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Novo estudo alerta para o impacto do uso de telas nas refeições sobre crianças e saúde mental

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A presença de dispositivos eletrônicos durante as refeições em família tornou-se um hábito predominante em muitos lares, levantando preocupações significativas sobre seus efeitos no desenvolvimento infantil e na saúde mental. Uma recente investigação acadêmica aponta para a interrupção do diálogo e a diminuição da atenção parental como consequências diretas dessa prática.

Dados de um levantamento publicado no periódico JAMA Pediatrics revelaram que a vasta maioria dos pais norte-americanos, 77,6%, admitiu o uso de alguma mídia digital durante a última refeição coletiva. O estudo também indicou que 68,7% das crianças estavam engajadas com seus próprios aparelhos no mesmo período.

Crédito: Mixvale.com.br

Longe de ser apenas um traço da vida contemporânea, essa rotina interfere diretamente na comunicação familiar. Como resultado, os pequenos recebem menos apoio e orientação dos adultos, elementos fundamentais para um crescimento completo e equilibrado, com reflexos diretos em seu amadurecimento emocional e capacidades cognitivas.

Diálogo e conexão familiar: a essência das refeições

Para Guilherme Polanczyk, psiquiatra infantil e professor da Faculdade de Medicina da USP, a construção de um vínculo forte entre pais e filhos é o alicerce para um desenvolvimento juvenil saudável. Essa conexão é fortalecida por um ambiente que favorece a escuta genuína, e Polanczyk destaca que, na correria diária, o horário das refeições frequentemente se apresenta como a única oportunidade para todos se reunirem e interagirem com calma.

Contudo, a presença de eletrônicos cria uma barreira considerável para a troca e a expressão de afeto. Polanczyk lamenta que “muitos pais utilizam o instante da refeição para verificar e-mails ou enviar mensagens a pessoas distantes”. Essa desconexão impede que a criança seja auxiliada a compreender suas emoções, a solucionar problemas e a aprender a navegar pelas interações sociais.

O psiquiatra ainda enfatiza os impactos na saúde mental dos jovens, citando pesquisas que demonstram como a manutenção de, no mínimo, uma refeição diária em família contribui para a diminuição de manifestações depressivas nos filhos, um benefício muitas vezes subestimado, mas crucial para o bem-estar psicológico.

Como o comportamento dos adultos à mesa modela hábitos futuros

Na visão do pediatra Daniel Becker, a conduta dos adultos ao utilizar o celular à mesa transmite mensagens profundamente prejudiciais. O primeiro ponto, segundo o especialista, é o estímulo a uma “alimentação desatenta”, onde não se valoriza o momento presente nem o sabor da comida, configurando um exemplo negativo para as crianças.

Mais grave ainda, a postura dos pais pode sugerir à criança que o dispositivo eletrônico tem maior importância do que a própria presença dela. Essa percepção pode minar a autoestima e a sensação de valor do pequeno.

Becker salienta que, ao priorizar a imersão na tela em detrimento da interação humana, o adulto faz com que a criança se sinta menos importante. Isso afeta diretamente sua autoconfiança e serve como um incentivo para que ela mesma desenvolva uma dependência de celulares no futuro, perpetuando um ciclo desfavorável.

Distinguindo o impacto de diferentes formas de interação com telas

Os pesquisadores envolvidos no estudo sugerem que as recomendações pediátricas deveriam evoluir para diferenciar os diversos modos de interação com as telas. Eles propõem uma distinção entre o consumo individualizado e o uso coletivo, assim como entre a visualização passiva e o engajamento ativo.

Becker concorda com essa diferenciação e estabelece uma clara distinção entre os efeitos do celular e da televisão. Enquanto as redes sociais em celulares, com seus vídeos curtos e algoritmos “viciantes, prejudiciais, que interrompem e fragilizam a atenção” e promovem o isolamento, uma tela maior sem algoritmos, como a TV, pode gerar dinâmicas menos nocivas quando compartilhada.

“Assistir em conjunto a um noticiário ou a um filme permite que a família discuta os temas e narrativas, auxiliando no desenvolvimento do pensamento crítico da criança a partir de uma vivência compartilhada”, analisa Becker, evidenciando o potencial educativo e social dessas interações.

O valor inestimável de resgatar o tradicional momento da refeição

Historicamente, o ato de comer à mesa representa um pilar fundamental da convivência humana, servindo como um espaço vital para o encontro, a interação e a troca de ideias. Sem essa comunicação, a presença física à mesa perde seu valor educacional e emocional mais profundo, transformando-se em um simples ato mecânico.

“Quando se tem uma refeição em família com o celular, cada um imerso em sua tela, na verdade, não se tem uma refeição em família”, adverte Becker. O restabelecimento desse ritual diário, livre do isolamento digital, é apontado pelos especialistas como um investimento de importância capital para o bem-estar e a coesão familiar.

Os pesquisadores do estudo alertam que as estratégias para diminuir o uso de telas durante as refeições devem ser direcionadas individualmente a pais e filhos, abandonando a premissa de que a simples alteração no comportamento do adulto garantirá, por si só, a mudança do hábito da criança.