
Covas são feitas dentro de padrões e regras pré-estabelecidas pela organização do evento — Foto: Róbert Görföl - Thermal Media Crédito: Extra.globo.com
Pá e picareta em punho, equipes de coveiros da Hungria se reuniram no início de setembro para a décima edição de um campeonato nacional inusitado. Dezenove duplas competiram pela precisão e velocidade na abertura de covas, transformando um ofício muitas vezes invisível em um espetáculo de habilidade e profissionalismo.
Organizado pela Associação Húngara de Administradores e Mantenedores de Cemitérios (MTFE), o torneio é uma tradição desde 2016 e atrai não apenas profissionais, mas também curiosos e admiradores. A disputa, que oferece uma premiação de cerca de 200 mil florins húngaros (aproximadamente R$ 3.250), vai muito além da simples velocidade, focando na excelência técnica e no respeito inerente à função.
A tarefa dos participantes vai além de escavar um buraco no menor tempo possível. Os competidores são avaliados por critérios rigorosos que incluem as medidas exatas da cova: 2 metros de comprimento, 80 centímetros de largura e 1,6 metro de profundidade. Apenas pás e picaretas são permitidas como ferramentas.
Na edição deste ano, a dupla vencedora concluiu o desafio em 1 hora e 21 minutos. A precisão na execução é crucial; paredes desmoronadas ou dimensões fora do padrão resultam em desqualificação. Katalin Palkovics, presidente da MTFE, enfatizou que a rapidez é apenas um dos aspectos. “A precisão e a execução correta são indispensáveis. Uma cova não pode ser feita apenas de forma rápida; ela precisa ter as medidas corretas, bem preparada e finalizada com zelo e dignidade. A competição reflete um princípio fundamental do nosso ofício: profissionalismo significa realizar o trabalho com eficiência, precisão e respeito”, explicou.
Apesar de a ideia de um campeonato de coveiros soar peculiar para muitos, a MTFE promove o evento com um propósito nobre: elevar a percepção pública sobre a profissão. Katalin Palkovics observa que, embora a proposta inicial possa parecer bizarra, os espectadores geralmente terminam o evento com uma nova compreensão e respeito pelo trabalho desses profissionais.
A visibilidade conquistada pelo torneio é, para muitos participantes, ainda mais valiosa do que o prêmio em dinheiro. Ele oferece um palco para que famílias, jornalistas e entusiastas celebrem uma profissão que, no cotidiano, frequentemente passa despercebida. “Para quem atua nessa área, ser valorizado publicamente como um profissional altamente qualificado tem um valor imenso. Precisamos mudar como a sociedade enxerga todo o nosso segmento”, declarou a presidente.
A Associação Húngara de Mantenedores e Operadores de Cemitérios, fundada em 1998 e reformulada em 2015, tem como missão transformar cemitérios em “jardins de memória e acolhimento”. A entidade luta para que o público reconheça a técnica, o zelo e o preparo exigidos para cuidar da despedida final, destacando que, sem o trabalho desses profissionais, um sepultamento digno seria impossível.
A presidente da associação ressalta que a maior dificuldade do setor funerário húngaro reside na falta de reconhecimento social e na escassez de novos profissionais dispostos a ingressar na área. “Estamos presentes quando as pessoas se encontram em seu estado de maior vulnerabilidade, mas a sociedade raramente reflete sobre a competência técnica e a força emocional necessárias para realizar esse trabalho com excelência”, completou Katalin, reiterando a importância de valorizar esses trabalhadores essenciais.