O mês de julho marca 110 anos desde o desfecho dos derradeiros combates da Guerra do Contestado, um dos mais sangrentos e complexos episódios da história brasileira. Este período crucial foi selado pela prisão de Adeodato Ramos, o último líder dos rebeldes, e pelas intensas negociações que culminaram na assinatura do Tratado de Limites, documento que finalmente consolidou a soberania catarinense sobre uma vasta área do planalto, até então disputada com o Paraná e que se estendia até a fronteira argentina.
Por décadas, a Guerra do Contestado permaneceu à margem dos currículos escolares e foi, de certa forma, silenciada pelas forças militares e policiais. Essa lacuna histórica começou a ser preenchida a partir da década de 1950, quando o médico Aujor Luz iniciou um trabalho pioneiro de resgate intelectual dos fatos.
Posteriormente, na esfera oficial, o esforço do governador Esperidião Amin, a partir de 1983, trouxe o conflito novamente para o debate público e o reconhecimento necessário. Tal empenho foi fundamental para que a magnitude e as lições desse período não fossem completamente esquecidas, garantindo que as futuras gerações pudessem compreender as complexidades de sua formação regional.
A Guerra do Contestado superou em duração e devastação a conhecida Guerra de Canudos, tornando-se o maior massacre da história de Santa Catarina. O conflito no sul estendeu-se por aproximadamente quatro anos, entre 1912 e 1916, em contraste com os 11 meses dos confrontos baianos (1896-1897). Abrangendo uma área de 28 mil km² entre Santa Catarina e Paraná, a guerra resultou na morte de mais de 10 mil pessoas, com relatos de uma chacina tão brutal no Vale Sagrado de Santa Maria que teria alterado a coloração do rio Timbó, um testemunho sombrio da violência que assolou a região. A dimensão geográfica e o número de mortos colocam o Contestado como um evento de proporções gigantescas, merecendo um lugar de destaque na historiografia nacional.
Os combates mais intensos da Guerra do Contestado ocorreram em território catarinense, mobilizando o Exército por anos. Este conflito marcou um ponto inédito na história militar brasileira, com a utilização de aviões em operações bélicas pela primeira vez no país, evidenciando um avanço tecnológico em meio à brutalidade dos confrontos.
Contudo, a cobertura midiática da época divergia drasticamente daquela dedicada a Canudos. Enquanto Euclides da Cunha produzia reportagens que resultariam no clássico “Os Sertões”, a imprensa sobre o Contestado tendia a favorecer as narrativas militares, retratando os sertanejos de forma crítica e estigmatizada, o que contribuiu para a invisibilidade do sofrimento das populações locais.
Essa disparidade se estendeu à produção literária: o livro de Euclides da Cunha foi lançado em 1902, enquanto a primeira obra relevante sobre o Contestado, do médico e historiador Aujor Ávila da Luz, só circulou em 1952. A falta de uma cobertura jornalística imparcial e a demora na publicação de registros históricos contribuíram para que o conflito fosse “escondido” por sete décadas, reforçando a necessidade de revisitar e reinterpretar essa parte da história.
Julho de 1916 testemunhou o estágio final do massacre de Santa Maria, intensificado por um inverno rigoroso e pela fome generalizada que assolava os poucos sobreviventes. Após anos de bombardeios e investidas implacáveis do Exército, as “cidades santas” dos rebeldes jaziam em ruínas, e os encurralados enfrentavam condições desumanas, agravadas por uma grave epidemia de tifo.
A tática de “terra arrasada”, onde plantações eram queimadas para forçar a rendição, levou a uma fome extrema. Com a morte ou rendição dos antigos líderes e monges, Adeodato Ramos assumiu o comando dos últimos rebeldes. Apesar de sua liderança militar severa e da fuga constante pelas densas matas da região com um grupo cada vez menor, ele finalmente se rendeu em julho de 1916, pondo fim ao conflito armado.
A eclosão da Guerra do Contestado, que se espalhou por dezenas de municípios na serra e no Planalto Norte de Santa Catarina, foi o resultado de uma confluência de fatores sociais, econômicos e políticos. Estudiosos apontam cinco motivos principais que precipitaram o conflito:
O Combate do Irani, ocorrido em 22 de outubro de 1912, é considerado o evento que deflagrou a Guerra do Contestado. O confronto se deu no Faxinal do Irani, hoje localizado às margens da BR-473, a 440 km da capital, mas que na época era administrado por Palmas, no Paraná.
Neste local, sertanejos desapropriados de suas terras pela Brazil Railway se uniram sob a liderança do monge José Maria. A resposta veio com o Regimento de Segurança do Paraná, sob o comando do coronel João Gualberto, que marchou para expulsar os “invasores”. O embate foi sangrento e resultou na morte tanto do militar quanto do monge.
Atualmente, o local preserva a memória dos acontecimentos no Vale dos 21, onde os mortos foram sepultados, e abriga o Cemitério do Contestado, que guarda a sepultura do monge José Maria. Além disso, o Museu do Contestado e o Marco do Contestado, iniciativas do historiador e compositor Vicente Telles, nascido na região, perpetuam a história para as novas gerações.
A morte de José Maria, ao invés de desmobilizar, multiplicou o número de revoltosos, que passaram a acreditar em seu retorno para liderar um “Exército Santo”. O Combate do Irani não só espalhou o sentimento de revolta entre os sertanejos expulsos, mas também expôs a gravidade da questão social da região, culminando, posteriormente, na assinatura do Tratado de Limites e na redefinição das fronteiras estaduais.
A controvérsia sobre as divisas entre Santa Catarina e Paraná remonta a 1853, com raízes em uma antiga disputa com a Argentina. Após a Proclamação da República, um acordo firmado em Montevidéu, que cedia grande parte do Oeste brasileiro à Argentina, foi contestado por Dionísio Cerqueira. A questão foi finalmente resolvida em 1895, com a arbitragem do presidente dos Estados Unidos, Grover Cleveland, que decidiu a favor do Brasil.
A contenda interna entre os estados foi julgada três vezes pelo Supremo Tribunal Federal (1904, 1909 e 1910), sempre com decisões favoráveis a Santa Catarina. Nomes como o Conselheiro Mafra e o ministro André Cavalcanti tiveram atuações destacadas, embora a posição de Rui Barbosa em apoio ao Paraná tenha gerado controvérsia. A reação do Paraná, que se recusava a aceitar as decisões judiciais, intensificou ainda mais as tensões que alimentariam o conflito na região.