
Crédito: Mixvale.com.br
Uma ferramenta desenvolvida para coibir chamadas telefônicas indesejadas desencadeou um embate significativo no setor de telecomunicações brasileiro. Enquanto algumas empresas defendem a eficácia da solução em resguardar os usuários, outras levantam questionamentos sobre o bloqueio indevido de ligações consideradas legítimas, com incidentes reportados a partir de 4 de agosto de 2026.
O epicentro dessa controvérsia é o “Vivo Anti-spam”, um dispositivo que passa a operar automaticamente em novas linhas de telefonia celular administradas pela operadora. A Vivo sustenta que o recurso tem como objetivo principal identificar e impedir a concretização de chamadas em massa ou fraudulentas, protegendo seus assinantes de interrupções e golpes.
Contudo, outras companhias de telecomunicações, como a TIM, alegam que o sistema interfere em comunicações que deveriam ser concluídas sem obstáculos. Pelo menos sete operadoras manifestaram profunda preocupação com a interrupção de milhares de chamadas, incluindo aquelas provenientes de serviços de saúde cruciais para o contato com pacientes.
Diante da gravidade da situação, as empresas afetadas protocolaram queixas formais junto à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). A autoridade reguladora confirmou que está investigando os casos, com o propósito de encontrar um “equilíbrio setorial e, acima de tudo, o bem-estar do consumidor”, uma vez que a interrupção de chamadas essenciais pode ter sérias consequências.
A TIM, por exemplo, informou à Anatel que seus usuários enfrentaram impedimentos injustificados em suas tentativas de comunicação, mas optou por não comparecer a uma rodada de conciliação proposta. Procurada para comentar o assunto, a operadora preferiu não se manifestar sobre os detalhes da questão.
O ponto nevrálgico do desentendimento entre as empresas reside na metodologia empregada para filtrar e barrar as chamadas, conforme esclarecido por Eduardo Tude, presidente da renomada consultoria Teleco. Os critérios de bloqueio são o cerne da discussão sobre a legitimidade das interrupções.
Tude traçou um paralelo entre a operação do sistema e a funcionalidade de um filtro de e-mails, observando que “ocasionalmente, são retidos itens que não deveriam ter sido bloqueados. Não existe um sistema anti-spam perfeito que vai filtrar apenas o que é indesejado”, reforçou o especialista.
Ele acrescentou com veemência que “a Vivo não pode impedir chamadas legítimas. A Anatel terá a responsabilidade de estabelecer um mecanismo para assegurar que essa situação seja evitada”, indicando a necessidade de uma intervenção regulatória clara para proteger os direitos dos usuários e das demais operadoras.
A Adyl Telecom, outra empresa de telefonia, reportou que, a partir de junho de 2026, mais de 16 mil ligações foram interceptadas pelo sistema anti-spam. A companhia alertou a Anatel que hospitais e diversas instituições públicas foram prejudicados por essas interrupções, causando transtornos em suas operações diárias e no atendimento à população.
O sistema da Vivo também foi alvo de acusações por barrar chamadas originadas de mais de 800 telefones vinculados à prefeitura de Araçatuba, no interior de São Paulo. Essa queixa específica foi apresentada pela 3corp Technology, empresa que fornece serviços de telefonia para o município.
Em sua notificação à Anatel, a 3corp detalhou que as chamadas bloqueadas são indispensáveis para a prestação de serviços públicos vitais em áreas como saúde, segurança e educação. No entanto, elas foram “sistematicamente bloqueadas ou interrompidas” pela funcionalidade anti-spam da operadora, gerando preocupação entre os gestores públicos.
A 3corp mencionou que, em um primeiro momento, a Vivo não havia oferecido uma solução eficaz para o problema enfrentado. Contudo, em julho de 2026, a empresa informou que, após diversas negociações, os números foram finalmente desbloqueados e passaram a operar normalmente, resolvendo temporariamente a questão.
A Adyl, por sua vez, manifestou insatisfação com a falta de clareza nos critérios utilizados para o bloqueio e relatou que, após contatar o setor de atacado da Vivo, conseguiu a liberação da maior parte dos números afetados, mas a transparência ainda é um ponto de discórdia.
A Net2Phone Brasil, outra companhia que questiona a eficácia e a justiça da ferramenta da Vivo, expressou grande expectativa por uma sessão de conciliação que será mediada pela Anatel, na esperança de encontrar uma resolução definitiva para o impasse.
A Agera Telecomunicações declarou que, desde o início de junho de 2026, tem recebido inúmeras reclamações de consumidores sobre interrupções em chamadas destinadas a linhas da Vivo, classificando o sistema anti-spam como um instrumento de “degradação artificial de tráfego”, impactando negativamente a qualidade do serviço.
A Ateky Internet e a Ágil Telecom também apresentaram alegações de que o sistema de filtragem da Vivo impede ligações legítimas que se originam de suas próprias redes, evidenciando um problema sistêmico que afeta diferentes provedores de serviço.
A Anatel divulgou que concedeu à Vivo a oportunidade de apresentar sua defesa e, desde então, tem conduzido uma análise minuciosa dos documentos e informações fornecidos por todas as operadoras envolvidas. A agência afirmou que seu objetivo é “oferecer uma visão coerente e replicável aos diferentes casos”, buscando uma solução que sirva de precedente.
Tanto a Adyl quanto a Agera informaram à Anatel que a ferramenta anti-spam da Vivo chegou a bloquear chamadas de números previamente autenticados pelo sistema Origem Verificada. Este recurso foi concebido especificamente para prevenir ligações não solicitadas e garantir a credibilidade da origem da chamada, o que levanta questões sobre a precisão do bloqueio.
O sistema Origem Verificada emprega uma tecnologia globalmente reconhecida, conhecida como STIR/SHAKEN. No momento em que uma chamada é realizada, ele verifica se o número utilizado pela empresa está devidamente registrado em um banco de dados mantido pelas próprias companhias telefônicas, atestando sua legitimidade.
Embora as queixas e a atenção da mídia tenham se intensificado a partir de junho de 2026, a Vivo esclareceu que a ferramenta está em operação desde novembro de 2024. A operadora explicou que seu propósito fundamental é salvaguardar os clientes de chamadas automáticas que frequentemente utilizam números modificados para ocultar a verdadeira identidade do originador, um problema crescente no mercado.
A empresa comunicou à Anatel que o serviço foi submetido a um período experimental rigoroso, envolvendo aproximadamente 700 mil usuários. Somente após essa fase de testes e ajustes, o recurso foi expandido para toda a sua vasta base de clientes ativos, demonstrando um processo de implementação gradual.
A Vivo detalhou ainda que seu sistema anti-spam opera em duas etapas distintas: primeiramente, ele avalia se a chamada possui autenticação válida e, em seguida, procede à verificação do perfil do número de origem, buscando padrões que possam indicar spam ou fraude.
Em um comunicado oficial, a operadora declarou que não impede ligações que respeitam as diretrizes de seu próprio anti-spam e os protocolos do STIR/SHAKEN. Segundo a Vivo, “apenas serão bloqueadas as empresas que realizam chamadas massivas e sem identificação”, visando combater abusos sem prejudicar a comunicação legítima.
A operadora ressaltou também que “vem trabalhando arduamente para combater o ‘spoofing’ [a prática de usar números falsos] que recebe via interconexão de outras operadoras e que impacta diretamente seus clientes”, sublinhando seu compromisso com a segurança da rede.
Proprietários de números que foram indevidamente bloqueados têm a possibilidade de requerer uma análise detalhada diretamente pelo site da Vivo. Além disso, clientes que notarem problemas no recebimento de ligações podem optar por desabilitar o serviço de anti-spam por meio do aplicativo da operadora, exercendo seu direito de escolha.