
Mikal Deen Mahdi e Eliseo Mares: execuções falhas por pelotão de fuzilamento nos EUA — Foto: AFP; Reprodução/Find A Grave Crédito: Extra.globo.com
A iminente execução de Nidal Hasan, um ex-major do Exército norte-americano condenado pelo assassinato de 13 pessoas em uma base militar no Texas, agendada para 3 de dezembro, está no centro de uma intensa controvérsia. A possibilidade de transmissão pública do evento, aventada pelo secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, amplifica as preocupações de especialistas, que alertam para o risco de o fuzilamento se tornar um “espetáculo prolongado de tortura”.
Críticos da pena capital temem que, ao invés de um desfecho rápido, Hasan possa sucumbir a uma hemorragia lenta e dolorosa diante de milhões de espectadores, caso os disparos não atinjam seu coração de forma precisa. Essa situação reacende uma antiga discussão sobre a crueldade dos métodos de execução nos Estados Unidos, com alguns observadores sugerindo um retrocesso a períodos mais sombrios da justiça penal.
A realidade por trás dos pelotões de fuzilamento é alarmante, conforme exposto por especialistas. A imprecisão dos atiradores, falhas no equipamento ou erros humanos podem levar os prisioneiros a um fim agonizante. Maya Foa, uma proeminente pesquisadora sobre pena de morte da organização Reprieve, descreve o fuzilamento como um método inerentemente brutal e sangrento. Ela enfatiza que, se as balas não atingirem o coração, o sofrimento do condenado pode ser prolongado e excruciante, tornando a brutalidade explícita.
Essa discussão ganha força poucos dias após o caso de Christa Pike, uma condenada de 50 anos no Tennessee, que resistiu a duas aplicações de injeção letal. O incidente intensificou o debate sobre a humanidade dos métodos de pena capital e a viabilidade da transmissão de execuções, que muitos veem como um passo perigoso para a imagem do sistema judicial americano.
A fragilidade do método de fuzilamento foi dramaticamente demonstrada em abril do ano passado, durante a execução de Mikal Deen Mahdi na Carolina do Sul. Embora três atiradores tivessem sido instruídos a mirar em um alvo posicionado sobre o coração do condenado, a autópsia revelou apenas duas perfurações, nenhuma delas no órgão vital. As balas atingiram o fígado e outros órgãos internos, levantando a suspeita de que Mahdi permaneceu consciente enquanto morria de hemorragia.
Maya Foa destaca o caso de Mahdi como particularmente ilustrativo dos perigos. Segundo a pesquisadora, a morte por hemorragia, em vez de instantânea, resultou em uma execução prolongada e torturante. O episódio gerou uma acalorada disputa sobre se os atiradores erraram o alvo, se suas armas falharam ou se duas balas entraram pelo mesmo ferimento, mas o resultado foi inegavelmente uma morte mais lenta e dolorosa do que o esperado.
Outros exemplos históricos corroboram esses temores de falhas. Em 1879, em Utah, o assassino condenado Wallace Wilkerson sofreu intensamente após o pelotão de fuzilamento não acertar seu coração. Wilkerson havia se recusado a ser amarrado ou vendado, insistindo em encarar seus executores. No momento dos disparos, ele teria levantado os ombros, desviando o alvo. Quatro balas perfuraram seu corpo, mas nenhuma atingiu o coração. O impacto o arremessou da cadeira, e o condenado teria exclamado, em desespero, que haviam errado o tiro. Testemunhas horrorizadas observaram Wilkerson se contorcer no chão por 27 minutos antes de ser declarado morto.
Em setembro de 1951, Eliseo Mares enfrentou um pelotão de quatro atiradores na prisão Point of the Mountain, também em Utah. Duas das balas, que deveriam atingir seu coração para uma morte rápida, acabaram perfurando seu quadril e abdômen. O assassino condenado ficou mortalmente ferido, mas não morreu instantaneamente. Anos depois, o jornalista Clark Lobb, testemunha da execução, recordou que Eliseo “morreu em silêncio e de forma horrível”.
Essas execuções mal-sucedidas impulsionaram o clamor pelo abandono do pelotão de fuzilamento em favor de métodos considerados mais “humanos”. Vários estados, incluindo o Tennessee — onde Christa Pike sobreviveu à injeção letal —, já removeram o fuzilamento de suas opções de pena capital. Paradoxalmente, a própria Christa Pike teria solicitado ser fuzilada, alegando estar “aterrorizada” com a injeção letal, o que ressalta a complexidade e a subjetividade na percepção de qual método seria menos cruel. A discussão em torno da execução de Nidal Hasan, e a possibilidade de sua transmissão pública, intensifica a pressão sobre os Estados Unidos para reavaliar suas práticas de pena capital e garantir que estas não violem princípios de dignidade humana, mesmo para os crimes mais hediondos.