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A partir de 1º de agosto de 2026, a gasolina comum comercializada em todo o território nacional passará a incorporar 32% de etanol em sua composição. A medida, estabelecida em julho pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), tem gerado preocupação e discussões intensas entre proprietários de automóveis e profissionais do setor de manutenção veicular, principalmente devido aos potenciais impactos no desempenho e na durabilidade dos veículos.
Especialistas da área automotiva alertam que a nova mistura de combustível trará efeitos notáveis, com destaque para um provável aumento no consumo e a consequente redução da autonomia dos carros movidos exclusivamente a gasolina. Alexandre Dias, mecânico e proprietário das oficinas Guia Norte, estima que o acréscimo no consumo pode chegar a 5%.
A raiz de parte desses problemas está na diferença da taxa de compressão dos motores. Tenório Júnior, técnico e professor de mecânica automotiva, explica que motores projetados para etanol trabalham com compressões mais elevadas, otimizando a queima. Já a gasolina, com menor índice de compressão, não consegue “queimar” o etanol de forma eficiente na proporção atual, o que pode levar a falhas, perda de potência e dificuldades na partida a frio, especialmente em modelos mais antigos.
Os veículos fabricados antes da popularização da injeção eletrônica são os mais suscetíveis a danos. Nesses modelos, o carburador é o componente de maior apreensão. Tenório Júnior detalha que esses dispositivos possuem uma passagem fixa de ar e combustível, não se adaptando automaticamente à nova proporção de etanol. Além da perda de desempenho, Bruno Bandeira, mecânico da Oficina Mecânica Na Garagem, alerta para a corrosão da peça, que não foi projetada para suportar alta concentração de etanol, podendo levar à sua inutilização.
Outro ponto crítico nos carros mais antigos são os tanques de combustível metálicos. O etanol, que pode conter até 0,7% de água, em contato prolongado com o metal, pode acelerar a corrosão. Veículos pós-anos 2000, em sua maioria equipados com tanques de plástico, tendem a estar menos expostos a esse risco, segundo os mecânicos consultados.
A bomba de combustível também merece atenção. A presença de água na gasolina, que pode aumentar se o carro permanecer inativo por longos períodos absorvendo umidade do ar, intensifica o processo corrosivo. Bruno Bandeira ressalta que esse desgaste pode afetar até mesmo a boia do tanque, responsável pela indicação do nível de combustível.
Nos sistemas de injeção eletrônica, os bicos injetores podem sofrer, principalmente em veículos sem turbocompressor. Alexandre Dias explica que a central eletrônica do carro tentará compensar o menor poder energético do E32 aumentando o tempo de injeção. Se os bicos já estiverem sujos, essa demanda extra pode agravar falhas e causar marcha lenta irregular. Velas de ignição desgastadas também podem piorar a queima, e o catalisador, ao receber combustível mal queimado, pode ter sua vida útil reduzida. Mangueiras, retentores e vedações de carros mais antigos também correm o risco de ressecar e se deteriorar mais rapidamente.
Para mitigar os impactos da gasolina com 32% de etanol, algumas medidas podem ser adotadas. Em carros equipados com injeção eletrônica, a unidade de controle do motor (ECU) pode ser atualizada para otimizar a adaptação do motor à nova mistura. Além disso, uma manutenção preventiva e rigorosa dos componentes citados é fundamental para preservar a durabilidade do automóvel, conforme destaca Alexandre Dias.
Para os modelos mais antigos, que utilizam carburador, a adaptação é mais complexa. Tenório Júnior informa que o procedimento exige ajustes finos nos furos de passagem de ar e combustível (giclês), por meio de testes e regulagens, já que não existem tabelas prontas para essa nova composição. Esse processo demanda mão de obra especializada e conhecimento aprofundado para garantir a eficiência e segurança do veículo.