
Israel lançou uma série de ataques aéreos em Damasco, capital da Síria, atingindo o Ministério da Defesa e alvos próximos ao Palácio Presidencial, nesta quarta-feira, 16 de julho de 2025, intensificando a tensão no Oriente Médio. A ofensiva, que incluiu bombardeios na cidade de Sweida, de maioria drusa, é justificada por Israel como uma resposta à violência do governo sírio contra a minoria drusa no sul do país. Pelo menos uma pessoa morreu e 18 ficaram feridas em Damasco, segundo a agência estatal síria SANA. Os ataques, que marcam o terceiro dia consecutivo de ações militares israelenses, agravaram a situação em Sweida, onde confrontos entre forças sírias, combatentes drusos e grupos beduínos já deixaram mais de 300 mortos desde o último domingo. A comunidade internacional, incluindo a União Europeia, pediu respeito à soberania síria, enquanto moradores relatam medo e falta de eletricidade.
A escalada militar ocorre em um momento delicado para o governo interino sírio, liderado por Ahmed al-Sharaa, que assumiu o poder após a queda de Bashar al-Assad em dezembro de 2024. A intervenção de Israel, que alega proteger a minoria drusa, levanta questionamentos sobre a soberania síria e os interesses geopolíticos na região. Testemunhas em Damasco relataram explosões intensas, com imagens da TV Al Jazeera mostrando fumaça e destroços após o ataque ao Ministério da Defesa.
Os bombardeios também atingiram Sweida, onde as tensões entre drusos e beduínos, aliadas às forças do governo, escalaram após o colapso de um cessar-fogo anunciado na terça-feira. O Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH) reportou 248 mortes na província até agora, incluindo 92 drusos, 138 agentes de segurança e 18 combatentes beduínos, além de 28 civis, 21 dos quais teriam sido executados pelas forças sírias.
A cidade de Sweida, localizada no sul da Síria, é o epicentro de confrontos que opõem a minoria drusa, que constitui a maioria local, às forças do governo sírio e tribos beduínas sunitas. Os conflitos começaram no domingo, 13 de julho, após o sequestro de um comerciante druso, desencadeando uma onda de violência sectária. O governo sírio enviou tropas na segunda-feira para conter os combates, mas a intervenção resultou em confrontos diretos com milícias drusas. Um cessar-fogo, anunciado pelo ministro da Defesa sírio, Murhaf Abu Qasra, na terça-feira, foi rapidamente violado, com relatos de bombardeios intensos na manhã de quarta-feira.
A agência local Sweida24 informou que a cidade e vilarejos próximos sofreram ataques de artilharia e morteiros, forçando moradores a se esconderem em casa. Um líder religioso druso, Hikmat al-Hejri, apelou a potências internacionais, incluindo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, para proteger a comunidade drusa, descrevendo a situação como uma “guerra de extermínio”.
O governo sírio, por sua vez, acusou “grupos fora da lei” em Sweida de romperem a trégua e reafirmou seu compromisso em restaurar a ordem. No entanto, a presença de forças governamentais na região é vista por Israel como uma ameaça à desmilitarização do sul da Síria, próximo à fronteira com as Colinas de Golã, ocupadas por Israel desde 1967.
Israel justificou os ataques como uma medida para proteger os drusos, minoria étnico-religiosa com forte presença em Israel, Líbano e Síria. O ministro da Defesa, Israel Katz, afirmou que o país “não abandonará os drusos na Síria” e prometeu intensificar os bombardeios se as forças sírias não se retirarem de Sweida. A ofensiva também reflete a política israelense de impedir a militarização do sul da Síria, especialmente após a queda de Assad, que alterou o equilíbrio de poder na região.
Os drusos, que seguem uma ramificação do islamismo xiita, são uma comunidade de cerca de um milhão de pessoas, concentrada principalmente na província de Sweida e em áreas como Jaramana, nos subúrbios de Damasco. Durante a guerra civil síria, que durou 14 anos, os drusos formaram milícias autônomas para proteger suas áreas, mantendo uma posição de neutralidade em relação ao regime de Assad e a grupos extremistas.
A comunidade internacional expressou preocupação com a intensificação do conflito. A União Europeia manifestou alarme com os combates em Sweida e pediu que Israel e as forças sírias respeitem a soberania do país e protejam os civis. O Ministério das Relações Exteriores da Turquia classificou os ataques israelenses como uma tentativa de sabotar os esforços de paz na Síria, que vive uma transição delicada após a queda de Assad.
Os Estados Unidos, por meio do enviado especial Tom Barrack, consideraram a situação “preocupante” e instaram Israel a suspender os ataques. Já o líder druso Sheikh Yousef anunciou um novo cessar-fogo com o governo sírio na quarta-feira, embora relatos de combates continuem. A ONU e a França também apelaram pelo fim da violência contra civis e pelo respeito à soberania síria.
A situação na fronteira entre Israel e Síria tornou-se caótica, com dezenas de drusos de Majdal Shams, no Golã ocupado, tentando cruzar para o território sírio, enquanto drusos sírios buscavam refúgio em Israel. As Forças de Defesa de Israel (IDF) reforçaram a presença militar na região e usaram gás lacrimogêneo para dispersar multidões.
Os bombardeios em Damasco e Sweida geraram um impacto significativo na população local. Em Damasco, moradores relataram medo generalizado, com muitos se abrigando em casa sem acesso a eletricidade. O ataque ao Ministério da Defesa, capturado ao vivo pela Al Jazeera, mostrou a destruição de partes do prédio, com destroços espalhados e fumaça densa no céu da capital.
Em Sweida, a violência deslocou civis, com relatos de êxodo em vilarejos próximos. A agência Sweida24 descreveu bombardeios intensos de artilharia, enquanto o OSDH reportou a morte de pelo menos 28 civis, incluindo execuções sumárias pelas forças sírias. A falta de infraestrutura básica, como energia elétrica, agravou a crise humanitária na região.
O governo interino de Ahmed al-Sharaa enfrenta dificuldades para consolidar o poder em um país fragmentado por quase 14 anos de guerra civil. A violência sectária entre drusos e beduínos, aliada à intervenção israelense, expõe a fragilidade do controle de Damasco sobre o sul da Síria. A desconfiança de minorias, como drusos, alauítas e curdos, em relação ao governo sunita de Sharaa, ligado à organização Hayat Tahrir al-Sham, é agravada por episódios como os assassinatos de 1.600 alauítas em março de 2025.
A intervenção em Sweida, inicialmente destinada a conter conflitos intercomunitários, resultou em confrontos com milícias drusas, complicando os esforços de estabilização. A presidência síria prometeu investigar crimes contra civis em Sweida, mas a escalada militar israelense dificulta a implementação de medidas de segurança.
As tensões entre Israel e Síria remontam à Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando Israel ocupou as Colinas de Golã, território sírio onde vive uma significativa população drusa. Desde então, Israel mantém uma política de desmilitarização do sul da Síria, frequentemente intervindo para impedir a presença de forças hostis próximas à sua fronteira. A queda de Assad em 2024 intensificou a instabilidade, permitindo a Israel justificar ações militares sob o pretexto de proteger minorias e evitar a militarização da região.
Os drusos, historicamente neutros na guerra civil síria, tornaram-se peça-chave no conflito atual devido à sua aliança com Israel e à rivalidade com grupos sunitas e beduínos. A intervenção israelense, embora apresentada como humanitária, é vista por Damasco como uma violação da soberania, reacendendo debates sobre a influência externa na Síria pós-Assad.
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