida foi simplesmente surpreendente, tanto pela maneira espetacular como ele pilotava quanto pela narração envolvente do comentarista. Fiquei completamente hipnotizado ao assistir, e esse momento se fixou como minha primeira e marcante memória da categoria, evidenciando o poder de um piloto em capturar a atenção.
Cresci em uma fase da Fórmula 1 onde a individualidade dos estilos de pilotagem era facilmente perceptível. Era nítido distinguir a abordagem de um Alain Prost em contraste com a de um Ayrton Senna, por exemplo, ao falarmos de verdadeiras lendas do esporte. Naquele período, a diversidade mecânica, com motores V8, V10 e V12, influenciava a aerodinâmica dos carros, exigindo dos pilotos uma capacidade de adaptação singular para extrair o máximo de cada máquina, o que tornava cada corrida um espetáculo de pura técnica e talento.
Frequentemente me questionam se meu estilo de pilotagem foi moldado por Gilles, mas considero isso inviável. Sempre conduzi por puro instinto ao longo da minha carreira, respondendo às demandas da pista e do carro. Embora alguns o acusassem de imprudência, Gilles não era irresponsável. Em minha percepção, ele explorava o limite máximo do carro e se esforçava ao extremo para manter o veículo na pista, uma demonstração de sua maestria e coragem.
Um exemplo marcante foi sua corrida no Canadá com uma asa dianteira avariada, onde ele persistiu, afirmando que o carro ainda tinha condições de seguir. Essa determinação e a capacidade de extrair tudo do equipamento, mesmo em condições adversas, é um dos motivos pelos quais admiramos tanto Gilles e o consideramos um piloto com uma abordagem única.
Infelizmente, jamais tive a oportunidade de testemunhar Gilles correndo ao vivo antes de seu falecimento. Recordo-me vividamente de assistir à notícia de sua morte. O acidente foi terrível, pois a cobertura televisiva exibiu todos os detalhes, incluindo seu corpo sendo arremessado contra a cerca de proteção. Foi um instante de profunda tristeza e choque, presenciar o destino trágico de um herói tão admirado e reverenciado no automobilismo mundial.
Gilles ficou famoso por competir com o número 27, e naturalmente, também me sinto conectado a essa numeração. Meu barco, inclusive, leva o nome “27”, pois, para os fervorosos torcedores da Ferrari, o 27 representava um emblema de devoção e identidade com a equipe, simbolizando a paixão e a garra que Villeneuve personificava nas pistas.
Ao ingressar na equipe Ferrari, meu companheiro de escuderia era Alain Prost. Ele utilizava o número 27, enquanto eu competia com o 28. Constantemente, eu expressava o desejo de assumir o 27 assim que Alain deixasse a equipe – e foi exatamente o que aconteceu! Mais tarde, quando Gerhard Berger se uniu à Ferrari em 1993 e manifestou o interesse pelo 27, a resposta foi clara: “Não, o número é do Jean”. Assim, o 27 consolidou-se como um símbolo intrínseco à Ferrari, carregando uma herança emocional e histórica para os fãs.
Em 1996, tive a chance de competir na Fórmula 1 contra Jacques, filho de Gilles Villeneuve. Quando ele estreou na categoria, lembro-me de ler os jornais e ficar bastante incomodado com algumas declarações que Jacques fez a respeito de seu pai e do legado deixado por Gilles, que, para muitos, era intocável.
Posteriormente, durante testes no Estoril, seu empresário me perguntou se eu poderia oferecer uma carona a Jacques no voo de volta para Nice, já que eu seguiria para o sul da França. Concordei sem hesitação. Após os testes, já a bordo do avião, assim que decolamos, dirigi-me a Jacques e disse: “Jacques, nunca mais se refira ao seu pai dessa maneira. Se você está aqui, é por seu talento, por sua paixão, ou por qualquer outro motivo, mas você é filho de Gilles Villeneuve, o herói dos heróis”.
Minha irritação era genuína. Ele me respondeu que não era exatamente o que pretendia expressar. Contudo, acredito que tenha sido um processo complexo para ele, ter perdido o pai ainda na infância, e tenho certeza de que, internamente, ele carrega consigo não uma frustração, mas uma dor profunda, que pode ter influenciado suas palavras e sua percepção sobre o legado familiar.