
Pearl Marshall foi abandonada em shopping de Ohio em 1972 — Foto: Reprodução Crédito: Extra.globo.com
Após mais de cinco décadas de incertezas, Pearl Marshall, uma professora de música de 53 anos, finalmente encontrou as respostas para as perguntas sobre suas origens. A jornada de vida de Pearl começou de forma dramática, quando foi deixada em um carrinho de compras em um estacionamento de shopping nos Estados Unidos logo após seu nascimento, em 1972, um evento que marcou o início de uma longa busca por sua identidade.
Em uma noite de agosto de 1972, no subúrbio de Fairview Park, Ohio, duas amigas — Darlene Gilleland e Rita Marshall — depararam-se com uma cena inusitada. Ao saírem de um cinema, notaram um carrinho de compras encostado em um veículo, contendo um saco de papel pardo. Dentro, encontraram um recém-nascido, uma menina que parecia ter poucas horas de vida, limpa, vestida e enrolada em um cobertor. A criança, descrita como “adorável e tranquila” por Rita, foi rapidamente apelidada de “Bebê Westgate”, em referência ao centro comercial onde foi encontrada.
As amigas prontamente acionaram a polícia, e a bebê foi levada a um hospital. Em poucos meses, ela foi adotada, mas as questões fundamentais sobre sua família biológica e os motivos do abandono permaneceram sem solução, tornando-se o grande enigma da vida de Pearl.
Crescendo em diversas cidades como Cleveland, Pittsburgh e Washington, D.C., Pearl Marshall conviveu com a realidade de ser adotada, mas sem qualquer informação sobre seus pais biológicos. Diferente de muitos amigos adotados que possuíam registros ou fichas com dados de suas famílias de origem, Pearl não tinha acesso a esses detalhes. As leis de Ohio, na época de sua adoção em dezembro de 1972, mantinham esses registros sob sigilo, inclusive para ela mesma, criando um “limbo” legal e emocional.
Durante grande parte de sua vida, a falta de dados a desmotivou a procurar suas raízes, pois acreditava que não haveria um ponto de partida para a investigação. No entanto, uma pista crucial surgiu quando sua mãe adotiva mencionou a possibilidade de Pearl ser a “Bebê Westgate” das manchetes de 1972, reacendendo a esperança de desvendar o passado.
Uma mudança legislativa em Ohio, em 2015, que liberou o acesso a registros de muitos adotados, impulsionou Pearl a iniciar sua busca. Em 2023, ela finalmente obteve sua certidão de nascimento. Embora o documento não revelasse os nomes dos pais biológicos, confirmava sua data e um local de nascimento incomum: o Westgate shopping center. Essa informação crucial validou a suspeita de sua mãe adotiva e deu à Pearl e seu marido, Jack Marshall, o “gênio da internet”, uma direção clara para a pesquisa.
Com a ajuda de historiadores amadores, como Chris Gerrett de Fairview Park, Pearl começou a cruzar dados de jornais da época com sua certidão de nascimento. Chris, de 72 anos, dedicou-se ao caso, identificando as duas mulheres que encontraram Pearl e conseguindo rastreá-las, proporcionando os primeiros contatos diretos com o início de sua história.
Avanços na tecnologia de testes genéticos desempenharam um papel fundamental na busca de Pearl. Em 2023, por meio dessas análises, ela conseguiu localizar seu pai biológico. Ele, por sua vez, afirmou desconhecer a identidade da mãe biológica. No verão passado, Pearl viveu um reencontro carregado de emoção em Ohio com Darlene e Rita, as amigas que a encontraram. Elas, que por décadas revisitavam antigas reportagens e se perguntavam sobre o destino da “Bebê Westgate”, descreveram o encontro como o retorno de sua “bebê para casa”, trazendo um desfecho para a história.
A repercussão desse reencontro na mídia levou a uma nova e decisiva pista: um leitor sugeriu que Pearl contatasse “The Fronczak Files”, um podcast investigativo especializado em genealogia genética e pesquisa histórica. A equipe do podcast rapidamente entrou em ação, e não demorou para que a história ganhasse um novo capítulo.
Em junho, Pearl finalmente conheceu sua mãe biológica em um almoço. Segundo Pearl, o encontro foi marcado por um silêncio inicial, que foi quebrado com a ajuda de seu marido. A mãe biológica, com 22 anos e solteira na época do nascimento de Pearl, revelou detalhes emocionantes: ela cantava canções de ninar para a filha todas as noites durante a gravidez e, após deixar a bebê no carrinho, permaneceu circulando de carro pelo local até que Pearl fosse encontrada. Anos depois, ela chegou a trabalhar no mesmo centro comercial, estacionando diariamente na vaga onde havia deixado a filha.
Pearl expressou compreensão e gratidão pela decisão de sua mãe biológica: “O que ela fez por mim foi algo bom. Ela sabia que não poderia ficar comigo, por mais que quisesse”, desabafou. Desde então, Pearl também conheceu um meio-irmão por parte de mãe e uma meia-irmã por parte de pai, que, por coincidência, também é professora de música.
A descoberta de suas origens, após mais de meio século, continua sendo um processo de assimilação para Pearl. Ela descreve a experiência como repleta de emoções que surgem em diferentes momentos, mas a felicidade e o encantamento por ter conhecido seus pais biológicos, ambos ainda vivos, são predominantes. A persistência em sua busca, aliada à evolução das leis de adoção e das ferramentas de genealogia genética, transformou um mistério de vida em uma história de reencontro e compreensão. Esse caso ressalta a importância do acesso a informações para adotados e o poder da tecnologia em desvendar laços familiares perdidos há muito tempo.