
Patricia Hearst sendo fichada pela polícia da Califórnia — Foto: Reprodução Crédito: Extra.globo.com
Bill Harris, um dos principais articuladores do controverso Exército de Libertação Simbionês (SLA) e figura central no sequestro da herdeira Patricia Hearst, faleceu aos 81 anos. A morte, causada por um ataque cardíaco em um hospital de São Francisco, ocorreu em 10 de setembro, conforme confirmado por sua esposa, Rebecca Young. O caso, que marcou a década de 1970, permanece como um dos mais extraordinários e debatidos na história criminal norte-americana, envolvendo terrorismo, mídia e uma reviravolta sem precedentes.
Em 4 de fevereiro de 1974, Harris, um ex-fuzileiro naval com experiência na Guerra do Vietnã, e outros integrantes do SLA invadiram o apartamento de Patricia Hearst, então com 19 anos, em Berkeley, Califórnia. Após uma violenta resistência, a jovem foi levada à força e colocada no porta-malas de um Chevrolet Impala, em um ato que o FBI classificou como um sequestro ousado e de grande repercussão.
Inicialmente, o grupo designou Patricia como “prisioneira de guerra”, sem pedido de resgate. Contudo, a exigência logo evoluiu para que a influente família Hearst financiasse uma ampla distribuição de alimentos para comunidades carentes em toda a Califórnia. Harris justificou a escolha da vítima afirmando que a família Hearst controlava um vasto império de mídia, considerado por eles como um braço propagandístico do governo americano, tornando Patricia um “alvo simbólico”.
A saga tomou um rumo ainda mais bizarro semanas depois. Após ser mantida confinada em um armário, lendo materiais de doutrinação do SLA, Patricia ressurgiu publicamente. Ela posou empunhando uma arma, com o símbolo do grupo ao fundo, e divulgou uma gravação de áudio na qual adotava o nome “Tania”, denunciando sua própria família e os “privilégios” que a cercavam. Menos de quinze dias depois, a herdeira chocou o país ao participar de um assalto a uma agência do Hibernia Bank em São Francisco, transformando-se de vítima em suposta criminosa.
Anos mais tarde, Patricia Hearst alegou ter sido forçada a se juntar ao grupo, temendo por sua vida caso recusasse as ordens dos sequestradores. Essa versão, no entanto, foi veementemente contestada por Bill Harris durante décadas. A divergência entre as narrativas alimentou um intenso debate sobre a possibilidade de Patricia ter desenvolvido uma forma de “Síndrome de Estocolmo à americana”, um fenômeno psicológico no qual reféns desenvolvem laços afetivos com seus captores.
A complexidade do caso e a transformação pública de Patricia de vítima a assaltante de banco capturaram a imaginação popular e inspiraram obras culturais. A vida de Patricia Hearst e seu julgamento tornaram-se o enredo do filme biográfico “Patty Hearst” (1988), dirigido por Paul Schrader e estrelado por Natasha Richardson, evidenciando o impacto duradouro da história.
O declínio do SLA começou em maio de 1974, quando Bill Harris e sua então esposa, Emily Schwartz, quase foram presos após tentarem roubar munição de uma loja de artigos esportivos. A van utilizada na tentativa de fuga levou o FBI a um esconderijo em South Central Los Angeles. No dia seguinte, uma operação policial cercou o local, resultando em um tiroteio massivo que culminou na morte de seis membros do SLA, incluindo o líder máximo, Donald DeFreeze, e na destruição do imóvel por um incêndio.
Mesmo enfraquecido, o SLA realizou outro ataque em abril de 1975, assaltando uma agência do Crocker National Bank em Carmichael, Califórnia. Durante o assalto, a espingarda de Emily Schwartz disparou acidentalmente, matando Myrna Opsahl, uma mãe de quatro filhos de 42 anos que estava depositando ofertas da igreja. Patricia Hearst não estava dentro do banco no momento do disparo, testemunhando posteriormente que aguardava no carro de fuga.
Após mais de um ano foragidos, Patricia Hearst, Bill Harris e Emily Schwartz foram finalmente capturados por agentes do FBI em São Francisco, em setembro de 1975, encerrando uma das maiores caçadas humanas da época.
Patricia Hearst foi condenada por assalto a banco à mão armada em 1976. Sua pena foi comutada pelo presidente Jimmy Carter em 1979, e ela recebeu um perdão presidencial completo de Bill Clinton anos mais tarde. Bill e Emily Harris cumpriram aproximadamente oito anos de prisão pelo sequestro, sendo libertados no início da década de 1980.
Após a liberdade, o casal Harris se divorciou. Bill Harris reconstruiu sua vida profissional como investigador particular e, em 1988, casou-se com Rebecca Young, uma advogada de defesa da região da Baía de São Francisco, buscando um novo caminho longe do radicalismo.
Mais de 25 anos após o crime, Bill Harris e sua ex-esposa, Emily Schwartz, foram formalmente acusados pelo assassinato de Myrna Opsahl. Em 2002, Harris, Schwartz e outros ex-membros do SLA chegaram a um acordo com a Promotoria, declarando-se culpados por homicídio em segundo grau. Em sua sentença, proferida em 2003, Bill Harris pediu desculpas à família de Opsahl por seu envolvimento na trágica morte. Ele foi condenado a sete anos de prisão e cumpriu cerca de quatro anos da pena.
O caso Patricia Hearst e a figura de Bill Harris permanecem como um lembrete vívido de uma era de grande turbulência social e política nos Estados Unidos, onde a linha entre vitimização e cumplicidade se tornou objeto de intenso escrutínio público e legal.