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El Niño pode elevar preços de alimentos em até 20% e pressionar inflação no Brasil

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Os consumidores brasileiros podem se preparar para um período de encarecimento nos produtos alimentícios, com projeções indicando um pico nos custos em até seis meses, impulsionado pelos efeitos climáticos do fenômeno El Niño. Um modelo matemático desenvolvido por especialistas do Rabobank, que analisou o histórico do evento no país, aponta para um impacto significativo, especialmente nos itens mais frescos da cesta de compras.

Entenda o Fenômeno El Niño e Suas Consequências Climáticas

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico equatorial, um ciclo natural que desencadeia profundas alterações nos padrões meteorológicos em escala global. No Brasil, suas manifestações podem variar drasticamente, provocando secas prolongadas em regiões cruciais para a agricultura e, simultaneamente, chuvas torrenciais em outras áreas de produção, desequilibrando a oferta de alimentos.

Crédito: Mixvale.com.br

Previsões de Aumento para Diferentes Categorias de Alimentos

A pesquisa do Rabobank detalha que os produtos “in natura”, como carnes e hortaliças, serão os primeiros e mais afetados. Em um cenário de El Niño de forte intensidade, os valores desses itens poderiam subir cerca de 19,9%. Já o custo total da alimentação consumida em casa, que engloba diversas categorias, teria um acréscimo de 6,32%.

Caso o fenômeno se manifeste com intensidade moderada, as estimativas são mais contidas, mas ainda significativas: um aumento de 13,4% nos produtos in natura e de 2% no custo total da alimentação doméstica. Essas variações demonstram a sensibilidade do setor agrícola às mudanças climáticas.

A Velocidade do Impacto: Como Cada Tipo de Alimento Reage

A rapidez com que os preços reagem aos choques climáticos difere entre os tipos de alimentos. Hortaliças e outros produtos frescos, por terem ciclos de produção curtos, sentem o impacto das perturbações climáticas de forma quase imediata, com reflexos rápidos na oferta e nos valores finais.

Por outro lado, itens semi-elaborados, como arroz e feijão, absorvem os custos adicionais de forma mais gradual. Isso ocorre porque o aumento se dá principalmente nos insumos necessários para seu processamento, que levam mais tempo para se traduzir em elevações nos preços ao consumidor.

Já os alimentos industrializados tendem a registrar aumentos mais amenos. O custo final desses produtos é composto por múltiplas etapas – processamento, embalagem, transporte e comercialização – o que ajuda a diluir o impacto das variações nos custos das matérias-primas agrícolas.

O Peso do El Niño na Inflação Geral do País

Os aumentos nos preços dos alimentos têm um impacto direto no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o indicador oficial de inflação. Em um cenário de El Niño moderado, a alta nos produtos in natura adicionaria aproximadamente 0,36 ponto percentual ao IPCA total ao longo de 12 meses.

Para os alimentos semi-elaborados e industrializados, as projeções indicam acréscimos menores: 0,27% e 0,5%, respectivamente, contribuindo para um impacto total de cerca de 0,41 ponto percentual no IPCA em um cenário moderado.

No caso de um El Niño forte, a contribuição para o IPCA seria ainda maior. Apenas a elevação de quase 20% nos produtos in natura adicionaria cerca de 0,53 ponto percentual. Com os semi-elaborados subindo 3,6% (0,20 pp) e os industrializados em 1,4% (0,11 pp), o total do impacto nos alimentos poderia somar aproximadamente 0,83 ponto percentual ao IPCA. O pico desse efeito é esperado para cerca de seis meses após o início do choque climático.

Probabilidade de um El Niño Intenso e Produtos Mais Afetados

Projeções recentes da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) indicam uma alta probabilidade de um El Niño forte. Embora a análise de agosto de 2026 presente um dado que parece um erro de digitação da fonte (2026), as tendências atuais apontam para uma chance de aproximadamente 80% de um El Niño de forte intensidade até o final deste ano, o que eleva a preocupação.

Especialistas já identificam os alimentos mais vulneráveis. Cesar Castro Alves, gerente da Consultoria Agro do Itaú BBA, listou milho, café, frutas, laranja, cana-de-açúcar, trigo e arroz entre os produtos que podem sofrer maiores reajustes. O preço do leite também pode ser alterado, dependendo do volume de chuvas na região Sul.

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) alerta que a pecuária nas regiões Centro-Oeste e Norte será uma das atividades mais prejudicadas, com a escassez de chuvas podendo afetar a oferta de água e pastagens para os animais.

Variações Regionais no Impacto dos Preços

A análise também revela que o impacto dos aumentos de preços não será uniforme em todo o Brasil. Regiões metropolitanas onde o consumo ou a produção de alimentos in natura são mais expressivos deverão sentir os reajustes de forma mais rápida e acentuada. Isso significa que a conta do supermercado pode pesar mais rapidamente em algumas capitais.

Cidades como Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Goiânia, Brasília, Fortaleza e Belém estão entre as que podem experimentar os maiores reajustes no curto prazo. Em contraste, Salvador e Recife, por exemplo, deverão registrar impactos iniciais menores, com a transferência dos choques climáticos para os custos se dando de forma mais gradual.