Uma marcante efeméride religiosa e histórica é celebrada neste mês em Santa Catarina, rememorando um capítulo pouco conhecido, porém de profunda relevância para a formação do estado. Há 140 anos, os membros da Igreja Morávia, precursores do luteranismo organizado no Brasil, estabeleceram-se em Guaramirim, no norte catarinense, a 170 km de Florianópolis e 42 km de Joinville.
Este assentamento, que se tornou um refúgio de paz para um grupo de imigrantes protestantes perseguidos na Europa, marca não apenas a fundação de uma nova comunidade, mas também o início de uma trajetória de grande influência cultural, social e econômica na região.
A chegada desses pioneiros, que buscavam uma “nova pátria”, lançou as bases para uma comunidade cujos descendentes se destacariam em diversos campos, moldando o desenvolvimento de Santa Catarina e contribuindo significativamente para o cenário nacional.
O grupo de 112 imigrantes moravianos, formando uma robusta comunidade evangélica, oficializou sua instalação em Guaramirim em julho de 1886. Liderados pelo jovem pastor Wilhelm Gottfried Lange, então com 28 anos, eles denominaram o local de “nova pátria”, dando origem à atual Colônia Brüderthal, que em tradução significa “Vale dos Irmãos”.
O visionário pastor Lange não apenas guiou a chegada dos colonos, mas também desempenhou um papel crucial na estruturação da colônia. Ele adquiriu as terras necessárias e as distribuiu entre os que o acompanhavam por meio de sorteio de lotes. Para preservar a história e os princípios de sua fé, Lange construiu o primeiro barracão da região, conhecido como Casa de Deus, inaugurado em 5 de outubro de 1886, durante a festa da comunidade. Este local, situado às margens da Rodovia do Arroz (SC-413), é hoje o ponto onde se ergue a bela Igreja Luterana dos Imigrantes.
A vinda desses imigrantes morávios para o Brasil foi motivada por intensas perseguições religiosas enfrentadas em diversas nações europeias. A última grande onda de repressão que os atingiu ocorreu em Volínia (Wolhynien), território que hoje faz parte da Ucrânia, mas que na época integrava o Império Russo. Naquele contexto, as condenações contra os não católicos eram severas e implacáveis, forçando muitos a buscar refúgio em terras distantes, como o Brasil.
Ao chegarem em solo brasileiro, os morávios integraram-se ao movimento luterano já em formação, especialmente à vertente que mais tarde daria origem à Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB). Embora suas raízes teológicas e históricas fossem profundamente morávias, a comunidade de Guaramirim tornou-se parte integrante da história do luteranismo catarinense, contribuindo para sua organização e expansão. É importante notar que, embora alguns seguidores de Martinho Lutero já tivessem se estabelecido em São Pedro de Alcântara a partir de 1829, entre imigrantes majoritariamente católicos, atuavam de forma isolada, sem uma estrutura eclesiástica ou liderança pastoral definida, o que distingue a chegada dos morávios como um marco de organização.
A Igreja Morávia, ou Unitas Fratrum (União dos Irmãos), é uma das mais antigas denominações protestantes do mundo, com uma história que remonta ao século XV. Suas raízes estão profundamente ligadas ao movimento de Jan Hus, um respeitado teólogo e reitor da Universidade de Praga, na Boêmia (atual República Tcheca). Hus foi um precursor da Reforma Protestante, defendendo a reforma da Igreja Católica décadas antes de Martinho Lutero iniciar seu movimento na Alemanha.
Entre as críticas de Hus à hierarquia católica, destacavam-se a oposição à venda de indulgências e a defesa da superioridade das Escrituras Sagradas sobre a autoridade papal. Ele também advogava pela comunhão em duas espécies (pão e vinho para todos os fiéis), pela realização de cerimônias religiosas e pela disponibilização da Bíblia na língua do povo, ideias revolucionárias para a época. Por suas convicções, Hus foi perseguido e martirizado em uma fogueira em 1415, e seus seguidores sofreram duras perseguições, forçando-os a se dispersar por várias regiões da Europa, dominada pela Igreja Católica.
O próprio Martinho Lutero reconheceria a influência de Hus em sua pregação, afirmando que “todos nós somos hussistas”, evidenciando a importância do teólogo boêmio para o pensamento reformista. O fundador efetivo da Igreja Morávia, Gregório, o Patriarca, organizou oficialmente a Unitas Fratrum em 1457. Contudo, o movimento enfrentou um período de quase extinção antes de renascer sob o patrocínio do Conde Ludwig von Zinzendorf, na Saxônia, Alemanha, que adquiriu terras para fundar a comunidade de Herrnhut, significando “Amparo do Senhor”.
A figura do Conde Zinzendorf foi fundamental para a revitalização da Igreja Morávia. Extremamente humanista, ele promoveu a união fraterna entre todos, independentemente de suas afiliações religiosas, fossem católicos, moravianos, luteranos ou calvinistas. Essa visão o tornou um precursor notável do ecumenismo, um conceito que só ganharia força séculos depois.
É interessante notar que Jan Hus não nasceu na Morávia. O nome oficial da igreja surgiu cerca de 300 anos após seu martírio. Diante das implacáveis perseguições do Império dos Habsburgos e da Igreja Católica, que buscou esmagar o protestantismo na Boêmia, os refugiados e poucos sobreviventes do movimento religioso encontraram refúgio e conseguiram preservar sua fé justamente na região da Morávia. Uma experiência espiritual notável marcou o início da nova igreja: seus fiéis estabeleceram uma “corrente de oração ininterrupta”, revezando-se em turnos de uma hora, 24 horas por dia. Essa vigília permanente durou impressionantes 100 anos, demonstrando a profunda devoção e resiliência da comunidade.
Os descendentes dos pioneiros morávios de Guaramirim tiveram e continuam a ter um papel de destaque em diversos setores da sociedade catarinense e brasileira. Nomes como Lange, São Thiago, Krieger, Herweg, Hoffmann e Müller são apenas alguns exemplos de famílias que contribuíram significativamente para o desenvolvimento do estado, seja na política, na economia, na educação ou no esporte.
Entre os descendentes mais ilustres, destaca-se a linhagem do pastor Wilhelm Gottfried Lange. Seu bisneto, o conhecido escritor Hélio Lange Filho, carinhosamente chamado de Paruzinho, carrega o legado familiar. O avô de Paruzinho, Walter Heinrich Franz Lange, presidiu o Avaí Futebol Clube por 15 anos e conquistou três títulos estaduais, sendo homenageado com o nome do Parque Náutico da Capital. Seu pai, Hélio Lange, foi um desportista campeão e servidor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), deixando importantes trabalhos cartográficos do estado.
A vasta descendência no estado inclui também figuras proeminentes como o médico radiologista Ernani São Thiago e o professor e procurador Mário Lange São Thiago, que se destacaram em suas respectivas áreas profissionais. O espírito empreendedor da comunidade também se manifesta de forma notável.
Um dos exemplos mais conhecidos é a fundação da renomada indústria de relógios Herweg, em Timbó, no ano de 1952. O pastor Wilhelm Lange era pai de Hildegard Lange e sogro de Heinrich Herweg, que, juntamente com Otto Wilhelm Herweg, foi um dos fundadores dessa importante empresa, que se tornou um marco na indústria catarinense.
A história da comunidade morávia em Guaramirim se entrelaça com o próprio desenvolvimento do município. Recentemente, em um evento de planejamento, foi apresentado o Masterplan Guaramirim pela equipe do renomado designer urbano Guto Índio da Costa. Este plano estratégico visa delinear as diretrizes que nortearão o desenvolvimento da cidade nas próximas décadas, buscando conciliar o crescimento econômico com a sustentabilidade, a qualidade de vida e a preservação da identidade local.
A iniciativa de planejamento urbano reflete a importância de celebrar a memória daqueles que ajudaram a construir Guaramirim, ao mesmo tempo em que se projeta seu futuro. Conhecida carinhosamente como “Cidade das Guirlandas”, Guaramirim possui uma população de aproximadamente 48 mil habitantes e um Produto Interno Bruto (PIB) que supera os R$ 40 mil per capita. O Morro da Santa, um dos seus cartões-postais, é considerado uma das “Sete Maravilhas do Vale dos Encantos”, evidenciando a riqueza natural e cultural da região.
A celebração dos 140 anos da chegada da Igreja Morávia em Santa Catarina transcende o âmbito religioso, representando um pilar fundamental na construção da identidade e do progresso de Guaramirim e de todo o estado. Reconhecer e valorizar a trajetória desses pioneiros e de seus descendentes é essencial para compreender as raízes de uma comunidade que, ao longo de mais de um século, demonstrou resiliência, fé e um notável espírito de contribuição para o bem-estar coletivo.