Categories: Notícias

Avatares de IA simulam médicos para enganar idosos com falsas curas e ameaçar a saúde

Share

Uma perigosa onda de vídeos produzidos por inteligência artificial (IA) tem se espalhado pelo Brasil, usando imagens e vozes de supostos profissionais da saúde para difundir informações médicas sem qualquer base científica. O alvo principal dessa ofensiva digital são os idosos, que, movidos pela busca por soluções rápidas e pelo medo de doenças, acabam consumindo conteúdos que podem levar à interrupção de tratamentos comprovados ou à adesão de práticas ineficazes, colocando a própria saúde em risco. Esses materiais, impulsionados por algoritmos e criados em grande escala, capitalizam sobre a vulnerabilidade e a urgência para angariar milhões de visualizações e, em última instância, comercializar produtos duvidosos.

A experiência da senhora Celi Ferreira, de 82 anos, ilustra a dimensão do problema. Ela se deparou com um vídeo no YouTube onde um “médico” prometia a preservação da visão através do consumo de certas frutas. Embora essa informação não tenha sido o fator determinante para sua decisão de não se submeter a uma cirurgia de catarata, Celi revelou ter acreditado na autenticidade do profissional apresentado. Esse episódio sublinha a crescente dificuldade, especialmente entre os mais velhos, de discernir entre o que é real e o que é uma sofisticada simulação criada por IA, evidenciando a eficácia da camuflagem digital utilizada nesses golpes.

Crédito: Mixvale.com.br

A proliferação industrial de ‘especialistas’ digitais que visam a população idosa

A emergência desses “médicos” virtuais integra uma estratégia global de monetização que identifica o público idoso como um segmento de alto potencial lucrativo. Essa tática tem ganhado força e se adaptado rapidamente ao cenário brasileiro, com diversos canais replicando formatos e abordagens já testados em outros países. A geração de receita desses conteúdos ocorre de duas maneiras principais: através da remuneração pelas visualizações que os vídeos alcançam nas plataformas digitais, como o YouTube, e pela venda direta de materiais como e-books e uma variedade de produtos anunciados e promovidos nos próprios canais. Este modelo de negócio explora a confiança e a esperança de quem busca alívio para problemas de saúde.

Um estudo detalhado conduzido pela organização sem fins lucrativos CTRL+Z revelou a extensão desse fenômeno no Brasil. O mapeamento identificou 29 canais em língua portuguesa dedicados exclusivamente a esse tipo de conteúdo, a vasta maioria deles estabelecida no último ano. A pesquisa aponta para uma operação de “escala industrial”, com esses canais produzindo uma média impressionante de dez vídeos por dia. O impacto é significativo: eles acumulam aproximadamente 70 milhões de visualizações e cerca de 267 mil acessos diários. A análise minuciosa desses dados sugere a existência de uma rede bem organizada, com a recorrência de vídeos idênticos em diferentes canais, indicando uma coordenação massiva por trás da produção e disseminação desses materiais.

A estratégia de exploração do temor e da urgência em conteúdos de saúde para a terceira idade

A metodologia por trás da criação desses vídeos é notavelmente calculada e precisa. Tutores especializados orientam os criadores sobre como formular títulos e roteiros que ativem sensações de medo e urgência nos espectadores. O propósito fundamental é incutir no público a percepção de um risco iminente à sua saúde, garantindo que permaneçam engajados e assistam ao conteúdo até o final. A população idosa é considerada o público-alvo ideal para essa abordagem, não apenas pela maior disponibilidade de tempo para consumir vídeos mais longos, mas também pela possibilidade de possuírem renda discricionária e, em muitos casos, uma predisposição a confiar em soluções que prometem alívio ou cura para condições de saúde.

Para conferir credibilidade aos “profissionais” apresentados, os criadores utilizam ferramentas avançadas de inteligência artificial capazes de gerar rostos e vozes que transmitem confiança. Geralmente, esses avatares são representados vestindo jalecos brancos e falando com um tom de voz calmo e autoritário. A produção é otimizada para ser de baixo custo: roteiros são frequentemente elaborados por plataformas de IA, como o ChatGPT; a narração é realizada por vozes sintéticas; e as imagens, muitas vezes, também são geradas por inteligência artificial. Essa abordagem reduz drasticamente os custos e o tempo de produção, representando uma evolução dos chamados “canais dark” ou “faceless”, onde o criador do conteúdo opta por não aparecer pessoalmente.

A eficiência e o baixo custo dessas tecnologias de IA permitem que a produção de conteúdo enganoso seja escalada rapidamente, atingindo um vasto número de pessoas. A facilidade de acesso a essas ferramentas democratiza a criação de vídeos, mas também abre portas para a disseminação em massa de informações falsas, tornando a distinção entre conteúdo legítimo e fraudulento cada vez mais desafiadora para o público em geral, e especialmente para os idosos que podem não ter a mesma familiaridade com as nuances do ambiente digital.

Casos preocupantes de idosos ludibriados e os sérios riscos à saúde pública

A análise aprofundada de aproximadamente 27 mil comentários deixados nos vídeos desses canais revelou uma série de casos alarmantes, nos quais idosos modificaram significativamente seus hábitos de saúde com base nas orientações falsas. Muitos relataram ter iniciado terapias caseiras ou, de forma ainda mais preocupante, terem abandonado medicamentos prescritos por médicos reais, trocando-os por alternativas sem comprovação científica. Essa mudança de comportamento representa um grave perigo, pois pode agravar condições existentes e impedir o tratamento adequado de doenças.

Alguns dos relatos mais preocupantes incluem:

  • Um usuário de 85 anos que optou por substituir o omeprazol, um medicamento frequentemente usado para problemas gástricos, pelo consumo de batata-doce.
  • Uma mulher de 77 anos que admitiu não procurar um médico há três anos, expressando gratidão ao “médico” de IA por conselhos sobre o tratamento de Alzheimer.
  • Uma senhora de 80 anos que interrompeu a medicação ginecológica prescrita e passou a consumir óleo de abóbora para tratar um problema urinário.

O gastroenterologista Jaime Zaladek Gil, do renomado Hospital Israelita Albert Einstein, emitiu um alerta contundente sobre as graves consequências dessas práticas. Ele enfatiza que, embora chás e outras soluções naturais possam, em alguns casos, oferecer alívio sintomático, condições médicas específicas, como a infecção pela bactéria H. pylori, exigem tratamento rigoroso com antibióticos, conforme prescrição médica. A substituição de tratamentos cientificamente comprovados por alternativas sem embasamento não só arrisca o agravamento do quadro clínico do paciente, mas também pode atrasar diagnósticos essenciais. Essa demora é particularmente perigosa em pacientes idosos, que são intrinsecamente mais suscetíveis a lesões graves e complicações de saúde, ressaltando a urgência de combater a desinformação nesse setor.

Consequências jurídicas para produtores de conteúdo falso e plataformas digitais

Especialistas da área jurídica alertam que a criação e a disseminação desses conteúdos enganosos podem configurar infrações legais graves. Thiago Bottino, professor da FGV Direito Rio, esclarece que, embora a veiculação do conteúdo em si possa não ser intrinsecamente ilegal, a conduta de uma pessoa — ou, neste caso, de uma inteligência artificial — que se apresenta como médico e prescreve medicamentos ou tratamentos sem a devida habilitação profissional, se enquadra claramente como exercício ilegal da medicina. Além disso, a falsa identidade é outro crime que pode ser imputado, visto que os criadores se apresentam com avatares de “médicos experientes” sem revelar a natureza artificial e fraudulenta de suas personas.

Filipe Medon, que também é professor da FGV Direito Rio e coordenador adjunto do AI Hub, destaca que o dano principal reside na elaboração de uma persona que simula um indivíduo real com o propósito de enganar. Essa estratégia leva os espectadores a adotarem comportamentos que podem resultar em sérios prejuízos à sua saúde. Medon argumenta que a inclusão de um aviso explícito e claro sobre a natureza de inteligência artificial do personagem alteraria fundamentalmente a percepção e o impacto do conteúdo, mitigando o potencial de engano e, consequentemente, os riscos associados.

A responsabilidade civil de plataformas de grande alcance, como o YouTube, também tem sido objeto de intenso debate. Medon aponta que, à luz da recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o Marco Civil da Internet, essas plataformas podem ser responsabilizadas legalmente. Essa responsabilidade se configura caso elas falhem em remover conteúdos que claramente caracterizem falsa identidade, especialmente após serem devidamente notificadas. No cenário em que o conteúdo enganoso é impulsionado por meio de publicidade paga, a responsabilidade das plataformas se torna ainda mais acentuada, exigindo a remoção imediata, mesmo que não haja uma notificação prévia específica. O Google, empresa controladora do YouTube, reiterou que todos os conteúdos em sua plataforma devem aderir às diretrizes da comunidade e informou que implementou rótulos específicos para identificar materiais gerados por inteligência artificial, um passo importante para aumentar a transparência e combater a desinformação.