Resultados eleitorais unânimes: a matemática questionável de regimes fechados

Saddam Hussein foi reeleito no Iraque com 100% dos votos — Foto: AFP

Saddam Hussein foi reeleito no Iraque com 100% dos votos — Foto: AFP Crédito: Extra.globo.com

Enquanto algumas nações vivenciam disputas eleitorais acirradas, onde cada voto é fundamental para definir o futuro político, outros regimes registraram, em momentos distintos, resultados que desafiam a lógica democrática e a probabilidade estatística: vitórias com 100% dos votos. Tais números, que contrastam bruscamente com a realidade de pleitos multipartidários, acendem um alerta sobre a natureza do processo eleitoral e a liberdade de escolha dos cidadãos.

O enigma dos pleitos sem oposição

Em sistemas políticos abertos, com diversidade de pensamento e liberdade de expressão, é virtualmente impossível que um único candidato obtenha a totalidade dos votos válidos. A existência de diferentes visões, mesmo que minoritárias, e a possibilidade de abstenção ou votos nulos são inerentes a qualquer processo eleitoral genuinamente democrático. Por isso, quando um líder alcança a marca de 100%, a validade do pleito é imediatamente questionada, sugerindo um controle rígido sobre o processo e a população.

Saddam Hussein foi reeleito no Iraque com 100% dos votos — Foto: AFP Crédito: Extra.globo.com

O caso de Saddam Hussein no Iraque

Um exemplo notório desse fenômeno ocorreu em 2002, quando Saddam Hussein foi reeleito para a presidência do Iraque com um mandato de sete anos. Os dados oficiais da época apontaram uma aprovação unânime, com 100% dos votos. De acordo com informações divulgadas, os 11.445.638 eleitores aptos a participar do processo compareceram às urnas, resultando em uma taxa de participação também de 100%.

O então vice-presidente do Conselho de Comando Revolucionário, Izzat Ibrahim, defendeu a veracidade dos números, alegando que “Quem não conhece o povo iraquiano não vai acreditar nessa porcentagem, mas ela é real”. Curiosamente, essa marca superou o resultado anterior de Saddam, que em 1995 havia obtido 99,96% dos votos. A posterior queda do regime, liderada por forças estrangeiras, foi amplamente celebrada em diversas regiões do Iraque, um fato que contrasta com a suposta unanimidade eleitoral.

A hegemonia eleitoral na Coreia do Norte

Outro cenário de votação com resultados absolutos foi registrado em 2014, na Coreia do Norte. Naquele ano, Kim Jong-un foi eleito para o cargo com 100% dos votos, um feito que superou o desempenho de seu falecido pai, Kim Jong-il, que havia alcançado 99,9% em 2009. Tais eleições, em regimes reconhecidamente fechados, levantam questões sobre a existência de alternativas políticas e a segurança daqueles que, hipoteticamente, poderiam expressar uma escolha diferente.

O que as votações com 100% revelam sobre a democracia

A ocorrência de resultados eleitorais unânimes, como os observados no Iraque de Saddam Hussein e na Coreia do Norte dos Kim, é um indicativo claro da ausência de um ambiente democrático pluralista. Em vez de refletir uma genuína vontade popular, esses números são frequentemente vistos como instrumentos de propaganda e demonstração de poder absoluto. Eles apontam para a supressão da oposição, a falta de liberdade de imprensa e a coerção dos eleitores, onde a participação se torna obrigatória e a escolha, meramente simbólica. A anomalia de um pleito sem qualquer dissidência ou abstenção sublinha a fragilidade das instituições democráticas em tais contextos e a importância da diversidade de opiniões para a saúde de qualquer sistema político.