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Ex-executor de cartel detalha incineração de 250 corpos em rancho no México

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A brutalidade do crime organizado no México ganhou novos e estarrecedores contornos com o depoimento de um ex-executor de um poderoso cartel. O homem, cuja identidade é protegida, revelou ter participado da execução de mais de 500 indivíduos e, pessoalmente, da incineração de cerca de 250 vítimas em uma propriedade rural isolada, transformada em um verdadeiro campo de extermínio.

Nos últimos dezoito meses, suas informações têm sido cruciais para grupos de voluntários que incansavelmente procuram por entes queridos desaparecidos, oferecendo um vislumbre sombrio das operações do narcotráfico na região de Jalisco.

Rancho Izaguirre, uma propriedade remota situada em Teuchitlán (estado de Jalisco, México) — Foto: AFP Crédito: Extra.globo.com

O rancho da morte: cenário de atrocidades do Cartel Jalisco Nova Geração

Em uma entrevista concedida à emissora pública italiana RAI, o ex-matador, que apareceu mascarado, descreveu como o Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG) utilizou o Rancho Izaguirre, uma propriedade remota localizada em Teuchitlán, no estado de Jalisco, para fazer centenas de pessoas desaparecerem. Ele afirmou que “mais de 500 pessoas foram executadas lá”, e que ele próprio “incinerou 250 pessoas” nesse local.

A propriedade, agora conhecida como “campo de extermínio”, tem sido alvo de investigações policiais que, até o momento, não conseguiram quantificar o número exato de vítimas. No entanto, a descoberta de fornos de cremação, fragmentos ósseos, centenas de pares de calçados, roupas e até brinquedos infantis dentro do rancho reforça os temores de assassinatos em massa perpetrados pelo CJNG.

A lógica perversa do pagamento por execuções

O ex-executor do cartel detalhou o sistema de remuneração dentro da organização criminosa, onde ele recebia US$ 220, o equivalente a aproximadamente R$ 1.115, semanalmente para realizar as execuções. Sua declaração evidencia a desvalorização da vida humana dentro dessas estruturas criminosas, onde a quantidade de vítimas não altera a recompensa financeira.

“No cartel, um matador ganha sempre o mesmo salário. Posso matar cinco pessoas em um único dia, mas meu pagamento continua o mesmo. Uma vida não custa muito”, expôs o homem, revelando a frieza e a indiferença com que as execuções são tratadas, independentemente do número de vítimas, sejam elas integrantes de facções rivais ou colaboradores que perderam a utilidade.

A árdua busca por respostas e a atuação dos voluntários

A descoberta do Rancho Izaguirre pela Guarda Nacional em setembro de 2024, que inicialmente resultou na prisão de dez membros do cartel e no resgate de duas vítimas de sequestro, foi minimizada pela Promotoria de Jalisco, que classificou o local como um mero centro de treinamento. Esta postura inicial contrasta drasticamente com a magnitude das descobertas posteriores e a realidade revelada.

Indira Navarro, líder do grupo Guerreiros da Busca de Jalisco, informou ter tomado conhecimento do rancho em fevereiro de 2025, após receber denúncias anônimas de vítimas de sequestro que conseguiram escapar, além de informações fornecidas por um membro do cartel. A visita do grupo ao local em março de 2025 revelou centenas de peças de vestuário e fragmentos ósseos, forçando uma reavaliação da situação e expondo a falha inicial das autoridades.

Os restos ósseos encontrados foram entregues às autoridades, mas a identificação e a associação com pessoas desaparecidas ainda são um desafio, dada a escala do problema e a dificuldade em lidar com restos cremados. Até agora, cerca de 700 itens pessoais e quase 100 cápsulas de bala foram encontrados, mas o número de corpos cremados permanece incerto, complicando a contagem oficial de vítimas.

O drama das famílias de desaparecidos e a esperança por identificação

Este caso ressalta a profunda crise de desaparecidos no México, onde cerca de 120 mil pessoas estão desaparecidas, tornando o país um dos mais afetados por essa tragédia humanitária. O analista de segurança Eduardo Guerrero, da Cidade do México, descreveu a situação como o ressurgimento de “um pesadelo de que o México é atormentado por valas comuns”, sublinhando a gravidade e a recorrência dessas atrocidades em todo o território nacional.

Para as famílias, cada nova descoberta como a do Rancho Izaguirre reacende a dor e a esperança. Muitos pais e parentes, ao verem fotos dos pertences encontrados no rancho, chegaram a reconhecer objetos que pertenciam a seus entes queridos, em um doloroso processo de busca por qualquer vestígio que possa levar a uma resposta sobre o destino de seus familiares e, quem sabe, permitir um sepultamento digno.