
Dentes de criança achados em vala comum em fazenda no México, de acordo com grupo de buscas por desaparecidos — Foto: Reprodução/Facebook Crédito: Extra.globo.com
Uma descoberta perturbadora veio à tona em uma fazenda na região de Zacapu, Michoacán, no México, onde cerca de 1.600 dentes de leite foram desenterrados em uma vala comum. O achado macabro, que inclui também fragmentos de ossos carbonizados, foi revelado por um grupo de busca que atua na identificação de pessoas desaparecidas no país, jogando luz sobre a grave crise de desaparecimentos que assola a nação.
Os minúsculos dentes, junto a pedaços de ossos queimados, foram encontrados em uma propriedade rural localizada em um estado notório pela intensa atividade de cartéis de narcotráfico. Ativistas engajados na busca por vítimas especulam que os restos mortais podem pertencer a mais de 80 crianças, com idades estimadas entre um e seis anos. Há suspeitas de que as vítimas possam ter sido alvo de exploração sexual, tráfico de órgãos ou envolvimento em pornografia infantil.
A equipe de busca, que rastreia o local desde 2021, deparou-se com o cenário desolador. A região montanhosa, palco de constantes conflitos, chamou a atenção dos voluntários devido a uma coluna de fumaça que se erguia misteriosamente.
Margarita López Pérez, fundadora do grupo de busca voluntária Buscando Cuerpos en Todo México, relatou ter avistado a fumaça enquanto realizava suas buscas habituais por indivíduos desaparecidos. Seguindo o rastro, seu grupo chegou a uma fazenda particular que, segundo López, era de propriedade de um traficante de drogas oriundo de Sinaloa.
Sob árvores de abacate, os voluntários se depararam com um crematório improvisado. De acordo com Margarita, o local ainda exibia temperaturas elevadas, sugerindo que a incineração dos restos mortais havia ocorrido recentemente. A descoberta desses dentes de leite, em particular, reforça a tese de que crianças foram as vítimas incineradas no local.
A crise de pessoas desaparecidas no México atinge proporções alarmantes, com mais de 130 mil registros em todo o território nacional. Deste total chocante, 18.104 são crianças, um dado que sublinha a vulnerabilidade dos mais jovens em um contexto de violência generalizada. O drama se agrava pela dificuldade em identificar e localizar as vítimas, muitas vezes sepultadas em valas clandestinas.
Entre 2006 e 2024, as autoridades mexicanas documentaram a existência de 5.152 valas clandestinas e a exumação de 5.718 corpos. A maior concentração desses achados se deu nos estados de Jalisco, Guerrero, Sonora, Guanajuato e, notavelmente, Michoacán, onde a recente descoberta dos dentes de leite aprofunda a preocupação com a segurança e o destino das crianças.
Em contraste com a gravidade da descoberta, autoridades estaduais de Michoacán informaram na última quinta-feira (24/9) que não possuíam qualquer registro de reclamação ou solicitação de intervenção forense relacionada ao suposto achado. Essa divergência entre os relatos dos grupos de busca voluntários e os registros oficiais ressalta os desafios enfrentados pelas famílias e organizações na busca por justiça e respostas para seus entes queridos desaparecidos.
A ausência de um registro oficial para um achado de tamanha magnitude levanta questões sobre a coordenação entre as autoridades e os esforços da sociedade civil, que frequentemente lideram as investigações em áreas de alto risco, como as controladas por grupos criminosos.