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A União Europeia (UE) implementará a partir do próximo dia 3 de setembro um bloqueio à importação de produtos de origem animal do Brasil, com a medida, anunciada em maio e divulgada em 3 de agosto de 2026, projetando um impacto substancial nas cadeias de exportação de carne bovina, frango e mel, que representam as principais movimentações do setor para o bloco europeu.
A decisão surge após a exclusão do Brasil da lista de países considerados aptos a atender às rigorosas exigências da UE relativas ao emprego de antimicrobianos na criação de animais. Embora não tenham sido identificadas contaminações diretas nos produtos cárneos brasileiros, a União Europeia expressou sérias ressalvas quanto à eficácia dos sistemas de fiscalização nacionais sobre o uso dessas substâncias.
Antimicrobianos são fármacos essenciais para a saúde animal, utilizados tanto no tratamento quanto na prevenção de infecções. Contudo, algumas dessas substâncias possuem a capacidade de atuar como promotores de crescimento, uma aplicação estritamente proibida pelas normas europeias para o setor pecuário, visando a segurança alimentar e a prevenção da resistência antimicrobiana.
O pecuarista André Bartocci, que preside a Câmara Setorial da Carne Bovina, órgão consultivo do Ministério da Agricultura, revelou que a Europa não pretende reabrir as compras de carne bovina brasileira por um período mínimo de dois anos. Ele obteve essa informação em um diálogo recente com membros da pasta, explicando que o prazo de dois anos é calculado com base no ciclo de vida do gado, tempo necessário para que um bovino seja criado sob novos e rigorosos protocolos de uso de antimicrobianos, garantindo sua conformidade com os padrões europeus até o abate.
Em resposta, o escritório de Saúde e Bem-Estar Animal da Comissão Europeia confirmou que o retorno das exportações estará diretamente atrelado aos “ciclos de produção dos animais”, sem especificar o período exato. O Ministério da Agricultura brasileiro, por sua vez, não se manifestou sobre os questionamentos da imprensa.
A duração do ciclo de criação é um fator determinante para a retomada das exportações. Enquanto o gado demanda cerca de dois anos para atingir a maturidade sob novos padrões, as aves apresentam um ciclo de vida consideravelmente mais curto, com uma média de 45 dias desde o nascimento até o abate.
Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), informou em coletiva de imprensa no dia 28 de agosto que uma missão da União Europeia visitaria o Brasil ainda no final de agosto. O objetivo dessa visita é inspecionar e validar os novos protocolos desenvolvidos pelo governo brasileiro para se adequar às recentes exigências do bloco.
Santin detalhou que as principais mudanças envolvem um aumento significativo na fiscalização de fábricas de ração, granjas e frigoríficos, medidas que já estão integradas ao Plano Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes (PNCRC). Ele enfatizou que as empresas brasileiras já mantêm a segregação de produtos e a não utilização de promotores de crescimento ou antibióticos de uso humano para o mercado europeu.
André Bartocci, pecuarista do Mato Grosso do Sul, explicou que sua fazenda há anos não utiliza antimicrobianos no rebanho, devido à exportação pela Cota Hilton, um regime que exige a total ausência dessas substâncias ao longo de toda a vida do animal para carnes nobres com tarifas reduzidas. No entanto, a maior parte da carne exportada para a Europa não se enquadra na Cota Hilton, mas sim na lista Trace, onde a certificação da ausência de antimicrobianos era exigida apenas nos últimos 100 dias. Com a nova regra, a comprovação passará a abranger todo o ciclo de vida do animal.
O representante da ABPA, Ricardo Santin, expressou otimismo quanto à possibilidade de as exportações de carne de frango serem retomadas já em setembro, logo após a visita técnica da União Europeia. Contudo, os relatórios dessa missão serão submetidos à avaliação do SCoPAFF (Comitê Permanente de Plantas, Animais, Alimentos e Rações) da Comissão Europeia, cuja próxima reunião está agendada apenas para novembro.
Caso o bloqueio persista ou seja estendido, Santin mencionou a existência de um plano para redirecionar a produção de frango inicialmente destinada à Europa. Essa produção poderá ser absorvida pelo mercado interno ou por um dos aproximadamente 150 países para os quais o Brasil já exporta. Ele recordou que o setor já enfrentou um período de quatro meses sem exportar para a UE no ano anterior, devido à gripe aviária, indicando que a interrupção das vendas para o Oriente Médio representaria uma situação de maior complexidade.
Antes do anúncio do bloqueio europeu, o Ministério da Agricultura brasileiro já havia implementado medidas, como a emissão de uma portaria que proibia o uso de certos antimicrobianos, incluindo avoparcina, virginiamicina e bacitracina. Em maio de 2026, o governo brasileiro ainda propôs um prazo de transição para a UE, mas a oferta foi recusada pelo bloco.
Setores do agronegócio brasileiro interpretam a decisão da União Europeia como um possível ato protecionista, especialmente por ter sido comunicada logo após a formalização do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul. Este tratado enfrentou forte resistência de agricultores europeus, que manifestaram receio da concorrência de produtos sul-americanos com preços mais competitivos, notadamente os do Brasil, que é o maior exportador agrícola do Mercosul para o mercado europeu.
Enquanto o Brasil enfrenta essa restrição, as demais nações do Mercosul — Argentina, Paraguai e Uruguai — mantêm a autorização para exportar seus produtos de origem animal para o continente europeu, evidenciando uma situação distinta para cada membro do bloco sul-americano.
Embora o mel não figure entre os maiores produtos exportados pelo Brasil para a União Europeia, suas vendas para o bloco estavam em uma trajetória de crescimento. A suspensão das importações representa um novo obstáculo para os apicultores brasileiros que buscavam expandir sua presença nesse mercado exigente.