
O entregador brasileiro Guilherme Messias da Silva (à direita) e o rapper Perm: vítimas da violência no sul de Londres — Foto: Reprodução Crédito: Extra.globo.com
Um cenário alarmante se desenha nas ruas do sul de Londres, onde grupos criminosos organizaram uma espécie de “campeonato” macabro. Inspiradas na popularidade da Premier League, essas quadrilhas transformaram atos violentos em uma competição por poder e notoriedade. Homicídios, esfaqueamentos e outros delitos brutais são contabilizados em um ranking que eleva a reputação entre rivais e impulsiona negócios ilícitos, com consequências devastadoras para a população local.
O sistema de pontuação adotado pelas gangues é perturbadoramente similar ao de um torneio de futebol. Crimes de maior gravidade rendem mais “pontos”, com assassinatos valendo três e esfaqueamentos não fatais contabilizando um. Essa “tabela de classificação” é dinamicamente atualizada, muitas vezes com o auxílio das redes sociais, criando uma espiral de violência onde a brutalidade é incentivada como forma de ascensão. Detetives da Polícia Metropolitana de Londres, especializados no combate a gangues, relatam que os criminosos utilizam termos futebolísticos, como “fizemos três” ou “um a zero”, para descrever seus atos.
Diversos grupos criminosos operam nessa “liga” de violência. Alguns emergiram com a cultura do rap e se inspiram em gangues que marcaram época em Los Angeles, nos Estados Unidos, nos anos 1970. No bairro de Brixton, a gangue 67 é proeminente, enquanto na vizinha Lower Tulse Hill, um grupo de alta periculosidade domina. A região de Elephant and Castle, por sua vez, é palco de disputas intensas pelo controle do tráfico de drogas entre gangues com raízes sul-americanas e caribenhas, como a Latin Kings, de alinhamento colombiano, e Los Trinitarios, com forte influência dominicana. Todas buscam acumular pontos para fortalecer sua posição no submundo.
A crueldade dessa competição vai além dos confrontos entre os próprios membros de gangues. Pessoas sem qualquer ligação com o crime, denominadas “civis” pelos grupos, frequentemente se tornam vítimas colaterais. Memoriais improvisados surgem nas ruas, homenageando aqueles que foram mortos nesse “campeonato” perverso, evidenciando o impacto destrutivo sobre as comunidades. A busca incessante por superar os rivais resulta em perdas irreparáveis, mostrando o quão longe esses grupos estão dispostos a ir, destruindo o tecido social.
Em um trágico exemplo dessa violência indiscriminada, o entregador brasileiro Guilherme Messias da Silva, de 21 anos, natural de Goiás, foi morto em outubro de 2022 no sul de Londres. Ele estava realizando seu último pedido da noite em Brixton quando se viu no caminho de uma perseguição. Guilherme foi fatalmente atingido enquanto um grupo perseguia o rapper Lamar Scott, conhecido como Perm, que também acabou baleado e morto. A vítima planejava retornar ao Brasil em dezembro, segundo amigos, ilustrando a dimensão internacional e a aleatoriedade da violência que assola a região.
Diante da escalada da violência, a polícia atua como uma espécie de “árbitro”, buscando conter a barbárie. Em agosto do ano passado, uma operação intensiva de dez dias resultou na prisão de mais de 400 indivíduos. No entanto, mesmo com essas ações rigorosas e os “desfalques” impostos pelos encarceramentos, o “torneio” entre as quadrilhas persiste, desafiando as autoridades e a segurança pública. O problema reflete uma complexa interação de fatores sociais, econômicos e culturais que alimentam a criminalidade organizada na metrópole.