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O pleito de 2026 para a Câmara dos Deputados marcou uma significativa ascensão de figuras públicas com forte presença digital, que obtiveram votações expressivas e superaram o desempenho de celebridades mais tradicionais. No primeiro turno, realizado no último domingo (4), três nomes proeminentes – Nikolas Ferreira (PL-MG), Lucas Pavanato (PL-SP) e Erika Hilton (PSOL-SP) – acumularam juntos mais de 7,7 milhões de votos, consolidando sua influência na composição das bancadas partidárias.
Uma nova configuração do cenário político federal emergiu nas eleições legislativas de 2026, com a notável predominância de candidatos que construíram sua base eleitoral a partir de plataformas digitais. Esses “políticos influenciadores” demonstraram uma capacidade de mobilização superior, garantindo um número substancial de votos e posições importantes no Parlamento. A eficácia de suas campanhas, muitas vezes orgânicas e diretas, contrasta com métodos de divulgação mais clássicos.
Em contrapartida à ascensão dos influenciadores digitais, personalidades com trajetórias consolidadas na televisão, música e esporte enfrentaram um revés nas urnas. Diversos nomes conhecidos do grande público, que buscaram uma vaga no Congresso Nacional, não conseguiram se eleger. Apresentadores, artistas e ex-atletas ficaram de fora do Legislativo federal, sinalizando uma mudança no perfil dos concorrentes com grande apelo popular.
Entre os que não obtiveram sucesso no estado de São Paulo, destacam-se a apresentadora Silvia Abravanel (PSD-SP), a empresária Val Marchiori (Republicanos-SP), o ex-jogador de futebol Luiz Fabiano Clemente (MDB-SP) e o cantor Manoel Gomes (Avante-SP). Os resultados consolidados da apuração não detalharam a votação nominal exata recebida por essas figuras públicas.
A onda de renovação política não poupou figuras com longa trajetória no parlamento. O humorista Francisco Everardo Oliveira Silva, popularmente conhecido como Tiririca (PSD-CE), encerrou um ciclo de 14 anos consecutivos na Câmara dos Deputados ao não conseguir a reeleição. Sua saída representa um marco, especialmente considerando seu histórico de “puxador de votos”. Em 2010, por exemplo, Tiririca conquistou mais de 1,3 milhão de votos em São Paulo, um feito que impulsionou a eleição de outros cinco colegas de sua coligação partidária.
As regras eleitorais foram significativamente modificadas desde então, com a proibição de coligações em eleições proporcionais e a introdução de uma votação nominal individual mínima para a ocupação de assentos. Apesar dessas mudanças, a capacidade de um candidato de atrair um grande volume de votos individuais permanece crucial, influenciando diretamente o cálculo das “sobras eleitorais” e a quantidade de parlamentares eleitos por sua legenda.
Os resultados individuais nas urnas de 2026 evidenciaram o poder de mobilização de alguns candidatos, que não apenas garantiram suas próprias vagas, mas também contribuíram decisivamente para o fortalecimento de suas respectivas bancadas. Nikolas Ferreira (PL-MG) destacou-se como o deputado federal mais votado do país, angariando expressivos 3.119.318 votos. Essa performance notável representou 67,6% dos votos nominais do Partido Liberal em Minas Gerais e resultou na conquista de 13 cadeiras adicionais para a sigla no estado.
No cenário paulista, Lucas Pavanato (PL-SP), vereador da capital, obteve a segunda maior votação nacional para o cargo, com 3.038.438 sufrágios. Seu desempenho foi fundamental para assegurar a eleição de mais sete deputados federais do PL em São Paulo. Pelo lado da esquerda, Erika Hilton (PSOL-SP) registrou 1.596.472 votos, tornando-se a mulher com a maior votação para a Câmara. Sua expressiva votação foi crucial para que o Partido Socialismo e Liberdade conquistasse três vagas extras em São Paulo.
A professora Issaaf Karhawi, pesquisadora de comunicação da Escola de Comunicações e Artes da USP, detalhou os fatores que distinguem a influência digital da fama tradicional. Ela ressaltou que as plataformas digitais operam sob uma lógica de comunicação horizontal, onde a visibilidade é percebida como algo “manufaturado” e produzido diretamente pelos criadores de conteúdo. Esse modelo difere substancialmente das celebridades midiáticas, cuja projeção dependia historicamente dos veículos de imprensa.
Karhawi enfatizou a necessidade de os partidos adaptarem seus investimentos em campanha. Ela argumentou que, além das atividades de rua, é fundamental direcionar recursos para as redes sociais, reconhecendo que grande parte do eleitorado está presente nesses ambientes digitais. Essa nova realidade foi exemplificada pela eleição de Ana Elisa Santos (PT-MG) em Minas Gerais, que, com 524.219 votos, tornou-se a mulher mais jovem a integrar a bancada do estado.
A própria parlamentar eleita sublinhou a onipresença das redes na vida contemporânea. Ela desafiou a visão de que a atuação online é um demérito, argumentando que a presença digital é tão vital quanto a de rua para alcançar os eleitores. A análise da professora Karhawi conclui que o panorama atual reflete a inegável centralidade das plataformas digitais na arena política institucional. Ela observou que o tempo de subestimar a relevância das redes sociais na política chegou ao fim, com o campo político não podendo mais se dar ao luxo de ignorar esses espaços.
Com a definição das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados já no primeiro turno, a atenção do calendário da Justiça Eleitoral agora se volta para o segundo turno. A próxima etapa será dedicada à eleição dos cargos majoritários do Poder Executivo, agendada para 25 de outubro de 2026.