Um recente levantamento, baseado em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Índice de Progresso Social (IPS), lançou luz sobre a profunda interconexão entre a dependência de programas sociais e os indicadores de qualidade de vida nos estados brasileiros. A análise aponta que as regiões que mais se apoiam em benefícios como o Bolsa Família são, consistentemente, aquelas que enfrentam os maiores desafios em áreas essenciais para o bem-estar da população.
Essa dinâmica sublinha a complexidade das políticas públicas e a necessidade de abordagens multifacetadas para o desenvolvimento regional, especialmente em um cenário onde o salário mínimo nacional está estabelecido em R$ 1.621 para 2026, impactando diretamente a elegibilidade e o poder de compra das famílias.
Os resultados da pesquisa ressaltam uma clara correlação: os estados com maior proporção de lares beneficiados pelo programa também exibem as menores pontuações em diversos critérios de progresso social, desde a saúde básica até o acesso a oportunidades educacionais e profissionais.
De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), conduzida pelo IBGE, dois estados se destacam no topo da lista de dependência de programas sociais. O Pará lidera com 46,1% de seus domicílios recebendo algum tipo de benefício social, o que representa mais de 1,2 milhão de famílias atendidas em suas diversas modalidades.
Desse total, uma parcela expressiva de 83% é especificamente beneficiada pelo Bolsa Família, evidenciando a capilaridade e a importância do programa na sustentação de grande parte da população paraense. O Maranhão segue de perto, com 45,6% de suas famílias recebendo apoio do governo federal, predominante também via Bolsa Família.
Ao analisar o cenário brasileiro sob uma ótica regional, a disparidade na dependência de programas sociais entre o Norte/Nordeste e o Sul do país é notavelmente acentuada. No Nordeste, aproximadamente 39,8% dos domicílios recebem algum tipo de benefício social, configurando a maior proporção entre todas as regiões brasileiras. Logo em seguida, a região Norte apresenta um índice similar, com 38,8% dos domicílios atendidos, o que demonstra a concentração da vulnerabilidade socioeconômica nessas áreas geográficas. Em contraste, a região Sul registra a menor proporção de famílias dependentes, com apenas 10,8% dos domicílios recebendo apoio social. Santa Catarina, em particular, figura como o estado com o menor percentual de famílias assistidas pelo Bolsa Família em todo o território nacional, ilustrando a diversidade econômica e social que caracteriza o Brasil.
O Índice de Progresso Social Brasil (IPS), uma ferramenta que avalia os estados em uma escala de 0 a 100 com base em 57 indicadores sociais e ambientais, corrobora o padrão identificado pela pesquisa de dependência. Os estados que apresentam maior necessidade de apoio via Bolsa Família são, consistentemente, os que ocupam as posições mais desfavoráveis no ranking de qualidade de vida.
O Pará, por exemplo, registra a pior pontuação do país no IPS, com apenas 53,71 pontos, refletindo desafios estruturais profundos. O Maranhão aparece na sequência com 55,96 pontos, consolidando a percepção de que a assistência social é um pilar fundamental em contextos onde outras dimensões do progresso ainda precisam ser desenvolvidas.
O IPS é construído a partir de três amplas dimensões que buscam capturar o bem-estar da sociedade: necessidades humanas básicas, que abrangem aspectos como nutrição, água e saneamento; fundamentos do bem-estar, que incluem acesso à educação, informação e saúde; e oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional, que englobam direitos, liberdade e inclusão.
Entre os diversos indicadores avaliados pelo Índice de Progresso Social, o acesso à educação superior emerge como um dos pilares mais deficitários em todo o Brasil, mas a situação assume contornos ainda mais graves nas regiões Norte e Nordeste. Maranhão e Pará, os estados com maior dependência de programas sociais, apresentam os piores índices de acesso ao ensino superior no país, com notas de 34,49 e 34,60, respectivamente.
Especialistas em economia aplicada apontam que essa dificuldade de ingresso e permanência no ensino superior está intrinsecamente ligada à necessidade de os jovens ingressarem precocemente no mercado de trabalho para contribuir com o sustento familiar. Essa realidade restringe o tempo disponível para os estudos e, em muitos casos, impulsiona a migração para grandes centros urbanos em busca de melhores oportunidades de emprego e formação.
Em resposta aos desafios socioeconômicos, o governo do Maranhão implementou o programa estadual “Maranhão Livre da Fome”, que atua como um complemento ao Bolsa Família. A iniciativa visa oferecer suporte adicional a famílias em situação de extrema pobreza e insegurança alimentar, buscando fortalecer a rede de proteção social no estado.
Atualmente, o programa beneficia cerca de 74 mil famílias, impactando positivamente a vida de mais de 432 mil pessoas. O investimento acumulado na iniciativa já ultrapassa R$ 141,7 milhões, demonstrando o compromisso estadual em mitigar as vulnerabilidades sociais.
O governo maranhense relata que a renda domiciliar per capita, embora ainda seja a menor do país, registrou um aumento de quase 50% em um ano, passando de aproximadamente R$ 840 para R$ 1.240. Essa elevação, embora significativa, ainda coloca muitas famílias abaixo do patamar do salário mínimo nacional de R$ 1.621.
Nos últimos três anos, mais de 566 mil pessoas deixaram a condição de pobreza ou extrema pobreza no estado, um avanço atribuído, em parte, ao crescimento do número de pessoas ocupadas, que saltou de 2,1 milhões para 2,7 milhões, indicando uma recuperação e expansão do mercado de trabalho local.
O Pará, além de sua alta dependência de programas sociais, também atraiu a atenção nacional e internacional ao sediar a COP 30, a conferência climática da ONU, em Belém. A capital paraense recebeu mais de R$ 1 bilhão em investimentos federais destinados a preparar a cidade para o evento de grande porte.
Apesar do vultoso volume de recursos aplicados, especialistas questionam se o legado da conferência se traduzirá em melhorias estruturais duradouras para a população local. O foco dos investimentos se concentra em áreas básicas como saúde, educação e saneamento, os mesmos pontos que atualmente explicam a posição do estado nos indicadores de qualidade de vida e progresso social. A expectativa é que esses investimentos possam, no longo prazo, contribuir para diminuir a dependência de programas sociais e elevar o patamar de desenvolvimento humano.