
Crédito: Formula1.com
A escuderia Ferrari atingiu um marco histórico na Fórmula 1, celebrando sua 250ª vitória em Grandes Prêmios do campeonato. O feito foi conquistado por Charles Leclerc no recente Grande Prêmio da Grã-Bretanha, adicionando mais um capítulo glorioso à rica trajetória da equipe italiana.
Ao longo de 75 anos de participação na categoria máxima do automobilismo, um total de 41 pilotos contribuíram para o impressionante recorde de triunfos da Ferrari. Muitos desses nomes se tornaram verdadeiras lendas do esporte, entregando performances memoráveis e que ecoam até hoje. Selecionar apenas alguns desses momentos emblemáticos é um desafio, mas uma análise aprofundada nos permite destacar dez vitórias que se tornaram símbolos da paixão e da excelência da Ferrari na F1.
A vitória de Charles Leclerc em Silverstone, na Inglaterra, ocorreu de forma bastante simbólica, apenas uma semana antes do 75º aniversário do primeiro sucesso da Ferrari em um Campeonato Mundial, conectando o presente com as raízes profundas de sua história.
Após a dominância da Alfa Romeo na temporada de 1950, a Ferrari demonstrou sua resiliência e capacidade de evolução. Em 1951, o modelo 375 da escuderia de Maranello já se apresentava como um competidor formidável, pronto para desafiar os rivais e consolidar seu lugar no cenário da Fórmula 1. Esse período marcou o início de uma rivalidade intensa que impulsionaria a inovação no esporte.
No circuito de Silverstone, o argentino José Froilán González garantiu a pole position e travou uma batalha épica pela liderança contra os carros da Alfa Romeo. Sua estratégia de parar apenas uma vez para reabastecer foi crucial, permitindo que o piloto abrisse uma vantagem considerável sobre seus adversários e controlasse a corrida com maestria.
González cruzou a linha de chegada quase um minuto à frente do segundo colocado, garantindo sua primeira vitória pessoal e, mais importante, o primeiro triunfo da Ferrari em um Grande Prêmio do Campeonato Mundial. Esse feito histórico não apenas colocou a Ferrari no mapa da F1, mas também deu o pontapé inicial para a lenda que Enzo Ferrari construiria com sua Scuderia, estabelecendo um legado de vitórias que perdura até hoje.
A audácia de Niki Lauda em buscar um lugar na Fórmula 1 culminou em sua surpreendente contratação pela Ferrari, um período em que a equipe atravessava uma fase de baixa competitividade, resultando em um ano de 1973 sem vitórias. Sua chegada, no entanto, sinalizava uma nova esperança para a tradicional equipe.
No Grande Prêmio da Espanha de 1974, realizado em Jarama, Lauda conquistou a pole position. Em uma corrida desafiadora, com condições climáticas alternando entre pista molhada e seca, ele precisou ceder posições, mas uma parada estratégica para trocar para pneus slick o recolocou na frente. Lauda manteve a liderança até o fim, quando a prova atingiu seu limite de tempo, assegurando sua primeira vitória e o 50º triunfo da Ferrari, encerrando um jejum de dois anos para a escuderia e marcando o início de sua recuperação.
O impacto de Lauda na equipe foi imediato e duradouro. Entre 1974 e 1977, ele acumulou 15 vitórias pilotando os carros vermelhos, um feito que o mantém até hoje como o segundo piloto com o maior número de vitórias na história da Ferrari. Sua contribuição foi fundamental para recolocar a equipe no topo do automobilismo mundial.
Embora a Fórmula 1 já tivesse superado o circuito de Jarama na década de 1980 em termos de infraestrutura e desafios, a última corrida realizada no local em 1981 serviu de palco para uma das performances mais espetaculares de Gilles Villeneuve. Essa corrida é lembrada como um exemplo máximo da capacidade de um piloto de transcender as limitações de seu equipamento.
O Ferrari 126-CK, conhecido por sua dirigibilidade difícil e imprevisível, não era um carro que se esperava ver lutando pelas primeiras posições em um circuito apertado e técnico como Jarama. Contudo, Villeneuve, com sua habilidade inata, qualificou o carro em um impressionante sétimo lugar. Na largada, ele ascendeu para a terceira posição e, em seguida, ultrapassou Carlos Reutemann para assumir o segundo posto, demonstrando sua agressividade e precisão.
Um erro de Alan Jones concedeu a Villeneuve a liderança, mas o canadense se viu com quatro adversários diretamente em sua cola, pilotando máquinas teoricamente mais rápidas. Villeneuve utilizou com maestria a ligeira vantagem de potência de seu Ferrari para se manter à frente na única reta significativa de Jarama, defendendo sua posição com uma condução exímia e estratégica.
Após 80 voltas de intensa competição e pressão constante, Villeneuve cruzou a linha de chegada apenas dois décimos de segundo à frente de Jacques Laffite. A corrida foi tão acirrada que os cinco primeiros colocados foram separados por meros 1,2 segundos, solidificando a vitória de Villeneuve como um testemunho de sua genialidade e de sua capacidade de extrair o máximo de um carro desafiador, tornando-se uma de suas atuações mais icônicas.
A temporada de 1988 da Fórmula 1 foi dominada de forma quase absoluta pela McLaren e seu icônico MP4/4, um carro que parecia imbatível e relegava as demais equipes a lutar pelas posições restantes. A superioridade da equipe inglesa era tamanha que cada vitória de outra escuderia era vista como um milagre.
O Grande Prêmio de Monza daquele ano tinha um peso emocional adicional, sendo a primeira corrida em solo italiano após o falecimento do fundador da Ferrari, Enzo Ferrari, poucas semanas antes. Em um clima de luto e esperança, os carros vermelhos da Ferrari garantiram a segunda fila do grid, alimentando a torcida italiana, a Tifosi, com um misto de expectativa e desejo por uma homenagem à altura do Comendador.
Apesar do fervor da torcida, a McLaren manteve sua habitual superioridade nas primeiras posições, segurando seus lugares na largada. Contudo, a sorte começou a mudar quando o carro de Alain Prost sofreu uma falha no motor, forçando-o a abandonar a corrida e abrindo uma fresta de oportunidade para os rivais.
Ayrton Senna, que liderava a prova de forma dominante, teve um incidente inesperado a apenas duas voltas do fim. Em uma tentativa de ultrapassar o retardatário Jean-Louis Schlesser, que substituía um piloto na Williams, Senna colidiu e acabou na caixa de brita, um desfecho dramático que alterou completamente o cenário da corrida.
De repente, Gerhard Berger e Michele Alboreto, os pilotos da Ferrari, encontraram-se nas duas primeiras posições, um cenário que parecia improvável minutos antes. A dupla completou a volta e meia restante nessas posições, levando a Tifosi ao delírio em um dia de intensa emoção em Monza. Essa vitória não foi apenas um triunfo esportivo, mas uma celebração póstuma e um tributo inesquecível a Enzo Ferrari, demonstrando a capacidade da equipe de superar as adversidades.
Nigel Mansell, conhecido por seu estilo de pilotagem agressivo e por suas “quase vitórias” no campeonato com a Williams, buscou novos desafios e foi contratado pela Ferrari para a temporada de 1989. Sua chegada prometia um novo fôlego para a equipe italiana, que buscava retornar ao topo.
O novo modelo da Ferrari, o 640, apresentava uma inovadora caixa de câmbio semiautomática, uma tecnologia revolucionária para a época. No entanto, o carro se mostrou pouco confiável nos testes de pré-temporada, e, somado à dominância avassaladora da McLaren na campanha anterior, as expectativas para a equipe e para Mansell eram bastante modestas.
Mansell qualificou-se em sexto lugar para a etapa de abertura, realizada no circuito de Jacarepaguá, no Brasil. Com uma pilotagem calculada e evitando problemas, ele não apenas conseguiu completar a corrida, mas surpreendentemente a venceu. Em um momento que combinava com sua personalidade dramática, o britânico ainda conseguiu cortar as mãos no troféu de vencedor durante a celebração, adicionando um toque de humor ao seu triunfo inesperado.
Apesar da vitória inaugural, as preocupações de Mansell com a confiabilidade do carro foram confirmadas. Ele não conseguiu terminar os quatro Grandes Prêmios seguintes, enfrentando uma série de problemas mecânicos. Embora tenha conquistado apenas mais duas vitórias pela Ferrari, seu triunfo no Brasil em 1989 foi um marco, simbolizando a introdução de uma tecnologia que mudaria a Fórmula 1 e destacando sua capacidade de vencer contra as probabilidades antes de seu retorno à Williams em 1991.
Jean Alesi rapidamente deixou sua marca na Fórmula 1 com sua pilotagem emocionante, mas sua chegada à Ferrari coincidiu com um período de declínio competitivo para a equipe. Na primeira metade da década de 1990, a escuderia estava ofuscada pela supremacia de McLaren, Williams e Benetton, o que dificultava a busca por vitórias.
Entre 1990 e as primeiras corridas de 1995, Alesi acumulou 15 pódios, demonstrando seu talento e consistência. No entanto, ele também enfrentou uma série de azares e oportunidades perdidas, incluindo um abandono quando liderava a corrida em casa da Ferrari em 1994, gerando frustração tanto para o piloto quanto para os apaixonados torcedores.
Finalmente, em Montreal, no Grande Prêmio do Canadá de 1995, Alesi teve seu momento de glória, justamente no dia de seu 31º aniversário. Ele herdou a liderança de um Michael Schumacher que enfrentava problemas em seu carro, e finalmente conquistou sua primeira e tão esperada vitória na Fórmula 1. A emoção foi tanta que, após cruzar a linha de chegada, seu carro ficou sem combustível, e ele precisou pegar uma carona de volta aos boxes com o próprio Schumacher, então campeão mundial, em uma cena icônica.
Essa vitória provou ser a única de Alesi em Grandes Prêmios. Apesar de ter conquistado mais 16 pódios na segunda metade de sua carreira, ele nunca mais subiu ao degrau mais alto do pódio. Sua vitória no Canadá, no entanto, permanece como um dos triunfos mais celebrados e emotivos da Ferrari, um testemunho de sua persistência e do carinho que a Tifosi tinha por ele, marcando um ponto alto em uma carreira cheia de talento e azar.
A Ferrari contratou o então bicampeão mundial Michael Schumacher com a missão clara de reconduzir o campeonato de volta a Maranello, estabelecendo-o como o pilar central de seu ambicioso projeto. Contudo, o carro de 1996, o F310, era uma máquina descrita como desajeitada e de difícil controle, notável por suas laterais altas no cockpit, o que complicava a tarefa do piloto.
A temporada de 1996 foi dominada pela Williams, mas uma oportunidade se apresentou para Schumacher sob o dilúvio do Grande Prêmio de Mônaco. No entanto, em um erro incomum para ele, Schumacher colidiu com o muro na primeira volta. Condições climáticas semelhantes, com chuva intensa, atingiram o evento seguinte em Barcelona, e foi ali que Schumacher demonstrou sua genialidade.
Após uma largada lenta, ele avançou de forma implacável até a liderança e, a partir daí, simplesmente se distanciou da concorrência, por vezes ganhando vários segundos por volta. Sua performance em condições extremas foi um espetáculo de controle e velocidade, mostrando um domínio que poucos pilotos na história da F1 conseguiram igualar.
Em um Grande Prêmio que teve apenas seis pilotos cruzando a linha de chegada, com muitos sucumbindo às condições traiçoeiras da pista, somente dois dos rivais de Schumacher conseguiram permanecer na mesma volta que ele. A margem de sua vitória foi de impressionantes 45 segundos, uma demonstração clara de sua superioridade e da capacidade de transformar um carro mediano em uma máquina vencedora sob sua batuta. Essa corrida marcou a primeira vitória de Schumacher pela Ferrari e foi um prenúncio da era de ouro que ele traria para a equipe nos anos seguintes.
Michael Schumacher viria a conquistar 72 Grandes Prêmios com a Ferrari, tornando-se confortavelmente o piloto com o maior número de vitórias na história da Scuderia, um legado que começou a ser forjado em dias como aquele em Barcelona.