
Christa Pike — Foto: Reprodução/Tennessee Dept. of Correction Crédito: Extra.globo.com
O estado do Tennessee, nos Estados Unidos, se prepara para um evento de repercussão histórica: a execução de Christa Pike, a primeira mulher a enfrentar a pena capital na região em mais de dois séculos. A decisão do governador Bill Lee de negar clemência à condenada, que se declarou “em paz” antes do processo, intensifica o debate sobre a pena de morte e seus protocolos. Pike, de 50 anos, está programada para ser executada por injeção letal na próxima quarta-feira (30/9).
A recusa de clemência por parte do governador republicano Bill Lee não surpreende, dada sua notória defesa da pena de morte. Em maio de 2024, Lee sancionou uma legislação que autoriza a pena capital para adultos condenados por estupro agravado de menores vulneráveis, uma medida que desafia precedentes estabelecidos pela Suprema Corte dos EUA que restringem a pena de morte a crimes de homicídio. Mesmo diante de falhas em procedimentos de injeção letal e apelos por suspensões temporárias, incluindo de membros de seu próprio partido, o governador tem reiterado sua posição de manter o protocolo de pena capital inalterado, sublinhando sua convicção na aplicação da medida.
Christa Pike, condenada por homicídio, expressou serenidade em uma carta enviada à imprensa antes de tomar conhecimento da decisão do governador. “Concedida ou não a clemência, estou em paz”, escreveu ela, adicionando que não teme a morte, mas sim o processo em si. Essa declaração contrasta com pedidos anteriores feitos por sua defesa e pela própria condenada, que buscou alternativas para a execução.
O percurso de Christa Pike até o corredor da morte começou quando ela tinha apenas 18 anos. Em 12 de janeiro de 1995, em um ato impulsionado por ciúmes, ela atraiu Colleen Slemmer, de 19 anos, para uma área isolada no campus da Universidade do Tennessee, em Knoxville. Com a ajuda de seu namorado, Tadaryl Shipp, e uma amiga, Shadolla Peterson, Pike torturou brutalmente Slemmer até a morte, chegando a entalhar um pentagrama no peito da vítima. O corpo de Colleen, que era uma migrante da Flórida tentando a vida no Tennessee, foi encontrado por um zelador no dia seguinte. O casal chegou a levar um pedaço do crânio como “lembrança”.
Os advogados de Christa Pike apelaram à Suprema Corte para suspender a execução, alegando que ela sofre de transtorno de estresse pós-traumático e que o processo de ser amarrada à maca para a injeção letal poderia causar “sofrimento mental severo e terror psicológico adicional”. Em um esforço para mitigar seu medo do método de execução, a condenada, que afirmou estar “aterrorizada” com a injeção letal, solicitou que fosse executada por enforcamento, método não utilizado no Tennessee desde o início do século passado e que o estado não possui estrutura para realizar. Outro pedido, de que todos os envolvidos em sua execução fossem mulheres, também não deverá ser atendido.
May Martinez, mãe de Colleen Slemmer, manifestou seu desejo de que a execução de Pike prossiga conforme planejado. Em declarações à imprensa, Martinez expressou que a condenada não deveria receber “qualquer tratamento especial” e que estaria “apenas tentando tirar vantagem do sistema”. A mãe da vítima relembrou a dor de sua filha e a constante presença de Colleen em seus pensamentos, especialmente em datas comemorativas, como o recente aniversário de 51 anos que a jovem teria completado. A busca por justiça da família Martinez é um elemento central na discussão do caso.
O namorado de Christa Pike à época, Tadaryl Shipp, que também participou do assassinato e supostamente concordou para provar sua fidelidade, foi condenado à prisão perpétua com possibilidade de liberdade condicional. Contudo, em 2004, Shipp recebeu uma pena adicional de 25 anos por tentar estrangular outro detento na prisão, onde mais tarde se converteu ao islamismo. A terceira envolvida, Shadolla Peterson, obteve liberdade condicional após colaborar com a promotoria como informante no caso contra Christa e Tadaryl.
O caso de Christa Pike reacende o debate sobre a pena de morte em um país onde sua aplicação varia significativamente entre os estados. Atualmente, 21 dos 50 estados norte-americanos mantêm a pena capital como forma de punição. Além disso, em quatro outros estados — Arizona, Kentucky, Tennessee e Utah — um método alternativo à injeção letal é oferecido, mas geralmente restrito a condenados por crimes cometidos antes de uma data específica, marcando a transição para a injeção letal como método primário.