
Falha de San Andreas — Foto: nasa Crédito: Extra.globo.com
Pesquisas recentes indicam que a falha geológica de San Andreas, na Califórnia, atingiu o mais alto nível de acúmulo de tensão sísmica em cerca de mil anos. Cientistas de instituições como a Universidade de Berna e a Universidade do Havaí alertam para a possibilidade de um terremoto de grandes proporções, potencialmente o mais devastador em tempos recentes, devido a essa acumulação de energia tectônica.
Considerada a maior fratura tectônica do planeta, a Falha de San Andreas é uma estrutura geológica colossal que se estende por mais de 1.280 quilômetros através do território californiano. Sua trajetória sinuosa atravessa regiões vitais, como os Vales de Coachella e do Silício, as Montanhas de San Gabriel e se aproxima da emblemática Ponte Golden Gate.
Além da San Andreas, a região é cortada pela Falha de San Jacinto, que se prolonga por mais de 200 quilômetros ao sul do estado. Embora grandes centros urbanos como Los Angeles e São Francisco não sejam diretamente sobre essas fraturas, um evento sísmico de alta magnitude nelas causaria impactos significativos e generalizados.
A história da Califórnia é marcada por terremotos violentos, como o de São Francisco em 1906, que alcançou 7,9 graus na escala Richter, resultando em cerca de 700 mortes e deixando vastas áreas em ruínas. Curiosamente, nos últimos cem anos, as principais formações geológicas, incluindo a de San Andreas, têm permanecido em um estado de relativa calma sísmica.
Contrariando a intuição, esse prolongado período de inatividade é motivo de grande preocupação para os especialistas. O movimento contínuo das placas tectônicas gera uma pressão constante sobre as rochas das falhas. Essa energia se acumula e, em algum momento, precisa ser liberada por meio de uma ruptura, que se manifesta como um terremoto. Quanto maior o tempo de acúmulo, mais potente e destrutivo pode ser o abalo sísmico.
“Continuamos acumulando essa energia sísmica, e ela precisa ser liberada. E a única maneira de liberá-la é por meio de grandes terremotos”, afirmou a geóloga Kate Scharer, do Serviço Geológico dos Estados Unidos, em declaração ao Los Angeles Times. Ela é coautora de um estudo recente que ressalta que “pequenos terremotos não são suficientes para isso”.
Os californianos das últimas gerações vivenciaram o terror de um grande terremoto da San Andreas apenas em filmes de Hollywood. Eventos sísmicos mais recentes, como o de Northridge em 1994, embora de magnitude 6,7, tiveram uma extensão de tremores limitada a uma pequena área de Los Angeles, causando 57 mortes.
No entanto, estudos científicos projetam um cenário muito mais grave para um futuro terremoto de San Andreas. Uma pesquisa de 2008 do Serviço Geológico dos Estados Unidos estimou que um abalo de magnitude 7,8 poderia causar tremores violentos simultaneamente em diversas cidades, como Los Angeles, Orange, Riverside, San Bernardino, Ventura e Imperial, com uma estimativa de 1.800 mortes.
Outra publicação de 2015 do mesmo órgão, intitulada “A Nova previsão de terremotos para o complexo de falhas da Califórnia”, aponta uma probabilidade de 60% de um terremoto de magnitude 6,7 ou superior atingir a região de Los Angeles até 2045.
O estudo mais recente, “Cajon Pass e o Sistema de Falhas de San Andreas Meridional: Acumulação de Tensão do Ciclo Sísmico e Carga Atual”, publicado em junho no Geophysical Research: Solid Earth, calculou que a Falha de San Andreas e a Falha de San Jacinto estão no seu pico de tensão tectônica desde o ano 1100.
Liliane Burkhard, autora principal do estudo e cientista da Universidade de Berna e do Instituto de Geofísica e Planetologia do Havaí, destacou ao Los Angeles Times que “a tensão tectônica atingiu níveis mais altos do que em qualquer outro momento de todo esse registro. A partir do modelo, vemos que as condições que historicamente precederam grandes rupturas conjuntas cruzando ambos os sistemas de falhas estão agora se aproximando.”
Apesar de não serem previsões exatas e de apresentarem limitações e incertezas, os resultados desses estudos reforçam a necessidade de vigilância. A sugestão de que os sistemas de falhas estão “mais sobrecarregados do que em qualquer outro momento nos últimos mil anos é uma descoberta que merece ser levada a sério”, concluiu Burkhard. A principal recomendação da cientista é clara: “no fim das contas, a mensagem mais importante é simples: vamos garantir que estejamos preparados”.