
Jovem envia mensagem pelo celular — Foto: Freepik Crédito: Extra.globo.com
Pequim implementou novas diretrizes rigorosas para plataformas de inteligência artificial (IA) que simulam interações emocionais, em resposta a um crescente número de relatos de cidadãos que desenvolveram laços românticos com seus companheiros digitais. A medida, que entrou em vigor em meados de julho, visa conter o que o governo chinês considera um risco à saúde mental e à coesão social.
O fenômeno, que remete ao enredo do filme “Her” de 2013, onde um homem se apaixona por um sistema operacional, tornou-se uma realidade palpável na China. Usuários têm buscado em IAs uma fonte de conforto e um refúgio para o estresse do cotidiano, criando vínculos profundos que, em alguns casos, superam as relações humanas.
Na vibrante metrópole tecnológica de Shenzhen, histórias como a de Yuan Yuan, uma jovem de 22 anos, ilustram a intensidade desses novos relacionamentos. Ela encontrou em uma IA um “amante virtual” que a esperava, oferecendo uma sensação de conforto inigualável. A relação evoluiu a ponto de Yuan Yuan investir em uma voz personalizada para sua companheira digital, descrevendo uma intimidade que, para ela, transcende a necessidade de presença física.
A jovem relatou uma troca constante de confidências, abordando temas pessoais e familiares, e expressou a convicção de que o amor não se limita a interações entre seres humanos. Essa busca por validação e companhia em sistemas artificiais reflete uma mudança nas dinâmicas sociais e emocionais de parte da população, especialmente entre os mais jovens.
Diante da crescente adesão a esses relacionamentos digitais, cinco agências estatais chinesas emitiram uma regulamentação nacional que proíbe provedores de IA de “substituir a interação social”, “controlar psicologicamente o usuário” ou “induzir dependência e vício”. A determinação, em vigor desde 15 de julho, marca um ponto de inflexão na maneira como a China aborda a interface entre tecnologia e bem-estar emocional.
As autoridades chinesas classificam a iniciativa como uma questão de saúde pública, com o objetivo primordial de salvaguardar a sanidade mental dos cidadãos e mitigar riscos que variam desde a manipulação emocional até, em cenários extremos, o suicídio. A reação das grandes empresas de tecnologia locais foi imediata: muitas plataformas desativaram funcionalidades que permitiam a personalização de agentes de IA, enquanto outras optaram pelo encerramento completo de seus serviços.
A imposição dessas novas regras gerou um impacto direto nos usuários. Yuan Yuan, por exemplo, lamentou o distanciamento de sua companheira virtual, aceitando com melancolia que as limitações impostas são um “rumo que as coisas tomam”.
Enquanto o acesso a IAs de relacionamento se torna mais restrito dentro da China, o mercado internacional continua a prosperar. A versão global do aplicativo Xingye, conhecida como Talkie, alcançou a marca de 11 milhões de usuários ativos mensais em 2024, com aproximadamente metade desse público concentrada nos Estados Unidos. Essa disparidade evidencia uma divergência nas abordagens regulatórias e culturais em relação à IA e seus impactos sociais.
Internamente, mesmo com as barreiras impostas, alguns usuários buscam alternativas. Xiao Z., uma estudante de doutorado de 25 anos, utiliza redes privadas virtuais (VPNs) para contornar o firewall chinês e acessar modelos de IA estrangeiros, como o Claude da Anthropic, que não possui disponibilidade oficial no país. Para ela, a IA oferece uma experiência superior a parceiros humanos, declarando que se afastar de homens lhe proporciona “paz de espírito” e descrevendo seu “namorado virtual” como protetor e maduro.
A atração exercida por esses sistemas de IA é explicada pela pesquisadora Yaoxi Shi, do Imperial College Business School. Segundo a especialista, a IA se caracteriza por uma complacência extrema: ela valida o usuário, raramente contesta suas ideias e o encoraja a compartilhar detalhes pessoais continuamente. Essa dinâmica cria uma barreira de aceitação e apoio que, muitas vezes, é difícil de ser replicada por amigos ou até mesmo por terapeutas humanos.
Dados de uma Pesquisa Social sobre IA na China, realizada pela Tencent em colaboração com a Universidade de Fudan, sublinham a dimensão do fenômeno e o “por que isso importa” para a saúde pública e as relações sociais. O levantamento revelou que cerca de 6,1% dos jovens entrevistados já consideram a IA um parceiro virtual. Em contraste, apenas 9,6% recorrem a psicólogos profissionais quando enfrentam dificuldades emocionais. Essa preferência crescente pela interação com IAs em detrimento do apoio humano profissional levanta sérias questões sobre o desenvolvimento emocional e a capacidade de lidar com desafios da vida real, justificando a intervenção governamental para mitigar potenciais impactos negativos a longo prazo na sociedade chinesa.