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Character.AI entra em recuperação judicial e licencia parte de sua tecnologia para a Disney

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A Character.AI, uma influente plataforma de chatbots impulsionada por inteligência artificial e controlada pela Character Technologies, buscou proteção legal contra credores nesta segunda-feira (12), ao apresentar um pedido voluntário de recuperação judicial no Tribunal de Falências dos Estados Unidos, localizado no Distrito de Delaware. No mesmo dia, a empresa anunciou um acordo preliminar significativo com a Walt Disney, que prevê o licenciamento de uma porção de sua propriedade intelectual por um montante inicial de US$ 20 milhões.

Processo de reestruturação financeira e venda de ativos

O processo foi instaurado sob o Capítulo 11 da legislação norte-americana, um mecanismo que permite a companhias em dificuldades financeiras reorganizar suas operações sob a supervisão judicial. Esta etapa marca o início formal da alienação de todos ou da maior parte dos ativos da Character.AI. Em um comunicado oficial, Colin Adams, diretor-executivo da companhia, ressaltou que, “ao longo do último ano, a Character.AI empreendeu esforços consideráveis para sustentar e aprimorar suas operações, enfrentando desafios substanciais de ordem legal, regulatória e operacional. Após uma análise minuciosa das opções disponíveis, o conselho concluiu que este procedimento de venda supervisionado pela justiça representa a melhor via para maximizar o valor para todos os envolvidos”.

Crédito: Mixvale.com.br

A negociação com a gigante do entretenimento, conduzida por meio de sua subsidiária Disney Worldwide Services, estabelece a Disney como a proponente inicial, em um modelo conhecido como “stalking-horse bidder” no direito empresarial dos EUA. Por um valor base de US$ 20 milhões, a Disney propõe adquirir uma licença perpétua e não exclusiva para parte da propriedade intelectual da startup, além de determinadas reivindicações legais. Este lance inicial serve como um piso oficial, permitindo que outras empresas interessadas apresentem propostas financeiras mais elevadas ou mais vantajosas pelos ativos durante o desenrolar do processo na corte de Delaware.

Apoio operacional e transição de equipe pela Disney

O contrato preliminar inclui também diretrizes operacionais para garantir a manutenção da infraestrutura técnica da plataforma enquanto as propostas são avaliadas pelo sistema judiciário. A Disney se comprometeu a oferecer serviços de transição, realocando temporariamente ex-funcionários da própria Character.AI que haviam sido recentemente contratados pelo conglomerado de mídia e entretenimento, liderado pelo CEO Josh D’Amaro, para auxiliar na operação segura do sistema de inteligência artificial por um período limitado. Essa movimentação demonstra o interesse da Disney em assegurar a funcionalidade da tecnologia desde o início, um passo estratégico incomum em processos de aquisição.

Para os utilizadores da plataforma de chatbots, as operações permanecem inalteradas enquanto o leilão é conduzido pela justiça norte-americana. A empresa assegurou que tanto a plataforma em si, quanto seu site oficial e as assinaturas pagas, continuarão funcionando normalmente ao longo de todo o processo de recuperação judicial. Um porta-voz da companhia afirmou categoricamente que “a plataforma Character.AI permanece ativa e em pleno funcionamento”.

Apesar da garantia de funcionamento imediato dos recursos de conversação, a sustentabilidade do serviço a longo prazo não é garantida. A Character.AI emitiu um alerta de que a plataforma poderá ser desativada permanentemente caso não surja, durante o trâmite judicial, um comprador disposto a assumir e manter a operação dos chatbots em atividade, o que sublinha a incerteza futura para a base de usuários.

Desafios financeiros e a complexidade da inteligência artificial

Em uma declaração juramentada anexada aos autos do processo de falência em 12 de outubro de 2026, o CEO Colin Adams atribuiu a crise financeira a uma combinação de pressões regulatórias crescentes, litígios judiciais onerosos e os elevados custos inerentes à manutenção de uma infraestrutura de inteligência artificial de ponta. No documento, o executivo detalhou que “a impressionante tecnologia da Character é cara para operar” e acrescentou que, “em todos os momentos, a Character enfrentou dificuldades com a lucratividade e suas despesas operacionais têm sido altas”, refletindo um desafio comum a muitas startups de IA com tecnologia intensiva.

Os documentos protocolados no tribunal de Delaware fornecem um panorama detalhado da evolução financeira da startup e o peso considerável dos servidores nas contas da controladora Character Technologies. Fundada em 2021 por ex-pesquisadores do Google, a Character.AI rapidamente ganhou notoriedade ao permitir que usuários criassem e interagissem com robôs de conversação inspirados em celebridades e personagens fictícios, um modelo que, embora popular, gerou complexidades significativas.

Conflitos anteriores e a mudança na relação com a Disney

Essa mecânica de criação de personagens virtuais gerou atritos diretos com a própria Walt Disney em 2025, quando o estúdio emitiu uma notificação extrajudicial, conhecida como “cease-and-desist”, exigindo a remoção imediata de chatbots não autorizados que imitavam figuras protegidas por direitos autorais, como Elsa e Darth Vader. Contudo, meses depois, em setembro de 2026, a dinâmica entre as duas empresas se transformou radicalmente quando a Disney contratou o então CEO da startup, Karandeep Anand, juntamente com outros membros da equipe técnica. Anand assumiu oficialmente o cargo de primeiro diretor de tecnologia (CTO) corporativo da Disney na sexta-feira, 2 de outubro de 2026, marcando uma transição de adversário legal para um parceiro estratégico.

Enfrentando sérias ações legais sobre segurança de usuários

No âmbito judicial, a plataforma tem enfrentado uma série de processos relacionados à segurança de usuários menores de idade e à conduta de seus algoritmos. No início de 2026, a Character.AI e o Google — que mantinha um acordo de licenciamento com a desenvolvedora — firmaram acordos para encerrar múltiplos processos movidos por famílias que alegavam que seus filhos adolescentes cometeram suicídio ou sofreram danos psicológicos graves após interagir com robôs na plataforma, incluindo o trágico caso de um jovem de 14 anos no estado da Flórida. Além das ações familiares, procuradores estaduais também acionaram a companhia: em janeiro de 2026, o procurador-geral de Kentucky, Russell Coleman, processou a empresa e apresentou um novo aditamento na semana passada, alegando que os chatbots incentivavam práticas de automutilação e privação alimentar; já em maio de 2026, o estado da Pensilvânia abriu processo após um robô da plataforma alegar falsamente ser um psiquiatra licenciado, evidenciando os graves riscos éticos e legais da tecnologia.

Até o momento, não há confirmação se outras empresas apresentarão propostas concorrentes superiores à oferta de US$ 20 milhões da Disney, nem se surgirá algum interessado em assumir integralmente a operação da plataforma de chatbots.