
Juan Pablo Ruppel segura Luger que pertenceu a Hitler e que foi levada à Argentina por seu tio-avô alemão Hans Ruppel (à direita) — Foto: Reprodução Crédito: Extra.globo.com
Uma Luger de calibre .45, descrita como a “pistola mais valiosa do mundo” e que teria pertencido a Adolf Hitler, está no centro de uma complexa disputa judicial na Argentina. A arma, cujo valor é estimado em US$ 42 milhões (equivalente a R$ 213 milhões), é o pivô de um embate legal entre um técnico de eletrodomésticos e agentes da polícia local.
A pistola em questão é um modelo Luger Parabellum calibre .45, identificada pelo número de série 5. Ela representa um dos apenas cinco protótipos fabricados em 1907 pelo renomado designer Georg Luger. Sua raridade e importância histórica são tamanhas que a peça foi citada no clássico filme “Wall Street: Poder e Cobiça”, de 1987, como “a pistola mais rara do mundo”. Além de sua exclusividade, o artefato possui uma inscrição com o nome “Adolf Hitler”, conforme alerta da Interpol, elevando seu status a um item de valor incalculável para colecionadores e historiadores.
Juan Pablo Ruppel, o técnico de eletrodomésticos, afirma ter herdado a arma de seu tio-avô, Hans Ruppel, que serviu como guarda-costas pessoal de Hitler na Divisão Leibstandarte da SS durante a Segunda Guerra Mundial. Segundo Juan Pablo, a Luger foi um presente de aniversário do líder nazista ao seu antepassado. Especialistas reforçam que é justamente a proveniência ligada a Hitler que confere à arma seu caráter de “fantasma do Terceiro Reich” e um valor que transcende o monetário.
A história da pistola na Argentina começa em 1948, quando, de acordo com Juan Pablo Ruppel, a arma foi levada para o país com o suposto auxílio do então presidente Juan Domingo Perón. Essa narrativa se alinha ao contexto histórico do pós-Segunda Guerra Mundial, período em que a Argentina se tornou um refúgio conhecido para diversas figuras ligadas ao regime nazista, incluindo criminosos de guerra. Embora Hans Ruppel tenha fugido para a Argentina em 1945, ele nunca foi acusado de envolvimento nos crimes de guerra e atrocidades nazistas, uma distinção importante para a compreensão da proveniência da arma.
A presença de Josef Mengele, o “Anjo da Morte” nazista, em Buenos Aires por mais de dois anos antes de sua fuga, sublinha a relevância da capital argentina como um destino para ex-nazistas. A licença de posse da Luger, datada de 1979 e registrada no cadastro nacional, indicava um endereço na cidade, reforçando a ligação da arma com esse período histórico específico.
A pistola desapareceu em 2016, durante uma operação policial na residência de Juan Pablo Ruppel, localizada na zona rural da província de Buenos Aires. Agentes mascarados teriam invadido sua casa, e a arma, descrita por Ruppel como o “Santo Graal das armas de fogo”, nunca mais foi devolvida após ficar sob custódia policial. Desde então, Ruppel tem buscado a restituição ou uma indenização. Ele já expressou que, se pudesse escolher, preferiria ter a arma de volta do que receber US$ 50 milhões.
Diante da ausência prolongada da peça, Juan Pablo Ruppel decidiu acionar o Ministério de Segurança de Buenos Aires, buscando uma compensação financeira pela perda. O caso ganhou contornos ainda mais dramáticos com a marcação do julgamento para março do próximo ano, onde dois policiais que lideraram a operação de busca e apreensão enfrentarão acusações criminais por furto qualificado e violação de deveres funcionais. A jornalista investigativa britânica Laurence de Mello, que acompanha a investigação independente da família, expressou ceticismo sobre o incidente, sugerindo que o desaparecimento da arma sob custódia estatal “cheira muito pior do que apenas um policial corrupto”, indicando a possibilidade de uma trama mais elaborada para a apropriação do valioso item.