O Desterro Rugby Clube, uma das mais longevas e bem-sucedidas agremiações de rúgbi no Brasil, completa três décadas de existência em Florianópolis, solidificando sua posição como um pilar fundamental para o desenvolvimento do esporte na capital catarinense e em âmbito nacional. Com um legado de três campeonatos brasileiros e a participação de atletas em seleções nacionais, incluindo as Olimpíadas do Rio, o clube direciona agora suas energias para a formação de novos talentos, um movimento estratégico para garantir a longevidade e a expansão da modalidade em um país onde o rúgbi ainda busca maior reconhecimento.
A iniciativa do Desterro transcende a mera busca por vitórias em campo, focando na construção de cidadãos por meio dos princípios que regem o esporte. A aposta na base, que acolhe jovens desde os sete anos, é vista como o motor para um futuro mais promissor, não apenas para o clube, mas para o rúgbi brasileiro como um todo.
Os treinamentos, que ocorrem três vezes por semana em um campo cedido pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) na Tapera, são o coração dessa estratégia, onde a técnica se une à transmissão de valores essenciais.
Na essência do trabalho realizado pelo Desterro Rugby, a formação de atletas vai além do aprimoramento físico e tático. Segundo Sami Dubena, técnico da categoria sub-15 masculina, o rúgbi é uma ferramenta poderosa para a educação e o desenvolvimento pessoal. Os jovens aprendem que o esporte é um espelho da vida, onde a resiliência e a colaboração são tão cruciais quanto a habilidade individual.
O clube se empenha em inculcar os pilares que sustentam o rúgbi: disciplina, respeito, integridade, paixão e solidariedade. Esses valores são trabalhados de forma contínua em todas as categorias, desde a base até o nível profissional, preparando os atletas não apenas para as competições, mas para os desafios da vida cotidiana. A filosofia é clara: a vitória e a derrota são secundárias diante do aprendizado e do crescimento pessoal proporcionados pela prática esportiva.
A presença de profissionais experientes, como o técnico argentino Germán Dubini, que se mudou para Florianópolis justamente em busca de um ambiente propício para a formação de seus filhos e hoje contribui ativamente para o projeto, reforça a qualidade e o compromisso do Desterro. Dubini destaca a importância de iniciar o contato com o rúgbi desde cedo, construindo uma base sólida de atletas que possam, no futuro, representar o clube e o país em alto rendimento. A expansão da modalidade no Brasil, conforme ele aponta, depende diretamente desses investimentos nas categorias de base, criando um ciclo virtuoso de desenvolvimento e paixão pelo esporte.
Apesar de sua rica história e de ser um dos clubes mais vitoriosos do rúgbi nacional, o Desterro Rugby enfrenta obstáculos significativos, especialmente no que tange à infraestrutura. O presidente do clube, Nikolas Bottós, advogado de profissão, ressalta a batalha contínua por uma sede própria que inclua campo e áreas de apoio, um anseio que perdura há anos. Atualmente, a dependência do campo da UFSC, embora crucial para a manutenção das atividades, expõe a fragilidade da modalidade em um cenário esportivo dominado por outras categorias.
A visibilidade limitada do rúgbi no Brasil, em contraste com o número expressivo de praticantes, amplifica as dificuldades de captação de recursos e apoio. Bottós enfatiza que, apesar das conquistas históricas, como os títulos brasileiros e a presença olímpica, a sustentabilidade de um esporte amador no país é um desafio constante. A reativação e o fortalecimento das categorias de base foram possíveis graças a uma combinação de apoios públicos e privados, além da dedicação da comunidade do rúgbi, que abraça o clube como uma verdadeira família. O olhar para os próximos 30 anos está firmemente ancorado na nova geração de atletas que se engaja com entusiasmo.
O investimento na formação de jovens atletas na Tapera tem gerado frutos notáveis, com a comunidade local se destacando e encontrando no rúgbi uma nova paixão. Um exemplo inspirador é Ana Carolina, conhecida como Cacau, capitã da equipe sub-15 feminina. Sua jornada no esporte começou há apenas um ano, após um convite despretensioso na praia do Campeche, e hoje ela se declara inseparável da modalidade.
Para Cacau, o Desterro representa mais do que um clube; é uma extensão de sua família, um ambiente que oferece suporte integral e a oportunidade de crescer tanto como atleta quanto como pessoa. Sua história reflete o poder transformador do esporte e a capacidade do clube de integrar e empoderar jovens da região. A oferta de aulas gratuitas nas tardes de quarta-feira e manhãs de sábado para as categorias menores é um testemunho do compromisso do Desterro com a acessibilidade e a inclusão social, abrindo portas para muitos que, de outra forma, não teriam contato com o rúgbi.
A ex-jogadora do próprio Desterro e agora técnica da base feminina, Vanessa das Chagas, sublinha a urgência de apoio contínuo para os projetos do clube. Ela destaca o potencial das equipes juvenis, com o time sub-19 se preparando para a semifinal do Campeonato Brasileiro em Florianópolis no dia 31, um evento que demonstra a força e a dedicação dos jovens atletas. A rica tradição de títulos nas categorias adultas serve de inspiração, e a base robusta atual promete nutrir futuras gerações de campeões.
No entanto, a falta de suporte financeiro e logístico é uma barreira constante. A necessidade de deslocamento frequente para São Paulo, onde grande parte das competições é realizada, impõe um custo elevado e dificulta a participação plena das equipes. Vanessa reforça que o investimento em clubes como o Desterro não é apenas um apoio ao esporte, mas um investimento no desenvolvimento social e na formação de jovens com valores sólidos. A visibilidade e o reconhecimento são essenciais para que o clube continue sua missão de transformar vidas e elevar o patamar do rúgbi em Florianópolis e no Brasil.
O Desterro Rugby, com seus 30 anos de dedicação, personifica a persistência e a paixão pelo rúgbi. A trajetória do clube, marcada por conquistas e desafios, evidencia a importância de instituições que, a despeito das adversidades, continuam a semear o esporte e seus valores em novas gerações, garantindo que a chama do rúgbi continue acesa e vibrante em Florianópolis e além.