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A crescente presença da rede de internet via satélite Starlink, uma iniciativa da empresa espacial SpaceX de Elon Musk, em regiões remotas e cenários de guerra, tem gerado um inédito acúmulo de poder geopolítico nas mãos do empresário e do governo dos Estados Unidos. Essa dependência de infraestruturas de comunicação consideradas essenciais está provocando preocupação entre as autoridades internacionais e impulsionando o desenvolvimento acelerado de sistemas de comunicação por satélite concorrentes na Europa, na China e dentro dos próprios EUA.
Na Ucrânia, onde o serviço está ativo desde a invasão russa em fevereiro de 2022, as autoridades reportaram em outubro de 2026 a imposição de um limite de velocidade de 160 km/h nos terminais do Starshield, a versão militar da rede contratada pelo Departamento de Defesa americano, o Pentágono. Em uma declaração publicada na rede social X na quarta-feira (14), o fundador e CEO da SpaceX e da Starlink, Elon Musk, esclareceu que o sistema comercial é destinado a propósitos civis ou defensivos, enquanto a rede militar opera sob o comando de Washington. “Os sistemas Starshield são de propriedade e controle do governo dos Estados Unidos. Qualquer restrição de velocidade ou de uso é definida pelos militares americanos e, em última instância, pelo presidente”, afirmou Musk, fazendo referência ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
As interrupções e o teto de 160 km/h nos terminais Starshield foram observados pelas forças ucranianas entre a terça-feira (13) e a sexta-feira (16). Essa limitação operacional comprometeu a eficácia de drones interceptadores, empregados para abater mísseis e drones russos a jato do modelo Geran, que alcançam velocidades superiores a 300 km/h. Mykhailo Fedorov, ex-ministro da Defesa da Ucrânia, enfatizou a urgência de remover a restrição: “É fundamental eliminar completamente o limite de velocidade do Starshield agora para a defesa da Ucrânia”.
Em território ucraniano, a conectividade fornecida pela SpaceX é crucial para diversas operações, incluindo a coordenação de tropas, a navegação de veículos terrestres não tripulados, o funcionamento de hospitais, a atuação de equipes de emergência, a distribuição de energia e a manutenção da malha ferroviária. O analista militar ucraniano Oleksandr Kovalenko destacou que “a Starlink é vital tanto para a população civil quanto para as forças armadas”. Recentemente, tropas russas também começaram a utilizar terminais obtidos clandestinamente na linha de frente, o que levou o Ministério da Defesa da Ucrânia a colaborar com a SpaceX para desativar esses acessos.
Além do conflito no Leste Europeu, a rede de satélites de Elon Musk se expandiu para diversas outras zonas de tensão internacional. Frequentemente, essa disseminação ocorre por meio de mercados paralelos ou acordos específicos, o que tem impactado o controle local sobre o fluxo de informações e as operações logísticas, alterando dinâmicas de poder em regiões sensíveis.
O funcionamento da Starlink baseia-se em uma vasta constelação de satélites em órbita terrestre baixa, originalmente concebida para fornecer internet em áreas onde a instalação de cabos ou fibra óptica é economicamente inviável ou tecnicamente difícil. Os satélites se comunicam entre si por meio de feixes de laser, eliminando a necessidade de uma conexão contínua com uma estação terrestre. Para o usuário final, a conexão é estabelecida por um terminal receptor equipado com uma antena de alinhamento automático, conectado a um roteador.
A reentrada diária desses equipamentos na atmosfera terrestre resulta na queima e liberação de óxido de alumínio, uma substância que suscita preocupações quanto ao seu potencial impacto na camada de ozônio e na intensificação do aquecimento global. Além desse resíduo químico, o brilho refletido pelas milhares de unidades em órbita modifica a paisagem do céu noturno, prejudicando observações astronômicas e interferindo em ecossistemas e na vida selvagem.
O peso político da rede da SpaceX tornou-se inegável em situações-chave, como quando Musk recusou ativar o serviço para forças ucranianas durante um ataque próximo à região da Crimeia, ou quando o ex-presidente Donald Trump ameaçou cortar o acesso de Kiev para forçar concessões em negociações. Cenários como esses impulsionam governos e corporações a acelerar o desenvolvimento de projetos para diminuir a dependência tecnológica em relação à empresa americana, buscando maior autonomia em comunicações estratégicas.
Na União Europeia, o bloco está elaborando uma nova regulamentação para o espectro radioelétrico, conforme noticiado nesta segunda-feira (19), com o objetivo de priorizar empresas de satélite locais. A francesa Eutelsat, por exemplo, já opera a rede OneWeb, que conta com mais de 600 satélites (634 equipamentos em órbita, segundo o International Institute for Strategic Studies, IISS) dedicados aos setores corporativo e marítimo. A empresa também participa do programa governamental europeu de comunicações seguras IRIS², cuja data de início de operação ainda não foi definida devido a revisões de prazos e custos.
Nos Estados Unidos, a principal concorrente comercial é a Amazon Leo, um serviço da Amazon lançado em 2019 sob o nome de Projeto Kuiper e rebatizado no final de 2025. O plano total prevê o lançamento de mais de 3,2 mil satélites. A empresa superou a marca de 390 equipamentos em órbita em 2 de julho de 2026, com o objetivo de iniciar as operações comerciais ainda em 2026. No Brasil e em outros seis países da América do Sul, a distribuição do serviço Amazon Leo será realizada por meio de uma parceria firmada em 13 de junho de 2024 com a Vrio, controladora da operadora Sky no mercado brasileiro e da DirecTV na região. Na China, o avanço ocorre em duas grandes frentes: a megaconstelação estatal e militar Guowang, que projeta cerca de 13 mil satélites, e a rede comercial Qianfan, também conhecida como SpaceSail ou G60, planejada para reunir milhares de equipamentos em órbita.