Jean Claude Bernardet, ícone da crítica cinematográfica, morre aos 88 anos em São Paulo

Jean-Claude Bernardet, renomado crítico, roteirista, diretor, ator, escritor e professor, faleceu aos 88 anos em São Paulo, na madrugada de 12 de julho de 2025, deixando um legado indelével no cinema brasileiro. Nascido na Bélgica em 1936, naturalizado brasileiro, ele foi uma figura central na crítica cinematográfica e na produção cultural do país, influenciando gerações com sua visão crítica e multifacetada. A causa da morte não foi oficialmente divulgada, mas Bernardet enfrentava problemas de saúde, incluindo HIV, câncer de próstata e degeneração macular. Sua partida foi confirmada por fontes próximas e amplamente lamentada no meio artístico. O velório ocorreu no mesmo dia, em cerimônia restrita, na capital paulista.

O impacto de Bernardet transcende o cinema, alcançando a literatura, o teatro e a academia. Sua trajetória, marcada por uma inquietação intelectual, foi celebrada em retrospectivas recentes, como a mostra “Bernardet e o Cinema”, realizada em 2024 no Centro Cultural Banco do Brasil. Ele continuou ativo até seus últimos anos, escrevendo livros, atuando em filmes e dirigindo projetos, mesmo com a saúde fragilizada.

Luto – Foto: Jacob Wackerhausen/Istock.com
  • Principais contribuições de Bernardet:
    • Revolucionou a crítica com obras como Brasil em tempo de cinema.
    • Atuou em filmes como Fome (2015) e Nosferatu (2024).
    • Escreveu roteiros emblemáticos, como O caso dos irmãos Naves (1967).
    • Publicou livros de autoficção, como Wet mácula: Memória/Rapsódia.

A morte de Bernardet gerou comoção entre cineastas, acadêmicos e admiradores, que destacam sua coragem e originalidade. Sua obra permanece como referência para estudiosos e amantes do cinema.

Legado na crítica cinematográfica
Jean-Claude Bernardet transformou a crítica de cinema no Brasil ao propor análises que conectavam filmes à realidade social e política. Seu livro Brasil em tempo de cinema (1967) é considerado um marco, ao questionar a ausência de público e a instabilidade econômica do cinema nacional. Ele desafiava cineastas a repensarem suas práticas, influenciando obras como Cabra marcado para morrer (1984), de Eduardo Coutinho, que respondeu diretamente às questões levantadas por Bernardet.

Na década de 1960, ele abandonou o interesse por filmes estrangeiros para se dedicar ao cinema brasileiro, tornando-se interlocutor de diretores do Cinema Novo, como Glauber Rocha e Rogério Sganzerla. Sua abordagem, livre de formalismos, priorizava o diálogo com realizadores, o que o diferenciava de críticos tradicionais. Bernardet também foi professor na Universidade de São Paulo (USP) e na Universidade de Brasília (UnB), formando gerações de cineastas e pesquisadores.

Seu estilo crítico, descrito como provocador e independente, gerava tanto admiração quanto polêmica. Ele não hesitava em apontar limitações de filmes, o que nem sempre era bem recebido. No entanto, sua influência era inegável, sendo frequentemente citado como uma referência essencial para entender a evolução do cinema no Brasil.

Atuação no cinema e no teatro
Aos 70 anos, Bernardet surpreendeu ao iniciar uma carreira como ator, desafiando as limitações impostas pela idade e pela saúde. Sua estreia foi em Fome (2015), dirigido por Cristiano Burlan, onde interpretou um andarilho em São Paulo. A atuação, marcada por naturalidade, atraiu diretores que buscavam encenações autênticas, como no cinema de Robert Bresson. Ele também participou de Nosferatu (2024), reforçando sua vitalidade criativa.

Além de atuar, Bernardet dirigiu filmes e peças. Em 2019, aos 82 anos, estreou como diretor teatral, demonstrando sua versatilidade. Projetos como São Paulo: Sinfonia e cacofonia (1994) e A última valsa (2024), codirigido com Fábio Rogério, evidenciam sua habilidade em transitar entre diferentes papéis no audiovisual.

  • Filmes notáveis com participação de Bernardet:
    • O caso dos irmãos Naves (1967) – roteirista.
    • Fome (2015) – ator.
    • A destruição de Bernardet (2016) – ator e protagonista.
    • São Paulo: Sinfonia e cacofonia (1994) – diretor.

Sua presença nas telas, com um corpo franzino e marcado pelo tempo, transmitia uma intensidade que cativava o público e os cineastas com quem trabalhava.

Escrita e autoficção
Bernardet também se destacou como escritor, explorando a autoficção em livros como Aquele rapaz (2003), A doença, uma experiência (1996) e O corpo crítico (2021). Nessas obras, ele reflete sobre sua vida, abordando temas como a Aids, o câncer e a degeneração macular, que o deixou quase cego. Sua escrita, franca e desprovida de autocomiseração, tornou-se referência na literatura brasileira sobre saúde e envelhecimento.

Em Wet mácula: Memória/Rapsódia (2023), escrito com Sabina Anzuategui, Bernardet mistura memórias, diálogos e reflexões, criando uma narrativa fragmentada que desafia convenções autobiográficas. O livro, iniciado com a editora Heloisa Jahn, foi concluído após a morte dela, reforçando a colaboração criativa que marcou sua carreira. A obra destaca sua relação crítica com a vida, questionando até mesmo conceitos como “validade” – de medicamentos e, por extensão, da existência.

Formação e raízes
Nascido em Charleroi, na Bélgica, Bernardet chegou ao Brasil em 1949, aos 13 anos, acompanhando a família francesa. Sua adolescência em São Paulo, no meio da colônia francesa, foi marcada por dificuldades de adaptação. Ele estudou no Liceu Pasteur e trabalhou na Livraria Francesa antes de se conectar ao cinema por meio da Cinemateca Brasileira e do cineclube do Centro Dom Vital.

Sua aproximação com Paulo Emílio Salles Gomes, ícone da crítica cinematográfica, foi decisiva. Gomes o convidou para escrever no Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo, marcando o início de sua carreira como crítico. Em 1964, Bernardet se naturalizou brasileiro, consolidando sua identidade com o país que escolheu como lar.

Homenagens e retrospectivas
A relevância de Bernardet foi celebrada em diversas ocasiões. Em 2024, a mostra “Bernardet e o Cinema” exibiu 20 filmes no Centro Cultural Banco do Brasil, destacando sua trajetória como roteirista, diretor e ator. A curadora Andréa Cals enfatizou a importância de apresentar sua obra às novas gerações, reforçando seu papel como pensador do cinema brasileiro.

Além disso, eventos em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro, realizados entre agosto e setembro de 2024, homenagearam seus 88 anos. Um debate com o psicanalista Cezar Migliorin discutiu suas principais contribuições, atraindo cineastas e acadêmicos. Essas iniciativas mostram como Bernardet permaneceu relevante até o fim de sua vida.

Saúde e resistência
Bernardet enfrentou desafios de saúde por décadas. Diagnosticado com HIV, ele escreveu sobre a experiência em A doença, uma experiência, abordando o estigma e a burocracia médica. Mais tarde, lidou com um câncer de próstata recorrente, optando por não seguir com quimioterapia devido aos efeitos colaterais e à idade avançada. A degeneração macular, que comprometeu sua visão, também foi tema de suas reflexões, como em Wet mácula.

Apesar das adversidades, ele manteve uma postura de resistência, trabalhando incansavelmente. Sua decisão de abandonar tratamentos agressivos reflete uma crítica ao sistema médico, que ele via como focado na longevidade a qualquer custo, em detrimento do bem-estar. Essa visão, expressa em O corpo crítico, ressoa com debates contemporâneos sobre autonomia e saúde.

Influência nas novas gerações
A inquietação de Bernardet inspirou jovens cineastas e artistas. Sua colaboração com diretores como Cristiano Burlan e Claudia Priscilla demonstra sua abertura ao diálogo intergeracional. Ele se descrevia como alguém sem “papo” com sua própria geração, preferindo a troca com novos talentos.

  • Exemplos de influência:
    • Inspirou documentários como Crítica em movimento (2004), de Kiko Mollica.
    • Colaborou com alunos da USP em filmes como Disseram que voltei americanizada (1995).
    • Influenciou o cinema marginal, com análises críticas sobre filmes de Rogério Sganzerla.

Sua abordagem, que combinava rigor intelectual e liberdade criativa, continua a guiar realizadores que buscam um cinema autoral e engajado.

Presença em instituições
Bernardet deixou marcas em instituições como a USP, onde foi Professor Emérito da Escola de Comunicações e Artes (ECA), e a UnB, onde lecionou na década de 1960. Seus livros, como Cineastas e imagens do povo (1985), são leitura obrigatória em cursos de cinema. Ele também colaborou com a Cinemateca Brasileira, onde começou a escrever críticas e a se inserir no meio cinematográfico.

Sua atuação como roteirista, com destaque para O caso dos irmãos Naves, reforçou sua conexão com a produção audiovisual. O filme, dirigido por Luiz Sergio Person, é um clássico do cinema brasileiro, abordando injustiças do Estado Novo.

Repercussão da morte
A notícia do falecimento de Bernardet gerou reações imediatas no meio cultural. Cineastas, críticos e acadêmicos usaram as redes sociais para expressar condolências e destacar sua importância. A mostra de 2024 foi lembrada como um testemunho de sua vitalidade, enquanto instituições como a USP e a Cinemateca Brasileira preparam homenagens póstumas.

A ausência de Bernardet deixa um vazio no cinema brasileiro, mas sua obra permanece acessível em livros, filmes e arquivos, garantindo que seu pensamento continue a inspirar.

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