
Local onde estava erguido acampamento cristão no Burning Man foi esvaziado após ordem de explusão — Foto: Reprodução/X Crédito: Extra.globo.com
Um coletivo de missionários cristãos foi removido do festival Burning Man, na famosa Black Rock City, erguida anualmente no deserto de Nevada, Estados Unidos. O acampamento, denominado “Shift the Atmosphere”, foi desmantelado pela administração do evento após repetidas violações das rigorosas políticas internas do encontro de contracultura, incluindo normas de privacidade e conduta dos participantes.
Desde o início de sua montagem, o grupo liderado por John Hinerman gerou atritos com outros frequentadores e a organização. A equipe evangelizadora se engajou em atividades sem a devida autorização, como a filmagem de pessoas sem consentimento explícito e o convite para “receber uma bênção”, conforme detalhado em relatos do festival que se encerra em 7 de setembro. O Burning Man é conhecido por suas estritas diretrizes de privacidade, que proíbem o registro de imagens faciais sem permissão.
A porta-voz do evento, Dominique Debucquoy-Dodley, enfatizou a seriedade com que o Burning Man trata o direito à privacidade de seus participantes. Ela afirmou que a obtenção de permissão e consentimento antes de qualquer interação ou filmagem é uma responsabilidade fundamental para todos em Black Rock City. O acampamento religioso recebeu múltiplos avisos e chances de ajustar sua conduta antes da decisão de expulsão.
O “Shift the Atmosphere” não se limitava a pregações. Testemunhos de outros “burners” (como são chamados os participantes) revelam que o acampamento oferecia café e matcha, além de promover sessões de música cristã em volume elevado, o que incomodava os vizinhos. Jenae Gerstmann, de um acampamento próximo, relatou a necessidade de pedir que o som fosse diminuído.
Além disso, o grupo realizava batismos em pequenos tanques de água na “playa”, a vasta planície desértica que abriga o festival. Hinerman divulgou vídeos no Instagram alegando que o acampamento estava sendo alvo de discriminação religiosa e que seus membros tiveram apenas três horas para empacotar seus pertences. Ele afirmou que mais de 600 participantes do Burning Man teriam “entregado suas vidas a Jesus” através dessas cerimônias.
A prática de batismos em tanques de uso coletivo, no entanto, levantou preocupações entre alguns participantes e observadores em fóruns online. Eles apontaram que a utilização de água dessa forma pode violar as regras do festival, que se baseiam em normas do departamento de saúde do estado de Nevada, proibindo piscinas ou chuveiros públicos na área do evento. Tais regras são essenciais para manter a higiene e a segurança em um ambiente tão peculiar e desafiador como Black Rock City.
Julien Rabinow, um morador de São Francisco que estava no acampamento “Axis of Stillness”, relatou ter sido abordado por integrantes do “Shift the Atmosphere”. Ele foi convidado a entrar no local, ver pinturas de inspiração bíblica e perguntado se estaria disposto a “entregar sua vida a Jesus Cristo”. Embora tenha recusado o convite principal, aceitou que um homem orasse por ele. Rabinow comentou que, embora pessoalmente não se sentisse desconfortável, compreendia por que a pergunta direta sobre conversão poderia causar estranhamento em alguns.
O incidente sublinha a complexidade de um evento como o Burning Man, que, embora promova a liberdade de expressão e a contracultura, opera sob um conjunto bem definido de princípios e regras para garantir a coexistência e o respeito mútuo em seu ambiente único. A expulsão destaca a prioridade da organização em manter a integridade de suas normas, especialmente as relacionadas à privacidade e ao consentimento, que são pilares da experiência do festival.