
Imagem mostra trajetória de projétil que matou Carlos XII — Foto: Divulgação Crédito: Extra.globo.com
Uma equipe de pesquisadores, que inclui três brasileiros, utilizou modelagem digital avançada para recriar o crânio e o rosto do rei Carlos XII da Suécia, monarca que faleceu no século XVII. O trabalho minucioso permitiu confirmar a trajetória exata do projétil que o atingiu fatalmente durante a Grande Guerra do Norte, um conflito que envolveu o Império Sueco contra uma coalizão de potências europeias.
A pesquisa se baseou em um vasto material iconográfico, incluindo fotografias e radiografias obtidas durante uma exumação realizada em 1917. Com esses dados, os cientistas conseguiram desenvolver uma representação tridimensional detalhada, desde a estrutura óssea do crânio até a complexa rede de vasos sanguíneos e o cérebro do rei. Os resultados do estudo, publicados na revista especializada “OrtogOnLineMag”, indicam que o disparo penetrou pela têmpora esquerda e saiu pelo lado direito da cabeça, comprometendo áreas cerebrais vitais.
Carlos XII pereceu enquanto inspecionava trincheiras em 1718, durante a Grande Guerra do Norte, que teve início em 1700. Este conflito opôs a Suécia a uma aliança formada pelo Czarado Russo, o Reino da Dinamarca e Noruega, e a Saxônia-Polônia, uma entidade bi-confederal que unia Polônia e Lituânia. A reconstituição digital oferece uma clareza sem precedentes sobre as circunstâncias de seu ferimento fatal.
Apesar da precisão da reconstrução visual, o trabalho não encerra uma das maiores controvérsias da historiografia europeia: a dúvida se Carlos XII foi vítima de tropas inimigas ou de “fogo amigo”. O designer Cícero Moraes, um dos pesquisadores brasileiros envolvidos, explicou que, embora a modelagem enriqueça o conhecimento histórico, ela não fornece evidências conclusivas sobre a origem do disparo.
Uma questão adicional que intrigava historiadores era a possibilidade de o rei estar usando um chapéu com um orifício de projétil atribuído a ele no momento da morte. O estudo abordou essa dúvida, realizando um teste digital inédito. Os pesquisadores “colocaram” o chapéu na cabeça do modelo virtual do rei e constataram que, de fato, ele poderia estar com o acessório durante o incidente. Contudo, essa constatação não é uma confirmação definitiva, e o próprio registro da exumação de 1917 mal menciona o item.
O trabalho com Carlos XII integra um projeto mais amplo que aplica a mesma metodologia a diversos outros casos notáveis, tanto históricos quanto médicos. Entre os exemplos citados por Cícero Moraes estão a perfuração craniana de Phineas Gage por uma haste de metal, as lesões faciais de um guerreiro sueco medieval atingido por um machado, as múltiplas fraturas cranianas de um rei egípcio e o caso de um engenheiro soviético cuja cabeça foi atingida por um raio de prótons.
Esta abordagem, que utiliza ferramentas de computação gráfica para criar elementos visuais didáticos, transcende o campo da história. O software empregado pelos pesquisadores é de código aberto, o que facilita sua replicação e acesso por qualquer interessado. Além de ser uma ferramenta valiosa para a recriação de figuras históricas, como o faraó Seqenenre Tao, a tecnologia tem uma aplicação crucial na área da saúde.
O programa é parte de uma ferramenta desenvolvida para planejamento cirúrgico, atualmente em uso em 37 países. Essa versatilidade demonstra como pesquisas aparentemente distantes, como a reconstrução facial de um rei do século XVII, podem impulsionar avanços tecnológicos com aplicações práticas e vitais, contribuindo para o ensino de anatomia e, mais importante, para o salvamento de vidas em situações médicas críticas.